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Carta aberta (de amor) a Jô Soares

Reprodução/TV Globo
Fim do Programa do Jô signfica, entre outras coisas, fim de um ótimo programa Imagem: Reprodução/TV Globo
Ricardo Feltrin

Ricardo Feltrin é colunista do UOL desde 2004. Trabalhou por 21 anos no Grupo Folha, como repórter, editor e secretário de Redação, entre outros cargos.

03/03/2016 10h02

Querido Jô,

Desculpe, mas precisava mesmo te escrever. Perdoe-me por ser assim, tão exagerada e publicamente, mas sou um ansioso. Na verdade queria dizer o quão fiquei triste ao saber, outro dia, aqui mesmo no UOL, que seu programa vai deixar minhas noites no final do ano. Eu não queria que você saísse sem antes saber algumas coisinhas a nosso respeito… Ééééé... “nosso respeito”...

Acontece que, graças ao destino, você estava no primeiro programa de TV que eu me lembro de ver, ainda muito criancinha. Eu não devia ter nem 4 anos quando vi pela primeira vez aquele gordinho bonitinho e fofo dentro do aparelho de TV, num programa que eu chamava “Famia Tlapo”.

A despeito da exuberância e exageros do saudoso e lendário Golias, o meu verdadeiro ídolo no programa era você. Veja só como somos tolinhos na infância.... Entre meus sonhos de criança bobinha um deles era ser seu amigo!

Aliás, parece mentira, mas por causa sua virei goleiro! Porque no dia em que o Pelé foi visitar a “famia Tlapo” você foi jogar no gol. E eu pensei: se meu amigo gordinho é goleiro eu também vou ser. E virei um arqueiro até que razoável, veja só.

Jô, você, acima de tudo, é um artista e muitas vezes o artista não faz a menor ideia da influência que tem na vida alheia.... vou dar uns exemplos:

Edevaldo, Zamboni, Isaac, Jorge, Demarchi, Valter, Arnóbio, Ubirajara, Nelsão, Valmir, Eduardo… sabe que nomes são esses? São os nomes dos meus melhores amigos de infância, puberdade e adolescência, respectivamente. Sabe o que todos têm em comum:? Todos eram gordinhos.

Parece mentira, mas, graças à paixão que eu nutri desde criança por você, eu me tornei não só amigo, mas um defensor implacável dos gordinhos. Sempre que via algum idiota na escola ou na rua fazendo bullying contra um gordinho, eu partia pra cima. Sim, no braço, totalmente ignorante.

Claro que às vezes me dava muito mal nesse pugilato da justiça. Ou seja, também apanhei muito por sua causa. Mas eu te perdoo ;-)

Se quer saber, acho que apanharia ainda hoje --caso ainda fosse se ainda um valentão-- porque fico enfurecido quando leio ou ouço alguém falando mal de você por aí ou escrevendo asneira a seu respeito na internet.  

Se bem que eu até entendo porque tem gente que se arrisca a fazer isso. Apresentador, ator, escritor, roteirista, diretor, dramaturgo, cenógrafo, poliglota, talentoso, carismático, engraçado e ainda por cima fofo… Rá! Claro que sempre vai ter gente que não suporta o fato de você ser tudo.

Para mim, você sempre foi muito, como pode perceber. A vida toda eu acompanhei seu trabalho, e nunca me canso de te assistir e de rir muito com você. Do "Faça Humor não Faça Guerra" ao "Viva ao Gordo". Do Jô do SBT ao nosso Jô agora na Globo. Do diretor de teatro. Do escritor (tadinhas das gordinhas Esganadas!)

Por sinal, foi durante um de seus programas, quando você entrevistou o pequeno anjo Arthur Amorim (que infelizmente morreria pouco depois), foi nessa noite que eu me tornei uma pessoa melhor. Ou menos pior.

Como você foi delicado com Arthur! Como foi gentil e amoroso com aquela criança --tão enorme por dentro e maltratada por fora. Naquela noite, na sua entrevista, meu coração partiu ao meio para sempre: porque pela primeira vez doeu claramente o ver o quão abençoado a gente é somente por ter saúde. 

E como fomos abençoados por ter uma criança como Arthur entre nós, ainda que por pouco tempo.

Ah! Não posso esquecer também de quantas vezes vi um convidado ficar petrificado na sua frente, e você, craque, driblar o entrevistado-problema, carregar a entrevista sozinho,  e ainda nos fazer morrer rir.

Claaaaro que no dia seguinte alguém já ia correndo postar alguma coisa do tipo: “você viu? o Jô ontem não deixou o entrevistado falar”; “Só o Jô quer falar”; “Aquele gordo exibido!”

Ora, essa gente não faz ideia do que é um entrevistado gelar. Nem percebem que assistiram não a uma entrevista na TV, mas a um verdadeiro milagre.

Você me desculpe escrever assim, Jô, e expor dessa forma para todo mundo essa nossa intimidade de quase 50 anos (rs), mas eu precisava dizer como é grande o meu amor por você.

Muá!

Ricardo.

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