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Comentário: "Altas Horas", 15, é o último reduto de boa música na Globo

Thiago Duran/Agnews
Serginho Groisman, há 15 anos no "Altas Horas" e há 15 anos líder de audiência na TV Imagem: Thiago Duran/Agnews
Ricardo Feltrin

Ricardo Feltrin é colunista do UOL desde 2004. Trabalhou por 21 anos no Grupo Folha, como repórter, editor e secretário de Redação, entre outros cargos.

19/03/2016 14h48Atualizada em 19/03/2016 14h48

Há poucos programas na TV aberta tão subestimados pela crítica e, muitas vezes, até mesmo pela própria Globo, como o “Altas Horas”, de Serginho Groisman. O programa está há 15 anos no ar, e também há 15 anos é líder absoluto de audiência na TV.

A despeito de seu público fiel e de sua liderança inconteste, o fato de ser exibido em um ingrato horário da madrugada faz com que a atração seja pouco divulgada e também pouco analisada pela imprensa em geral.

Serginho Groisman não chega a ser uma unanimidade nem de público nem de crítica --aliás, nem a favor e nem contra.

A crítica mais comum que recebe do chamado “povão da internet”, por incrível que pareça, é o fato de, aos 65 anos, ainda continuar se dirigindo aos jovens. Como se fazer boa comunicação tivesse idade.

Além disso Serginho não só é um bom apresentador, mas também um dos entrevistadores mais sensatos e cordiais da TV. Deixa o convidado falar, faz perguntas pertinentes, ao mesmo tempo em que interage com o público como poucos.

Ok, você pode bocejar ou não gostar, mas, para quem é fã, há semanas de espera para poder sentar na plateia do “Altas Horas”.

TUDO É MÚSICA

Bem produzido, quase sempre com ótimos convidados e, principalmente, muito bem comandado, o programa tem uma outra grande virtude: é hoje a única atração da Globo que foge do que podemos chamar de “padrão de música popularesca”. Popularesca e ruim, aliás.

Bem, muitos leitores podem dizer: música ruim pra quem, cara-pálida? Bom, antes de mais nada para o colunista, já que é o signatário do texto e dono da coluna; não dá para falar na terceira pessoa do singular ou do plural. Em segundo lugar, é possível arriscar: “música ruim” para qualquer pessoa que tenha gosto pouco acima de “medíocre” (leia-se sucesso de rádio).

Porque, convenhamos, os demais programas de auditório da Globo não trazem nenhuma atração musical que vá além disso --do medíocre.

O “Encontro com Fátima Bernardes”, por exemplo, parece  obcecado em levar o Péricles e funkeiros dia sim, dia não. Talvez seja porque esses convidados sempre dão chances para a apresentadora fazer suas dancinhas, que depois viram memes. Mas, afinal, o que vale é bom conteúdo ou virar meme?

Já o “Domingão do Faustão”, sem comentários. Há séculos não exibe nada de relevante na música, com exceção de um ou outro medalhão da MPB de vez em nunca. Além disso, parece que, para pisar no palco de Fausto Silva, tem de ser, obrigatoriamente, grupo ou artista da Som Livre (Grupo Globo).

O mesmo vale para o resto da programação da emissora: “Caldeirão”, “Esquenta” (outro programa que era obcecado por Péricles, e, graças a Deus, no momento, está fora do ar), “Mais Você”... Até mesmo programas como o “Globo Esporte ou “Fantástico”, quando utilizam música, é sempre a mesma coisa: pagode, funk, funk, pagode. Certamente o Brasil tem música melhor que isso.

Nesse ponto, o “Altas Horas”, isso é preciso dizer, vai contra essa corrente, embora não dispense convidados pagodeiros, funkeiros e sertanejos, que sempre batem ponto no programa também.

Só que, ao mesmo tempo, é o único palco em que se pode ouvir artistas do naipe de um Djavan, ou o harpista Jonathan Faganello, a cantora Jamah, o tecladista Jacob Collier, a soprano Bruna Amaral, ou a norte-americana pop Emily Osment. Neste sábado, por exemplo, Gil e Caetano estão programados como atrações.

Por tudo isso, enquanto tiver o “Altas Horas”, o telespectador ainda terá alguma chance de ouvir boa música na Globo. Aproveitem, portanto, porque não se sabe até quando isso vai durar...

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