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Saiba como funciona o mercado de compra de shows no Brasil

Divulgação/Rubens Cerqueira
Empresário ouviu Jorge e Mateus quando ainda não eram famosos, e enriqueceu Imagem: Divulgação/Rubens Cerqueira
Ricardo Feltrin

Ricardo Feltrin é colunista do UOL desde 2004. Trabalhou por 21 anos no Grupo Folha, como repórter, editor e secretário de Redação, entre outros cargos.

23/04/2016 12h24Atualizada em 23/04/2016 17h57

No circuito nacional showbiz --em termos de eventos musicais de médio a grande porte--, o Brasil é muito mais pródigo em histórias de fracasso que de sucesso. O motivo é simples: investir em contratação de shows no Brasil é uma temeridade, que já deixou uns poucos ricos, mas legiões inteiras de empresários quebrados (sem falar nos ex-funcionários).

Casos como o de Roberto Medina e o lucrativo Rock in Rio são a exceção. Já no andar de baixo, dos shows privados ou públicos, o mercado é mais variado. E talvez mais perigoso.

Até cinco anos atrás ainda havia um efervescente mercado de shows de artistas de primeiro e segundo escalão no Brasil.

Novos empresários se arriscaram na área de compra de shows, e São Paulo concentra ainda a maioria desses escritórios, seguido pelo Rio.

Veja como funciona o mercado de compra de shows de artistas (necessário obviamente ter empresa aberta na área de entretenimento):

Exemplo 1:

A dupla Bela & Recatada é uma novidade; as irmãs  (lindas e talentosas) surgiram no interior de Goiás dois anos atrás cantando “emboladas”; com o tempo passaram a fazer covers de outros artistas renomados e se deram razoavelmente bem. Elas até hoje se mantêm no chamado circuito de “segunda”: tocam em grandes bares e restaurantes, casas noturnas, boates, escolas e em uns poucos pequenos eventos em cidades etc.

O ex-investidor da Bolsa Onofrino Simeão, 59 anos, está com dinheiro extra e quer fazer uma aposta de risco para, se vencer, lucrar muito, mas muito mesmo.

Após muito pesquisar e ouvir gravações de vários artistas em ascensão, Onofrino amou o som e as irmãs "Recatada e Bel" . Ele faz uma oferta: digamos que ele pagará R$ 300 mil por 30 shows delas. Ele deixa no contrato a data aberta indefinidamente. 

Onofrino passa os próximos meses calmo com sua aposta, esperando e, abençoado pelo destino, um belo dia Bela & Recatada explodem após uma apresentação-relâmpago no Faustão.  Lindas, deliciosas e, principalmente, talentosas, elas disparam nas rádios, aparecem em outros programas de TVs, dão entrevistas, enfim, se tornam o mais novo sucesso nacional. O cachê delas dispara.

Em sua casa em Maresias, Onofrino está num sofá de oito lugares com a patroa e o bichón frisé Bolota, assistindo ao Faustão, quando vê seu investimento entrar no palco. Ele abre o sorriso para Carmen, a patroa, e dá um piscadela. Ela já sabe que ele acaba de ter lucro de novo, seja lá com o que for. Carmen se aninha dengosa no peito de Onofrino, no sofá. Sabe que é uma mulher de sorte.

Onofrino ainda sorri sem parar: poderá vender cada um dos 30 shows por um valor que agora só Deus sabe.

Exemplo real: um esforçado empresário, com ótimo ouvido, ouviu a dupla Jorge & Mateus no final de 2004, quando eles ainda estavam começando a engatinhar na carreira. Ele teria comprado exatos 30 shows de Jorge e Mateus, com data em aberto. Apostou que seriam um sucesso.

Moral da história: só com o imenso lucro que teve com esses shows, ele montou uma grande empresa de entretenimento.

Exemplo 2:

Com o dinheiro que ganhou com as irmãs Bela & Recatada, Onofrino tomou gosto pelo mundo dos shows e agora quer investir pesado. Sonha alto. Quer agora comprar um show da cantora Ivete Leitte. Ele procura o empresário da cantora e faz uma oferta (geralmente à vista). O valor oferecido por ele, R$ 150 mil, é bem menor que o que Ivete cobraria hoje (R$ 350 mil). Mas, nunca se sabe o amanhã, e Ivete não rasga dinheiro. Ela aceita porque recebe 100% já.

E outra coisa: a veterana Ivete Leitte não é boboca como as novatas irmãs goianas Bela & Recatada, e o contrato dela exige que Onofrino terá de “gastar” esse show comprado até janeiro de 2018, e fechar a data dele até julho de 2017.  É isso ou bye-bye show, porque o dinheiro já foi.

Onofrino e seus representantes passam a sondar o mercado e renegociar esse show, para revendê-lo com o máximo de lucro possível: seja para uma cidade aniversariante, seja para um festival de música patrocinado pela cerveja Spoll, seja para a festa particular de um próspero industrial e playboy do Pará, criador de gado, bombado, metido a celebridade local e até envolvido com uma ex-BBB..

A negociação evolui com o playboy. Se Onofrino vender seu show de Ivete Leitte a ele,  por R$ 200 mil ou 400 mil, ele pode embolsar um lucro absurdo em poucos meses ou mesmo semanas, desde que o comprou o show.

Todos os demais ônus do show passarão para o playboy, que se chama Lacir (de "laço"). Lacir acaba brigado com a ex-BBB na semana seguinte, e tenta desfazer o negócio. Onofrino diz não e Lacir terá de revender novamente o show… e assim por diante --até uma data “x”, quando, pelo contrato, Ivete não permitirá mais a nenhum contratante que efetue novas mudanças. Lembrem-se que ela já embolsou o dinheiro

RISCO TOTAL

O problema de investimentos como os dois exemplos acima é eles são de altíssimo risco. Pode ganhar muito, mas também pode perder tudo e mais um pouco. 

Há uma lista de imponderáveis, que vão desde a falência de algum sucontratado ou mesmo de quem comprou o show; acidentes ou cataclismas da natureza, eventos públicos (apagões), isso sem falar na chance de acidente com os artistas contratados. ou ainda casos de doença ou mesmo, ou pior, sua morte.

Tudo isso é imprevisível e faz parte da aposta.

Se tudo desse errado para Onofrino Simeão, ele ficaria R$ 150 mil menos rico. Porque, convenhamos, ele nunca ficará pobre. Além disso já faturou muito com as goianas.

Então, meses depois, em outra reviravolta da vida, Onofrino decide se lançar ao cargo de prefeito de sua cidade natal, e... acaba comprando de volta o seu próprio show, só que agora superfaturado!

O show de Ivete Leitte vai ser a chave de ouro de seu último comício de campanha, o "comício da vitória".

Tcharã... acabou. Espero ter sido didático.

ps - o colunista agora está no twitter, é verdade, juro: @feltrinoficial

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