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Especial da Globo realça impacto da ditadura sobre a seleção na Copa de 70

Reportagem especial do Esporte Espetacular mostrou que o governo militar usou a Copa de 70 como arma de propaganda - Reprodução
Reportagem especial do Esporte Espetacular mostrou que o governo militar usou a Copa de 70 como arma de propaganda Imagem: Reprodução
Mauricio Stycer

Mauricio Stycer

Mauricio Stycer é jornalista desde 1985. Repórter e crítico do UOL, colunista da Folha de S.Paulo, passou por Jornal do Brasil, Estadão, Folha, Lance!, Época, CartaCapital, Glamurama Editora e iG. É autor de "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018).

Colunista do UOL

14/06/2020 16h24

O "Esporte Espetacular" exibiu neste domingo o primeiro episódio de um especial sobre os 50 anos da conquista da Copa de 70, no México. Apresentado pelo repórter André Galindo, o material caprichado ocupou 38 minutos do programa - uma eternidade em matéria de televisão.

Contrariando a visão de que esporte e política não devem se misturar, o especial do programa dominical da Globo buscou explicar, de forma didática, o impacto da ditadura militar que comandava o Brasil em 1970 sobre a seleção que foi ao México.

Cerca de 20% do tempo da reportagem foi dedicado às relações entre o poder político e o futebol. Inicialmente, Galindo observou que a televisão mostrou todos os jogos da seleção, "mas nem tudo que acontecia, passava aqui", chamando a atenção para a censura, imposta pelo governo militar.

"O governo militar usou a Copa como arma de propaganda. Queria vender uma felicidade, uma ideia de país unido", disse o repórter. "Os militares aproveitaram a Copa do Mundo para esconder um monte de crimes que estavam sendo feitos. O povo achava que a nós estávamos fazendo aquilo para o governo, que era um governo militar, para esconder do povo o que estava acontecendo", diz Pelé, numa fala resgatada do documentário "Simonal, ninguém sabe o duro que eu dei".

Com a ajuda de depoimentos também de Fernando Gabeira, Nelson Motta, Gilberto Gil e Galvão Bueno, a reportagem lembrou que o Brasil vivia sob o AI-5, o ato institucional que deu poderes supremos ao presidente. "A característica principal do AI-5 na vida brasileira é que ela determinava uma censura", disse Gabeira. "E fechamento do Congresso, prisões, tortura, assassinatos, perseguições", acrescentou Galindo.

Para ilustrar uma fala de Nelson Motta sobre o clima pesado, o programa até exibiu uma situação de tortura - uma dramatização encenada pela própria emissora. Usando sombras, um homem apareceu açoitando um outro, em uma cena rápida.

O episódio da demissão de João Saldanha do comando da seleção três meses antes do início da Copa também foi rememorado com detalhes. A pressão do general Garrastazu Médici, então presidente do Brasil, pela convocação do atacante Dario e a famosa resposta de Saldanha foram revividos: "Nem eu escalo ministério, nem o presidente escala time".

Por fim, o especial da Globo lembrou de um episódio menos célebre, mas também muito marcante - os telefonemas de Médici para a concentração do Brasil para falar com Rivellino. Galindo observou: "Era difícil ligar para casa, mas de vez em quando chegava uma ligação do Brasil. Só que em 70, recomendava-se estar à disposição".

Rivellino já deu depoimentos sobre isso e voltou a se lembrar do episódio, minimizando o fato. "Foi um torcedor; nunca houve cobrança", disse, contando que Médici ligava depois dos jogos, do primeiro ao penúltimo. Como se fosse normal o presidente telefonar para um jogador, Gerson também reforça esta visão: "Não tivemos pressão de autoridade nenhuma".

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