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Cobertura da festa na TV é um "carnaval de clichês"

Pilar Olivares/Reuters
"Folião" se prepara para entrar na avenida, no "maior espetáculo da Terra" Imagem: Pilar Olivares/Reuters
Ricardo Feltrin

Ricardo Feltrin é colunista do UOL desde 2004. Trabalhou por 21 anos no Grupo Folha, como repórter, editor e secretário de Redação, entre outros cargos.

08/02/2016 11h29Atualizada em 17/02/2016 15h12

Usei aspas no título acima porque é óbvio. Desde meus tempos de editor, sempre me surpreendi com o que ocorre com repórteres de TV no Carnaval. Tenho a impressão que, de todo o tipo de cobertura jornalística, o Carnaval é aquele que o repórter menos se preocupa com o chamado distanciamento profissional. Na verdade, muitos não têm distanciamento nenhum. Especialmente nas TVs.

Por exemplo, durante a Copa 2014 você não via repórteres brasileiros berrando gol, emocionados, ou abraçando jogadores após o fim das partidas.

Na eleição você jamais verá repórteres se confraternizando com eleitores nas ruas, festejando nas zonas eleitorais (hoje isso é mais um trocadilho), ou fazendo piadinhas de salão. O mesmo vale para tragédias – grandes acidentes, crimes ou desgraças naturais; nesses casos você recebe em sua casa informações precisas, análises isentas (no caso de política e futebol) e todos os profissionais passam a seriedade que precisam.

Mas, no Carnaval, tudo muda. Os editores de todas TVs – sejam abertas ou fechadas –, das mais sisudas como Globo, SBT e GloboNews, às mais informais, como a RedeTV! e Band, parecem dar carta branca aos repórteres para que eles façam o que bem entender durante o evento.

Eles podem fazer entradas berrando no meio de blocos, serem abraçados e até beijados por festeiros (sempre quis entender por que a palavra “pessoa” vira automaticamente “folião” no Carnaval), e principalmente parecem ter salvo-conduto para fazer toda sorte de perguntas preguiçosas e inúteis aos entrevistados.

Jornalismo nesta época do ano é – desculpem a provocação aos repórteres amantes do lugar-comum –  “um Carnaval de clichês e asneiras”.

Parece que, subliminarmente, existe uma competição para saber qual jornalista fará a pergunta mais óbvia e insossa; quem vai ser o primeiro a ficar sambando diante da tela abraçado aos festeiros; que repórter será a primeira a ser agarrada e beijada por um (argh) “folião”.

Ontem, na sempre séria e competente GloboNews , a repórter exclamava: “A galera vai ao delírio aqui em Olinda!” A câmera virava para um grupo de crianças e ela dizia, qual em êxtase numa epifania: “Olhem só as crianças!”

Nãããão! Achei que eram duendes!

Repórteres da Bandnews também disputaram o título de clichê jornalístico: “O calor aqui é tanto que até esquentou a economia…” (uuuuuuh).

Segundos depois, entrevistando um casal de alemães, outra repórter da Band capricharia no mais surrado dos chavões carnavalescos: “O casal de alemães veio aqui para ver o MAIOR ESPETÁCULO DA TERRA”.

A Globo também fez das suas. Cena: câmera exibe uma bola de futebol alegórica sobre a bateria da escola. Narrador Luis Roberto: “Vejam essa bola de futebol sobre a bateria”.

Ah, vá! Achei que era um Ovni. Afinal, é realmente muito necessário narrar ao telespectador o que ele ESTÁ VENDO.

Uma repórter da Globo no Rio também se esmerou em perguntas "profundas", como a que fez ao atacante Gabriel (Gabigol) do Santos: “E aí, Gabriel, como é a emoção de estar pela primeira vez na Sapucaí?” Aaaaaaaaaaaaargh!

“Emoção” é a palavra mais agredida na cobertura das TVs, sempre incluída em perguntas que não significam absolutamente nada.

 

Na Globonews, quase ao mesmo tempo, lá estava ela novamente  na vinheta: “Desfile do Grupo Especial emociona o público de São Paulo.”

 

Outra repórter então corre entrevistar uma senhora baiana que --mas que perspicaz!-- ia desfilar na ala das baianas!!!!!! E soltou:

“Então, para a senhora como é a emoção de entrar na avenida?”

VERGONHA ALHEIA

Na RedeTV!,  a situação foi constrangedora. Não tanto pelas perguntas de repórteres que insistem em trabalhar sempre perto de uma caixa acústica no último volume, de forma que nem o convidado ouça a pergunta, e nem o repórter ouça a resposta. Não. O maior constrangimento é a “descontração” forçada dos âncoras Nelson Rubens e Flavia Noronha.

Isso sem falar em participações absolutamente inexplicáveis de convidadas do porte de uma Renata Banhara.

Como jornalista, como editor, e principalmente, como telespectador, me pergunto como é que as emissoras podem investir milhões nessa cobertura, com passagens aéreas, diárias, alimentação, hotéis, equipamentos de última geração, logísitca... e ainda assim não se importam que seu time de repórteres chegue aos locais de desfile com pelo menos um rol de perguntas menos medíocres.

Isso não é nada difícil e tem até um nome simpático: chama-se “planejamento de pauta”.

Dados sobre a economia e a cultura local onde passarão os blocos ou ocorrerão desfiles; preparação de artes gráficas ou animações explicando quais as ruas estarão fechadas, qual o trajeto das festas; endereço de locais de achados e perdidos; ou de hospitais que estarão funcionando; como agir caso presencie um crime; quais os melhores meios de transporte; telefones para denunciar comerciantes e ambulantes que estão extorquindo as pessoas; como e para quem denunciar imediatamente psicopatas, grupos ou gangues de assediadores a mulheres? Nada disso... Só o "brilho da avenida".

MESMICE COM M

A verdade é que, se as TVs brasileiras estivessem enganando os telespectadores e exibindo imagens e entrevistas de carnavais de anos passados, NINGUÉM ficaria sabendo. Porque suas equipes fazem as mesmas perguntas óbvias ano após ano.

“Como é a emoção de estar… (preencha você mesmo)”; “Como você se sente… (preencha)”; “Aqui a festa não tem hora pra acabar” (no Circuito Barra Ondina); “Mostra aí pra gente o samba no pé…” (para qualquer celebridade prestes a entrar ou sair da avenida).

Eu soube pelas redes sociais em tempo real que ontem, no Rio, houve arrastões, que turistas e mesmo cariocas foram assaltados, que mulheres foram agredidas até aos socos… mas não vi nada disso nas TVs, que só falavam sobre “a festa do povo”.

Por que isso? Volto ao começo deste texto: porque jornalistas (de TV especificamente) ficam menos profissionais durante o Carnaval, e cobrem a festa como se fossem apenas mais um – argh! de novo – folião; e não uma pessoa com obrigações para com o telespectador.

Não vou culpar apenas os repórteres por essa preguiça jornalística em ampla escala. Não. A culpa começa nas redações, que funcionam no piloto automático e, ano após ano, não fazem o menor esforço para renovar ou recriar uma cobertura anual. Parece que não há nenhum interesse em levar informação relevante, e principalmente, em prestar serviço aos telespectadores.

Carnaval na TV brasileira é o “maior espetáculo da Terra", sim. Um espetáculo do óbvio e do clichê.

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