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Galvão é um dos maiores narradores do país, mas Globo não precisa exagerar

Mauricio Stycer

Mauricio Stycer

Mauricio Stycer é jornalista desde 1985. Repórter e crítico do UOL, colunista da Folha de S.Paulo, passou por Jornal do Brasil, Estadão, Folha, Lance!, Época, CartaCapital, Glamurama Editora e iG. É autor de "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018).

Colunista do UOL

21/07/2020 06h01

Galvão Bueno faz 70 anos nesta terça-feira (21) e, com justiça, está sendo objeto de variadas homenagens. A maior de todas foi do Esporte Espetacular, da Globo: uma matéria de 24 minutos neste domingo (19) louvando o narrador.

Uma coisa que me incomoda neste tipo de homenagem é o exagero nos adjetivos: "a maior voz do esporte brasileiro". Galvão tem uma carreira incrível, substantiva, importante. Não precisa destes exageros.

O fato de ter construído sua carreira na Globo faz dele, possivelmente, a voz mais ouvida do país. Ok. E por tudo que narrou, Copas, Olimpíadas, Fórmula 1, os mais variados e importantes eventos, com certeza, é uma das vozes mais significativas do esporte brasileiro.

Mas acho injusto e desnecessário com tantos outros grandes narradores, do passado e do presente, a Globo determinar que ele é o maior de todos. Todo mundo que ama esportes tem um ou mais de um narrador favorito.

Teve muita repercussão na reportagem do Esporte Espetacular o pedido de desculpas de Galvão a Cafu e Zinho pelas críticas durante a narração da Copa de 94.

Pelo critério, o excesso de cornetadas, Galvão teria que pedir desculpas a centenas de atletas. É uma marca sua. É um narrador que comenta, torce, dá palpite, orienta os jogadores, e até sabe o que eles estão pensando, como brincou certa vez Jô Soares, dizendo-se incomodado com seu talento "mediúnico".

Na última década, Galvão passou a dizer que é um "vendedor de emoções". É uma boa definição. Ele entende que mesmo a partida de futebol mais chata do mundo não pode deixar o espectador desanimado. E cabe a ele, o narrador, a missão de colocar cor, emoção, nas transmissões. Mesmo que seja preciso exagerar um pouco.

Neste domingo, o repórter Tino Marcos, o favorito de Galvão, acrescentou uma característica ao vendedor de emoções: "Da euforia ao desânimo, Galvão domina as expressões como um ator", disse Tino. Achei perfeito.

Galvão tem uma voz extraordinária, mas isso não basta. É preciso talento artístico. Como outros grandes narradores, ele encontrou uma forma pessoal, original, de descrever os jogos, os eventos esportivos, como grandes sagas épicas. Parabéns para Galvão pelos seus 70 anos, e 46 anos de carreira.

Mauricio Stycer