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Aos 70, Serginho lamenta "pesadelo" atual, pede empatia e projeta o futuro

Mauricio Stycer

Mauricio Stycer

Mauricio Stycer é jornalista desde 1985. Repórter e crítico do UOL, colunista da Folha de S.Paulo, passou por Jornal do Brasil, Estadão, Folha, Lance!, Época, CartaCapital, Glamurama Editora e iG. É autor de "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018).

Colunista do UOL

29/06/2020 04h01

Serginho Groisman faz 70 anos nesta segunda-feira (29) e, em 14 de outubro, comemora 20 anos da estreia do "Altas Horas", na Globo. Nesta entrevista, ele faz um balanço da carreira, mas também reflete sobre o momento do país, lamenta a falta de empatia dos políticos e fala sobre como enxerga o futuro com o filho de 5 anos.

A conversa foi gravada remotamente. Serginho está em casa, em quarentena, desde 13 de março.

Tenho sido um espectador assim desse pesadelo que a gente tem vivido no mundo, no Brasil, e olhado, tenho refletido, pensado a respeito de como as coisas estão acontecendo, torcendo para que estejam melhores.

Serginho não é uma figura conhecida por declarações contundentes e polêmicas. É comedido, educado e gentil. Mas não deixa de registrar a sua insatisfação com o momento atual.

Quando aparece uma pandemia como essa, são dos políticos que a gente espera atitudes a serem cumpridas, a serem olhadas, replicadas, não é? Infelizmente a gente continua em um momento muito difícil, muito trágico, onde talvez a palavra que tenho usado mais é a palavra empatia, que é você tentar sentir a dor do outro um pouco. Porque está faltando um pouco isso.

Com passagens por Gazeta, Cultura e SBT, além da Globo, Serginho construiu uma carreira de muito sucesso. E estabeleceu um padrão de programa de auditório. Por isso lamenta tanto a impossibilidade atual de gravar com a plateia:

Altas Horas não é um programa de auditório, é um programa com auditório. Não é de, é com. Sem eles é uma coisa que para mim vai ser muito diferente, muito nova porque tento dentro do programa ser as vezes o espectador do programa, sabe?

A íntegra da conversa pode ser vista no vídeo acima. Os principais trechos estão transcritos abaixo. O especial do UOL sobre Serginho pode ser visto aqui.

Sergio Groisman - Divulgação/Globo - Divulgação/Globo
O apresentador Serginho Groisman, que está comemorando 70 anos
Imagem: Divulgação/Globo
Serginho, a gente tinha combinado em março de fazer uma entrevista para falar dos 20 anos do Altas Horas, né? A entrevista ia ser no dia 16 de março e no dia 13 a gente cancelou por conta da pandemia do coronavírus. Quer dizer, já são mais de três meses nessa situação. E eu começaria perguntando justamente como é que você está vivendo esse período de quarentena?
Serginho Groisman: Bom, exatamente no dia 13 de março a gente veio e não mais saiu de casa. Esses tempos têm sido tempos difíceis. Muito difícil. Tem um ou outro aspecto bom. Tenho visto o movimento que se criou no Brasil em relação à saúde, à política. Como as pessoas estão enfrentando a quarentena, a briga entre a ciência e a economia intermediada pela política. Acredito que nesse tempo foi o tempo de mais leitura, mais tempo a gente tem, a gente precisa cada um observar melhor ou determinar melhor o que fazer com esse tempo, não é? Tem gente que fica no isolamento horizontal, ou seja, fica dormindo o dia inteiro. (risos) Mas o importante é a gente tentar criar uma rotina na casa, para que... ainda mais eu que tenho um pequeno de 5 anos, criar uma rotina para que o dia a dia tenha um interesse para todo mundo, porque não é fácil essa administração. Agora, fora isso, tenho sido um espectador assim desse pesadelo que a gente tem vivido no mundo, no Brasil, e olhado, tenho refletido, pensado à respeito de como as coisas estão acontecendo, torcendo para que as coisas estejam melhores.

Eu ia perguntar justamente isso. Como você está vendo esse momento do país? Você mencionou um pouco essa confluência de ciência com política, com a vida das pessoas. Está sendo um momento muito delicado, não?
É. A gente já entrou na pandemia com o Brasil com posturas muito conflitantes. Mas acredito que sempre foi assim. A política é assim, mas ela impregnou muito as pessoas. Principalmente porque quando aparece uma pandemia como essa, são dos políticos que a gente espera atitudes a serem cumpridas, a serem olhadas, replicadas, não é? Porque a informação é, nesse momento, talvez o instrumento mais forte para que a gente possa ter uma orientação clara, não é? E no final aqui no Brasil, a gente vive essa confusão toda.

O Brasil teve uma vantagem que foi poder olhar para os países que passaram pela pandemia, e ver o que aconteceu lá, né? Os exemplos foram se sucedendo para que a gente pudesse se preparar melhor. Infelizmente a gente continua em um momento muito difícil, muito trágico, onde talvez a palavra que tenho usado mais é a palavra empatia, que é você tentar sentir a dor do outro um pouco. Porque está faltando um pouco isso.

É só ver, não só no Brasil, o que acontece nos Estados Unidos: uma falta de empatia em um momento tão difícil. Então a gente não consegue focar naquilo que deveria ser uma atitude comum, comum mesmo, né? União política, união artística, união... Para combater uma coisa só, e depois a gente volta e vê o que a gente tem de diferenças em relação à política, a economia, não é? Até as posturas individuais. Então sinto assim.

Você vinha exibindo melhores momentos desses 20 anos do Altas Horas e agora no início de junho você gravou também da mesma forma como a gente está conversando aqui, você gravou uma entrevista com o João Carlos Martins. Isso vai continuar a partir de agora? O que você planejando?
Nós temos esse arquivo, esse baú do Altas Horas, que tem coisas que considero muito especiais, preciosas mesmo. Nós iríamos exibir de qualquer jeito. Não mostrando programas inteiros, né? Mas apareceu infelizmente essa condição, então as pessoas estão podendo rever algumas coisas bem interessantes. Pessoas que não viram e algumas que podem rever. Tudo muito baseado em música, né? Que é atemporal, vamos chamar assim. Claro que os programas são datados, mas aos poucos estou tentando transformar aqui de casa o programa, com interferências cada vez maiores.

Os quadros que a gente havia planejado no estúdio estamos transformando eles aqui em virtuais. Várias ideias novas estão aparecendo para que a gente use e misture a música de arquivo com entrevistas, e conversas, e quadros mais quentes. Um dos quadros, inclusive, chama empatia, que é exatamente conversar com pessoas que precisam da empatia. Pessoas que estão sofrendo agressões ou incompreensões. E isso vai até enfermeiros que são agredidos, sabe? Pessoas que estão trabalhando porque precisam, pessoas que em função da cor, em função da mobilidade, em função de serem gays, ou participar de algum movimento LGBT ... Então esse é um dos quadros.

O outro quadro é com crianças até 10, 11 anos. Conversando um pouco sobre o que a gente está passando aqui nos dias de hoje. A visão da criança, porque as crianças estão sendo severamente afetadas, não é? Fora do convívio social, fora das escolas, fora das ruas. Tive uma infância de rua mesmo. De poder jogar bola na rua, de poder correr, pipa, bolinha de gude. Essas coisas já estavam se perdendo, mas ainda as pessoas iam nos parques, nos condomínios, e na rua mesmo. E as crianças para mim estão sendo muito penalizadas. Em uma inocência, lembra alguns filmes em que os pais tentam maquiar a realidade, para que as crianças entendam por que não podem sair de casa. Sem mentir, mas tentando organizar e tentando projetar.

Auditório do Altas Horas - Divulgação - Divulgação
"Altas Horas não é um programa de auditório, é um programa com auditório"
Imagem: Divulgação

A plateia é algo essencial no seu programa. Diria até que é a alma do seu programa. A tua interação com o público é uma espécie de referência, mesmo, para quem se interessa por programa de auditório. É um auditório muito especial que você criou e desenvolveu ao longo da sua carreira. Mesmo encerrando a pandemia, vai haver imagino, restrições à aglomeração, a muita gente junta. Vocês já estão pensando sobre isso?

A gente não sabe direito o que vem. A Globo tem sido, logo que começou, ela foi muito rígida em relação a preservação da saúde das pessoas. Ela imediatamente parou todo o entretenimento. Você sabe melhor, todas as novelas, programas de auditório, aglomerações, contatos. Ficou o jornalismo, que é essencial para a população. Quando começou, a Globo já pensava: 'Vamos gravar com pouca gente no auditório.' Depois: 'Vamos gravar sem auditório!'. Daí no final era: 'Não vamos gravar!'. Como ninguém sabe direito o que vem pela frente, não se sabe se essas aberturas do comércio, essas flexibilizações vão dar certo ou não, parece que não. Então não dá para a gente ter uma projeção.

Claro, o programa com gente, com auditório, faz falta. Como essas lives da música que são interessantes, mas não tem reação de plateia... E o Altas Horas é um programa feito com o auditório, não é um programa de auditório, é um programa com auditório. Não é de, é com. Sem eles é uma coisa que para mim vai ser muito diferente, muito nova porque tento dentro do programa ser as vezes o espectador do programa, sabe? Não é sempre o protagonista, é uma divisão mesmo. Então vamos ver.

Você acha que nesses novos tempos com tanta concorrência, You Tube, redes sociais, a TV aberta está conseguindo atender satisfatoriamente esse público, que você agregou e vem trazendo há tantos anos?
Hoje a TV aberta está muito calcada no jornalismo. Caso eu fosse jovem e tivesse com a curiosidade que sempre tive, eu iria procurar a TV aberta para informação. Claro que na internet, principalmente nos portais mais confiáveis, a gente tem informação imediata também. Acho que a TV aberta ainda tem um papel muito grande a cumprir, porque essa estrutura que possibilita fazer o grande auditório, com condições técnicas legais, ele ainda vai persistir, eu acredito.

O que vejo é que nessa pandemia apareceram novos nomes, muito ligados às redes sociais. Eu vi um texto teu a respeito de como o humor está se destacando nessa pandemia. Porque os ótimos humoristas conseguem fazer de casa, graças a um texto inteligente, a um texto atual, humor bom, humor crítico. Acho que é possível uma convivência.

Nessa trajetória magnífica você se tornou uma das figuras mais queridas no meio artístico. A que você atribui esse respeito tão grande que existe em relação a você?
No Colégio Equipe tinha um teatro. Fiquei durante 10 anos, depois que acabei, fazendo um trabalho que era o de levar artistas que não podiam se expressar em função da ditadura militar. Lá comecei a conhecer os artistas, o que era muito muito legal. Eu cuidava de tudo, de produzir esse show, pegar a luz, colar cartaz e pegar o artista em casa com o meu Fusca branco. Na casa ou no hotel. Né? Então no meu Fusca foram, em um dia só, Cartola, Nelson Cavaquinho, Delegado, Dona Zica e Clementina, todos amontoados ali. Peguei Gil, Caetano, João Bosco, Walter Franco. Conheci Luiz Melodia, conheci os Novos Baianos. Então vem de quando eu tinha vinte e poucos anos, (risos) essa minha relação com os artistas.

Você podia fazer uma série chamada 'se o meu Fusca falasse'.
Eu era muito desleixado. Ele foi muitas vezes parado pela polícia, porque o emplacamento, tudo era muito atrasado. Tem uma conversa até com o João Bosco, que a gente foi parado e nos exigiram o LP do João Bosco para poder sair. O primeiro show foi com o Egberto Gismonti, e o último show foi com o Raul Seixas. E toda semana durante dez anos. Então esse conhecimento com o meio artístico começou daí com os músicos, né?

E do Equipe saíram muitos músicos também, como Titãs, saíram diretores como Cao Hamburguer, saíram jornalistas, políticos. Já lá dentro entre os alunos, já tinha essa divisão entre os que vieram afundar o PT, com aqueles que vieram a ficar mais à direita, ou aqueles que só pensavam em arte, com aqueles que só pensavam em fumar. Era uma Torre de Babel e eu lá no meio. Acho que essa minha proximidade com grupos diferentes na escola, e com a classe artística levando eles para cantar, foi o que meio me detonou essa possibilidade de eu ir para os meios de comunicação, fazer jornalismo. Eu trabalhei na Folha também, dar aula na FAAP, dirigir a Rádio Cultura AM, fazer um pouco de televisão, enfim, sempre ter a arte como uma referência, para poder trabalhar porque é isso que me dá muito prazer.

E você também, ao longo do tempo nos seus programas, sempre teve essa preocupação de combinar a música mais tradicional com a mais atual, não? As novas tendências, as músicas que estavam fazendo sucesso. Você até foi um pouco criticado por trazer muita música da hora, só por conta do sucesso. Como você lida aí com isso? Como é para você achar esse mix em termos de qualidade e popularidade de música para levar para o seu programa?
No colégio, eu sabia muito claramente para quem eu estava falando, eu sabia quem ia no show. Eram os alunos, os amigos. A plateia que amava Gil, Caetano, o samba. Quando entrei na televisão, e comecei a ter o meu próprio programa, e a dirigir, e faço isso desde 1988, não sabia direito: 'O que é isso? Para quem estou falando?'. Então falei assim: 'Não, vou continuar fazendo, só levar aquilo que eu realmente acho que eu gosto.' Era um critério que ainda vale muito, para mim.

No Matéria Prima, que foi o primeiro programa com auditório, levei Paulo Freire para entrevistar, levei o Sepultura para cantar, Paralamas, Capital. Levava rock, levava MPB, até que um dia levei o Ovelha. E a TV Cultura não media muito a audiência. Pelo menos não passava isso para mim. E teve um retorno absurdo. Quer dizer, tem esse lado da música, que ele é muito popular e que no começo as pessoas mais cabeças, elas pensam: 'Não, não vamos mexer com isso.'. E daí com o tempo fui percebendo que o importante não é quem você convida, mas o que você faz com o convidado. O que você extrai desse convidado. Porque as vezes tem histórias muito interessantes em convidados que são muito populares, e que não são extraídas. E claro, eu trabalho a partir daí indo para o SBT, com um espectro muito grande, onde procuro sempre fazer uma 'mistureba' para que os dois lados, se é que a gente pode falar assim, possam ouvir um pouco daquilo que é bem popular, e daquilo que eles nunca ouviram. Então a ideia da mistura é essa.

E a ideia de chamar assim a popularização é essa também. Onde a audiência também é maior e também a gente faz com que pessoas que nunca se apresentaram, se apresente. Por isso que alguns programas que fiz, a gente lançou alguns nomes importantes, né? A primeira vez que o Skank se apresentou foi comigo, a primeira vez que o Charlie Brown Jr. se apresentou foi comigo, a primeira vez que o Nação Zumbi, acho que em televisão se apresentou, foi comigo. Assim por diante. A gente vai trocando ali no meio de outras coisas, e algumas pessoas são agradecidas por isso. Isso já é muito bom.

