PUBLICIDADE
Topo

Na briga de Bolsonaro com a Globo, Record tem papel fundamental

Mauricio Stycer

Mauricio Stycer é jornalista desde 1985. Repórter e crítico do UOL, colunista da Folha de S.Paulo, passou por Jornal do Brasil, Estadão, Folha, Lance!, Época, CartaCapital, Glamurama Editora e iG. É autor de "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018).

Colunista do UOL

24/08/2020 15h26

Na briga que já dura dois anos entre Jair Bolsonaro e a Globo, é preciso destacar o papel que a Record ocupa no caso. A emissora é aliada do presidente e rival da emissora carioca.

No domingo (23) à tarde, como todo mundo a esta altura já sabe, o presidente ofendeu e ameaçou um repórter do jornal O Globo. Após o jornalista perguntar sobre cheques depositados por Fabrício Queiroz e sua mulher da conta de Michele Bolsonaro, o presidente disse: "Minha vontade é encher a tua boca com uma porrada".

À noite, o "Domingo Espetacular", da Record, exibiu uma reportagem de 13 minutos sobre as acusações de dois doleiros. Eles afirmaram em delações ter sido contratados para facilitar transações financeiras ilegais para dois membros da família Marinho. A Globo nega as acusações. O "Jornal da Record" já havia exibido na semana passada duas matérias sobre o mesmo assunto.

Nesta segunda-feira (24), em vez de dar alguma explicação sobre a sua atitude no domingo, o presidente preferiu citar no Twitter a reportagem do "Domingo Espetacular" e acusar a Globo de persegui-lo há dez anos. Posteriormente, em cerimônia, disse que os jornalistas são "bundões".

Como falei no vídeo da semana passada, a briga de Bolsonaro com a Globo é explícita há dois anos, desde a campanha presidencial de 2018.

Edir Macedo, dono da Record e fundador da Igreja Universal, declarou apoio a Bolsonaro em setembro de 2018, ainda durante o primeiro turno da campanha eleitoral. Desde então, Bolsonaro tem privilegiado a Record com entrevistas e informações exclusivas. Como mostrou a Folha, o governo reduziu a publicidade oficial na Globo e aumentou na Record.

A cobertura que a Record tem feito da pandemia de coronavírus não incomoda o governo, diferentemente da que faz a Globo, chamada pelo presidente de "TV Funerária". O vice-presidente de jornalismo da Record, Antonio Guerreiro, já disse que viu "alarmismo" na cobertura da concorrência e privilegia uma abordagem que, segundo ele, mostre que há esperança.

As divergências e hostilidades entre a Globo e a Record já duram mais de 30 anos, desde que Edir Macedo comprou a emissora paulista da família Machado de Carvalho e de Silvio Santos. A novidade é esta aliança com o governo Bolsonaro, que considera a Globo inimiga.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL