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Programas policiais na TV não têm limites; "Cidade Alerta" é investigado

"Quem é amigo desse homem sabe quem é?, disse Bacci ao apresentar imagem borrada de suspeito de crime  - Reprodução
"Quem é amigo desse homem sabe quem é?, disse Bacci ao apresentar imagem borrada de suspeito de crime Imagem: Reprodução
Mauricio Stycer

Mauricio Stycer

Mauricio Stycer é jornalista desde 1985. Repórter e crítico do UOL, colunista da Folha de S.Paulo, passou por Jornal do Brasil, Estadão, Folha, Lance!, Época, CartaCapital, Glamurama Editora e iG. É autor de "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018).

Colunista do UOL

19/07/2020 06h01

Programas jornalísticos têm a obrigação de dar notícias, não de ser notícia. O "Cidade Alerta" contrariou mais uma vez este princípio básico e voltou a ser notícia esta semana por motivos trágicos.

O programa da Record divulgou na segunda-feira (13) a imagem de um homem suspeito de um crime bárbaro. Como reconheceu o apresentador Luiz Bacci, ainda que borrada, a fotografia permitia que o homem fosse identificado.

Disse Bacci: "Ainda não temos autorização para mostrar sem esse borrão. Mas quem conhece esse homem já passa informações para a polícia. Quem é amigo desse homem sabe quem é".

Horas depois da exibição desta imagem, conforme registra o boletim de ocorrência do caso, o homem foi assassinado com sete tiros. Conforme relato do filho dele, ele foi procurado em casa por diversas pessoas e levado a um local desconhecido.

Perguntei à Record por que o "Cidade Alerta" exibiu a imagem mesmo sabendo que o homem poderia ser identificado. A emissora respondeu que "entre amigos, familiares, testemunhas e moradores da região de Salto, todos já sabiam quem era".

Dois dias depois de esta coluna ter revelado o caso, o repórter Rogério Pagnan, da Folha, informou que a Polícia Civil instaurou um inquérito para apurar se profissionais da TV Record cometeram crime ao mostrar imagem do homem como suspeito de um crime.

Escreve o repórter: "A polícia afirma que Dias não era suspeito de crime algum. Diz que só foi procurada por produtores do programa quando a matéria já estava no ar, com uma série de informações imprecisas."

Há pouco mais de um mês, o programa comandado por Luiz Bacci foi notícia após a filha de um homem assassinado se sentir desrespeitada pela abordagem de uma repórter.

"Eu perdi meu pai hoje e não estou vendo um pingo de respeito aqui. Vocês falando que ele é agiota, gente! Como assim, qual é essa informação? Da onde vocês tiraram isso, por favor? Eu acho que vocês têm que ter um pingo de consideração!", reclamou. "Achei que o jornalismo da Record era mais responsável".

Por serem considerados jornalísticos, programas como o "Cidade Alerta" podem ser exibidos em qualquer horário. Todas as restrições sobre a apresentação de cenas violentas em novelas durante o dia não valem para os jornalísticos.

Estes programas não costumam atrair muito interesse comercial, ou seja, não têm muita publicidade. Mas alcançam boa audiência, ajudando as emissoras a elevar as suas médias, o que pode ter impacto positivo na hora de negociar a venda de comerciais.

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Uma versão deste texto foi publicada originalmente na newsletter UOL Vê TV, que é enviada às quintas-feiras por e-mail. Para receber, gratuitamente, é só se cadastrar aqui.

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