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O que os cinco principais telejornais falaram dos 100 mil mortos por covid

Balões e cruzes em Copacabana, no Rio, lembram as 100 mil mortes pelo novo coronavírus no Brasil - Ricardo Moraes/Reuters
Balões e cruzes em Copacabana, no Rio, lembram as 100 mil mortes pelo novo coronavírus no Brasil Imagem: Ricardo Moraes/Reuters
Mauricio Stycer

Mauricio Stycer é jornalista desde 1985. Repórter e crítico do UOL, colunista da Folha de S.Paulo, passou por Jornal do Brasil, Estadão, Folha, Lance!, Época, CartaCapital, Glamurama Editora e iG. É autor de "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018).

Colunista do UOL

09/08/2020 07h01

Para quem se interessa por jornalismo na televisão, este sábado, 8 de agosto, oferece material de sobra para estudos. Foi neste dia que o Brasil ultrapassou a marca dos 100 mil mortos pela covid-19 - uma notícia trágica, mas esperada.

Todas as emissoras de TV aberta tiveram tempo para planejar a cobertura deste fato, que tem forte apelo simbólico. As opções escolhidas refletem três visões muitos diferentes da situação.

Em uma ponta está a Globo, para quem a pandemia e as 100 mil mortes não podem ser compreendidas sem levar em conta como o governo Bolsonaro está enfrentando a situação. Em outro canto estão Record, SBT e Band, que reconhecem a existência de uma crise sanitária, mas a enxergam como um problema que passa longe da esfera federal. Por fim, há a RedeTV!, que não vê qualquer importância no assunto.

O "Jornal Nacional" deste sábado dedicou 38 minutos (de um total de 64) a notícias sobre a pandemia, em especial, sobre o marco dos 100 mil mortos. Um texto analítico, de quatro minutos, fez inúmeras críticas à postura do presidente Bolsonaro nestes cinco meses e questionou se o seu governo está cumprindo o que a Constituição estabelece como dever do Estado em matéria de saúde.

"Jornal da Band", "Jornal da Record" e "SBT Brasil" destacaram a marca trágica nas respectivas aberturas e dedicaram, em média 10 minutos cada ao noticiário sobre a pandemia.

Band e Record não fizeram o menor esforço para explicar como o país chegou nesta situação - algo essencial num momento como esse. No SBT, um "especialista" mencionou a "falta de união entre esferas governamentais", mas o seu depoimento, editado, não esclareceu muita coisa.

Além do registro das 100 mil mortes, os três telejornais trouxeram reportagens "leves", algumas até bem-humoradas, sobre a pandemia, como que para compensar a gravidade do momento.

"O lado bom da quarentena: com muita gente trabalhando e estudando em casa, pais e filhos melhoram a convivência", anunciou o "Jornal da Band". No mesmo telejornal também vimos "Cariocas criam kit para curtir a praia: cada um no seu quadrado", sobre a iniciativa de um empreendedor de delimitar áreas na areia para uso dos banhistas.

O "Jornal da Record" dedicou bom tempo para mostrar como cachorros podem ajudar na detecção da covid na Alemanha. Como se a pandemia tivesse começado há uma ou duas semanas, o telejornal também trouxe reportagem sobre "novos hábitos, que vieram para ficar", como máscaras e cuidados de higiene.

O maior investimento do "SBT Brasil" foi uma reportagem no Rio mostrando como vai o negócio de Erika Martins, a "Erika Bronze", que oferece uma laje em Realengo para mulheres se bronzearem. "Sol na laje é opção mais segura na pandemia", anunciou o telejornal.

O "RedeTV! News" dedicou pouco mais de um minuto à notícia do dia, praticamente o mesmo tempo que deu para um relato sobre a pandemia nos Estados Unidos.

Se é verdade que "o jornalismo é o primeiro rascunho da história", como disse Phil Graham (1915-1963), um dos donos do "Washington Post", haverá dificuldades de entender, no futuro, como foi a pandemia de coronavírus no Brasil. Mas sobrarão informações sobre o jornalismo que se praticava então.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL