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Ricardo Feltrin

Ex-catador de latinha e sem-teto vira apresentador de sucesso na internet

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Erlan Bastos, ex-morador de rua que virou apresentador e youtuber de sucesso Imagem: Reprodução
Ricardo Feltrin

Ricardo Feltrin é colunista do UOL desde 2004. Trabalhou por 21 anos no Grupo Folha, como repórter, editor e secretário de Redação, entre outros cargos.

Colunista do UOL

20/10/2018 07h20

Erlan Bastos nasceu numa família pobre em Manaus 24 anos atrás. O pai, Edvaldo, e a mãe, Elandia se conheceram na cidade, e logo que o filho nasceu perderam seus empregos quase que ao mesmo tempo. Sobreviviam fazendo bicos.

Ainda muito menino Erlan passou a catar latinhas na rua para ajudar a família. Por dois anos, aliás, foi quem sustentou a todos.

O menino sonhava com um  futuro melhor, porém, tinha uma dúvida: não sabia se queria ser motorista de ônibus ou repórter.

Aos 14 acabou pendendo para o jornalismo graças a um apresentador de Manaus que montou uma "web rádio" e chamou Erlan para fazer um programete.

Depois passou pela produção de outros programas em TVs locais, mas quase sempre trabalhando de graça. Só foi receber um dinheirinho anos depois, na produção de um programa policial.

Tudo foi caminhando bem, e ele chegou a ter um programa de fofocas num canal a cabo local. Então Erlan tentou dar o maior salto: vir para São Paulo na cara e na coragem e vencer na vida.

Começou a dar tudo errado assim que pisou na rodoviária do Tietê, em 2015.

Foi assaltado a mão armada e perdeu tudo que tinha. Sem conhecer ninguém e sem ter aonde ir, foi morar com mais uma dezena de sem-teto sob um viaduto na avenida Cruzeiro do Sul, próximo ao Terminal Tietê.

Morou ali por três meses. Passou fome, sofreu agressão de policiais, ofensa de motoristas e dependeu da caridade alheia para se manter vivo. .

Três meses foi o tempo que seus pais precisaram para juntar dinheiro necessário para comprar uma passagem para que ele voltasse a Manaus.

Três anos depois Erlan tem um canal no YouTube com mais de 22 mil inscritos, centenas de milhares de curtidas e 16 mil seguidores no twitter. Parece pouco para o mundo digital atual, mas ele diz que isso basta para "pagar o aluguel, comprar comidinha e ajudar a família".

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Erlan Bastos, youtuber, quando morou na rua sob um viaduto na zona norte de São Paulo Imagem: Reprodução
Leia a seguir a incrível história do catador de latinha e morador de rua que está fazendo sucesso nas redes sociais.

Como você entrou nesse "ramo" do jornalismo?

Erlan Bastos - Quando eu era criança tinha dois sonhos, ser motorista de ônibus ou repórter. Mas, depois passei a me apaixonar por comunicação. Um famoso apresentador de Manaus criou uma "web rádio" quando eu tinha 14 anos e me chamou para fazer um programa.

Mas, na época, a internet lá era discada, então era bem difícil ter audiência. Além disso eu não recebia nada.

Fiquei lá até os 16, quando passei a ser repórter de comunidades em uma produção independente exibida na RedeTV em Manaus. Eles não sabiam minha verdadeira idade e aquele trabalho ainda não era remunerado. Mas, como eu estava na TV, pra mim já era um sonho realizado.

Depois fui para um outro programa na mesma emissora, um programa policial. Só aí passei a receber (risos). Na  época quase todas as produções da Rede TV eram independentes.  Por fim montei um programa de fofocas ("Hora do Veneno") em um canal da TV a cabo de lá e fez muito sucesso.

Você tem um estilo, digamos, diferente... Não cobre famosos, mas "desconhecidos" que se tornam célebres temporariamente, não é? Tipo grávida de Taubaté, a menina-pastora...

Erlan Bastos - Sim, os conhecidos ''memes''...  porque muita gente tem curiosidade de saber o que está por trás do personagem do "meme", quem é, como vive... Na verdade acho que a grávida de Taubaté não é uma celebridade temporária, porque daqui a uns 20 anos ela ainda vai ser conhecida hahaha...

Mas, a Natasha Caldeirão, por exemplo, ou a "minipastora" evangélica, foram essas entrevistas que me deram uma certa visibilidade na internet.

Quando você montou seu canal no You Tube?

Erlan Bastos - Foi agora em abril. Na verdade eu tinha desde 2016 mas não postava nada. Tinha por ter. Então a primeira reportagem que coloquei lá meio que ''sem querer'' foi com as "Fadas do Deboche", que deu polêmica (graças a Deus já esclarecida).

Aí vi que a repercussão foi alta então postei uma segunda reportagem sobre a "minipastora" evangélica que hoje tá tem mais de 600 mil visualizações. Aí resolvi apostar no canal com conteúdo assim.

Além do canal, o que mais você está fazendo hoje profissionalmente?

Erlan Bastos - Hoje eu só tenho o canal e um portal de notícias, estava trabalhando na Rede Meio Norte que é uma emissora independente do Nordeste --um grupo grande, inclusive--, mas hoje não faço mais parte. Tenho alguns projetos pro ano que vem, mas nada certo.

Por que você decidiu sair de Manaus e vir pra São Paulo sozinho?

Erlan Bastos - Olha eu saí de Manaus em 2015 e procurava uma melhoria de vida tanto pra mim quanto para a minha família. Não nasci em berço de ouro, minha mãe é do interior do Acre, nossa vida sempre foi muito difícil. Eu era catador de latinha quando pequeno. Então resolvi vir a São Paulo como muita gente faz: em busca de um lugar ao sol e para ajudar a família.

Tenho várias perguntas de uma vez: por que você acabou morando na rua aqui em SP? Veio sem dinheiro nenhum? Alguém prometeu te ajudar? Quanto tempo você morou na rua?

Erlan Bastos - Por partes: a passagem para São Paulo estava muito cara, então eu fui de Manaus para o Espírito Santo, porque saía mais barato ir para Vitória e depois descer para São Paulo, do que vir direto de Manaus. Foi o que fiz.

Saindo da rodoviária em São Paulo fui assaltado. Levaram todos os meus documentos, todo dinheiro que eu tinha sacado no Rio na última parada do ônibus.

Fiquei sem chão, tinha acabado de sair da rodoviária literalmente. Procurei o posto policial que é ali próximo mas parecia que eu estava falando com as paredes. Nem boletim queriam fazer.

Me senti desamparado. Eu morei por três meses na rua, que foi o tempo que minha mãe levou para juntar dinheiro para comprar uma passagem pra eu voltar pra Manaus.

Passei um tempo em Manaus, peguei minha certidão nova, tudo mais, tive acesso à minha conta bancária e aí voltei a São Paulo novamente. Teimoso. Para tentar do zero de novo, dessa vez vim já acertado que dividiria um quarto.

Vi aquela sua foto do tempo em que morou numa barraca improvisada na rua. Onde é aquilo?

Erlan Bastos - Aquela barraca é bem ali na ponte Cruzeiro do Sul, do lado do terminal Tietê, às margens do rio. Era difícil manter a barraca de pé porque policiais com frequência a derrubavam .

Você disse que sofreu violência nesse pouco tempo que morou na rua, que as pessoas jogavam comida em você e em outros moradores... conte mais um pouco sobre isso?

Erlan Bastos - Ali na região em que eu morava tinha um grupo de 15 sem-teto mais ou menos. Uma vez um grupo de policiais chegou lá procurando drogas. Me colocaram de joelhos e começaram a bater nas minhas costas com cassetete.

Lembro que cada um tinha ganho uma marmita no almoço no dia anterior, e cada um comia um ou duas colheres de vez em quando, pra poder render, porque sabe Deus quando viria comida de novo.

E o policial jogou as marmitas no chão. A humilhação era diária, tanto de policiais como de pessoas comuns. Sempre havia jovens passando de carro e jogando comida na gente, tipo resto apenas: osso, salgado.. e rindo muito.

Sem dúvida um dos piores momentos da minha vida. Até hoje quando passo nesses locais eu me arrepio. dá um calafrio na espinha, sabe?

E agora, como você está se virando, como está ganhando dinheiro, onde está morando?

Erlan Bastos - Agora estou morando em um apartamento alugado, hahaha! Ainda não tenho meu próprio, né? Mas, ganho dinheiro apenas com o canal no YouTube e com meu portal mesmo. São minhas únicas rendas. Não é muita coisa, mas dá pra pagar o aluguel, comprar comidinha e ajudar a família um pouco.

Qual seu grande sonho hoje? Trabalhar numa TV como repórter? Ter seu próprio programa, o quê?

Erlan Bastos - Meu sonho é trabalhar em uma TV e fazer o que faço atualmente no meu canal. Gosto de contar histórias, gosto de viver a reportagem, de conhecer as pessoas.

As reportagens podem mudar as coisas, a vida das pessoas, e com coisas muito simples.

Por exemplo, a Natasha Caldeirão estava fazendo muito sucesso nas redes sociais, mas ninguém sabia qual era o Instagram dela, como ela era, já que na "pegadinha" que ela participou na TV mal dava pra ver o rosto dela.

Ela tinha 8.000 seguidores no dia que cheguei pra fazer a matéria. Hoje ela tá com 50 mil e viajando o país inteiro, fazendo presença VIP. Eu acho modestamente que a reportagem ajudou a mudar a vida dela (e ela é muito grata e me agradece sempre que pode).

Mas, eu só conto a história, quem cativa o público é o personagem. Muita gente já até me chamou de ''Geraldo Luis da internet'' mas gosto de ser o Erlan Bastos mesmo. Eu conto a história de um jeito diferente porque já passei por dificuldades.

Meu sonho é trabalhar em uma emissora de TV e contar história e continuar mudando vidas tanto de quem eu entrevisto como de quem assiste.

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