Cassia e Elza - Reprodução - Reprodução
Cassia Eller e Elza Soares na gravação do piloto do "Altas Horas", no ano 2000
Imagem: Reprodução

Você vai fazer 20 anos à frente do Altas Horas. Você é capaz de elencar cinco momentos inesquecíveis do programa? Se você quiser falar dez também, mas aí acho que a gente vai ter um programa muito longo (risos).
O piloto do programa não foi ao ar, mas ele é inesquecível. Com o cenário ainda não pronto, mas com plateia, com algumas ideias para ver depois o resultado junto a outras pessoas. Então fiz um piloto que tinha Cássia Eller com Elza Soares. O piloto era gigante. Eu tinha uma ideia no começo de fazer um programa de quatro horas. Começando à meia noite e indo até as 4 da manhã, ao vivo. Era uma ideia absurda, que nem eu sabia de onde tirei. E aí depois de uma conversa, eu poxa falei: 'Para mim tem que ser gravado, porque ele é muito tarde'. Vejo as vezes pessoas que vêm de ônibus, 14 horas, 15 horas, depois voltam no mesmo dia, vêm só para assistir o programa. E lá elas bocejam. Imagina fazer um programa da meia noite às 4. Ia ser absurdo. Então esse piloto que tinha quatro horas, para mim, apesar de não ter levado ao ar, um programa muito especial.

Você nunca mostrou esse piloto na TV?
Partes. Já mostrei muito a Cássia Eller com a Elza Soares, muito. Os programas de aniversário foram também mágicos, em momentos que a gente tinha condições financeiras, o país também vivia um outro momento. Então nós fizemos um programa na concha acústica em Salvador com a banda original do Tim Maia, o Vitória Régia. E lá todos os baianos famosos do axé tiveram que cantar na versão original do Tim Maia. Todos, todos eles. Pensar em um e ali estavam, né? Margareth, Ivete, Claudia Leitte, Carlinhos Brown, Durval Lélys, todo mundo estava lá cantando. Depois a gente foi para Curitiba, fomos para o Rio de Janeiro, fomos para Porto Alegre, fizemos em São Paulo no auditório do Ibirapuera, um especial com a Rita Lee. Esses são programas inesquecíveis, cada um deles.

Nas redes sociais esses programas de comemoração são uma referência, são memes, né?
São memes. Virou um meme porque quando nós completamos dez anos, resolvi fazer o que eu ia fazer agora com os vinte. Estou fazendo. Que é quase todo programa sendo um aniversário. E aí as pessoas: 'Hoje é dia do aniversário do Serginho! Hoje é dia do aniversário do...'. E o Danilo Gentili começou com isso, a fazer isso. 'Ah o Sérginho faz aniversário hoje de novo, parabéns e tal!'. Então esses aniversários são inesquecíveis. Os programas de homenagem as pessoas ainda vivas, são programas que adoro fazer. Fizemos do Erasmo, Zeca Pagodinho, Milton Nascimento, Djavan, Ivete, tem muitos ainda a serem feitos.

Você vai fazer 70 anos e mais da metade desse tempo você esteve sob os olhos do público, né? Sendo visto, né? Na televisão e em outras mídias. Uma figura pública, enfim. Você sente falta de privacidade? Como você lida com isso?
Quando se torna uma pessoa que as pessoas conhecem, não dá para você falar em privacidade absoluta, mas dá para você falar no desincentivo ao culto da tua personalidade, vamos chamar assim. Existem pessoas que, por opção, e não tenho nenhuma crítica a elas nesse sentido, elas têm ao redor pessoas que alimentam essa vontade de se manter sempre presente, todo dia na vida das pessoas, através de fatos divulgados, através do dia a dia, através de assessorias. Não é um julgamento, é só um modo meu de querer viver a vida.

Então, na minha casa, faço eu o supermercado, não é outra pessoa e eu adoro. A Fernanda não fala nada. 'Você adora, melhor para você!'. Então as pessoas as vezes se espantam em me ver no supermercado. Mas a abordagem não é uma abordagem assim tão forte. Hoje em dia ela é mais intensa em função do celular, todo mundo quer uma selfie e tudo bem. Sei como é e você encara dessa maneira. O que não faço é uma exposição muito forte do meu dia a dia. É uma opção. E acho que tenho tido resultado na rua também. As pessoas meio que sabem como sou. Eu tento administrar isso nas redes sociais. Nunca coloquei, por exemplo, fotos da minha mulher e do meu filho, mas no programa as vezes o meu filho invade, e aí aconteceu já isso mais de uma vez, e aí deixo porque foi uma vontade dele mesmo.

Serginho e Thomas - Reprodução / Internet - Reprodução / Internet
Serginho Groisman e o filho Thomas, de 5 anos
Imagem: Reprodução / Internet

Você tinha 64 anos quando se tornou pai. Isso também foi uma notícia fora do seu percurso tradicional. Como você lida com isso?
É. Eu me preocupo muito com o meu pequeno em relação a isso também, a ser filho de uma pessoa que é conhecida. Tento evitar ao máximo essa exposição. Acho que de modo geral os pais têm essa preocupação muito grande. Agora quando eu me tornei pai, virou realmente uma coisa muito curiosa. Eu demorei tanto porque eu queria ter certeza de um monte de coisas.

Essa relação com o tempo é engraçada para mim, porque não consigo projetar muito o futuro, né? E sempre foi assim. Foi assim desde o momento que eu falei: 'O que que eu quero ser?'. Quando eu era pequeno, a família fazia um pouco a minha cabeça, ainda naquele momento com o triângulo Direito, Engenharia e Medicina. Se você fosse um dos três, você estava bem na família, e a família ficava feliz. Mas eles logo souberam, com a liberdade que eles me deram, e graças a eles que eu ia para o outro lado.

Meu pai e minha mãe eram cinéfilos. A minha infância era uma infância de ida aos domingos a pelo menos dois cinemas, onde cada cinema passava dois filmes. Então fui criado muito nesse ambiente imaginário. Eu tinha perto de casa o Cine Paris, que depois virou um supermercado, que eu pedia para a minha mãe para a gente ir durante à tarde, onde não tinha exibição de filmes, só para ficar s olhando a tela meio imaginando o que poderia acontecer. Então eu vivia esse momento de imaginação.

Tanto é que entrei em uma faculdade de direito, na PUC de São Paulo, fiquei um ano. Fui para história da USP, larguei depois de um ano e meio. E acabei em jornalismo, na FAAP. Depois voltei a ser professor.

O que que eu quero dizer com tudo isso é que nunca falei: 'Eu tenho um objetivo claro na vida. Vou ser advogado, médico, ou engenheiro, ou jornalista, ou artista, ou um dia vou apresentar um programa de televisão. E na Globo.' Eu sempre, a partir do momento que comecei a trabalhar, sempre pensei onde estou. Sabendo que o lugar onde estou, para mim, é o melhor lugar do mundo. Onde eu tenha paz, liberdade e uma boa convivência. E onde o resultado, seja um resultado que seja bom para uma outra pessoa também além de mim.

E aí acho que já comecei a desenvolver um pouco dessa relação com o outro, de gentileza, sabe? Acho que é um pouco pela formação amorosa que a pessoa tem em casa, na escola. Então, nunca consegui projetar. E como não consegui projetar, nem essa coisa do filho, que é uma coisa que sempre quis. Apareceu mais recentemente. Eu conheci a Fernanda, minha mulher, durante um programa que pouca gente menciona. Chamado Ação. Quando entrei na Globo em 1999.

Você fez muitos anos o Ação, né?
Foram 12 anos, durante todo sábado. Era um programa do terceiro setor, falava de ONGs de educação. Foi onde conheci minha mulher, a Fernanda, que ela andava pela Amazônia, dentista, e preocupada com amamentação, trabalhando com as comunidades ribeirinhas e os índios. E ela veio com essa coisa da amamentação, que ela sempre quis amamentar.. A gente se casou. Ficamos, demorou para gente ter também o Thomas... Temos agora, e ele é o exemplo de tudo que ela sempre quis.

Enfim, de novo, acho que foi um pouco dessa coisa 'Ah é agora... Vamos agora! Vamos agora!'. Na TV Cultura, um dia, Silvio Santos me ligou. Fui conversar com o Silvio, foi muito engraçado. Eu falei: 'Olha, não vai dar, porque sei que você interfere muito dentro dos programas. Ele falou: 'Não, você pergunta para o Jô, pergunta para o Boris, pergunta para a Marília Gabriela.'

Saí da reunião e ali no SBT eu vi o Bozo com a Vovó Mafalda, com o Homem do Sapato Branco, com o Gugu Liberato, todo mundo andando pelo corredor. Falei: 'Essa é a televisão brasileira!' E a TV Cultura foi muito legal, falou: 'Leva esse projeto que foi nascido aqui para outros lugares, para mais gente!' E assim foi. Daí quando no SBT eu ia assinar com o Silvio, que eu assinava a cada dois anos com ele, me deu um clique assim e falei: 'Posso assinar amanhã?', ele falou: 'Pode!'. Daí cheguei em casa tinha na minha secretaria eletrônica um convite, tinha uma conversa de alguém da Globo: 'A gente quer falar com você!'. Então foi meio assim. Não foi assim: 'Vamos trabalhar para um dia estar na SBT. Eu vou trabalhar para um dia estar na Cultura. Vou trabalhar... Vou fazer de tal jeito que vai me levar para...'.

Entendi. O tempo para você é isso, é o hoje, né? Você não está planejando. O que me poupa também fazer uma pergunta que seria inevitável, sobre o futuro. O que você planeja para frente, porque acho que você quer é fazer o seu programa amanhã, né?
(risos) É isso. O meu futuro agora é com o meu filho, isso é futuro. Minha mulher, meu filho, isso eu penso no futuro. Penso muito no futuro. Penso no futuro dele. Essa pandemia tem feito... A gente está há 90 dias junto, e tem sido nesse sentido muito maravilhoso assim, essa convivência muito muito especial nesse sentido. De resto tenho feito até uma pergunta para os entrevistados que é assim: vamos dizer que tenha sido um pesadelo, que você acordou e você soube que foi tudo errado. Ninguém morreu, ou que quem já morreu já morreu, ninguém mais vai morrer. O que você faria agora? O que é que você ganhou?

Qual que é sua resposta para essa pergunta?
Minha resposta é que eu sairia igual sobre vários aspectos, mas tenho o valor maior aos amigos. O Bertolucci tem um filme com o John Malkovich. Ele viaja, daí ele pergunta: 'Você sabe qual é a diferença entre o turista e o viajante? É que o turista assim que o avião sai, já está pensando na volta. Você sai de casa, será que esqueci alguma coisa? Será que... Já estou pensando como que minha casa vai estar na volta. O viajante não, ele pensa para frente.' Acho que a gente vai sentir falta, a falta que a gente tem, não como viajante, mas como turista. Da saudade das coisas do dia a dia.

É isso, espero que você possa voltar a fazer o mais breve possível o teu programa. Essa entrevista realmente é uma tentativa de homenagear você, a sua trajetória, o respeito que eu, como espectador e crítico, tenho pelo seu trabalho, e dar os parabéns antecipado pelos 70 anos e pelos 20 anos do Altas Horas, por tudo que ele representa para a televisão.
Agradeço! Queria dizer que como já falei do jornalismo, queria falar a respeito pelos jornalistas que trabalham com televisão, do papel que eles têm hoje muito grande. Porque extrapolou muito o conteúdo da televisão. Hoje você não pode falar da televisão sem falar de política. Você não pode falar de televisão sem falar de medicina. Você não pode falar de televisão sem falar de economia, porque isso está tudo junto, não é? Então eu também queria deixar outro parabéns ao bom jornalista, não é? Aquele jornalista preocupado mesmo com o ofício, que é o ofício do outro. De quem lê, de quem ouve, de quem assiste. Com tanta violência também ligada ao jornalismo, que tem acontecido, que merece uma indignação muito forte.

Mauricio Stycer