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Ricardo Feltrin

Análise: Na morte de Vitória, Record bate Globo no ibope; valeu a pena?

Divulgação/Arquivo Pessoal
Foto da adolescente Vitória Gabrielly foram divulgadas na internet por familiares Imagem: Divulgação/Arquivo Pessoal
Ricardo Feltrin

Ricardo Feltrin é colunista do UOL desde 2004. Trabalhou por 21 anos no Grupo Folha, como repórter, editor e secretário de Redação, entre outros cargos.

Colunista do UOL

17/06/2018 10h27

Dados preliminares de audiência mensurados pela Kantar Ibope mostram mais uma vez que a Record cresce em momentos de tragédia --nos quais quase sempre abusa de sensacionalismo, é bom lembrar.

Foi assim em casos como o das meninas Eloá e Isabella Nardoni (2008), Mércia Nakashima (2010) e, mais recentemente, na tragédia do desabamento de um prédio no centro de São Paulo, no mês passado

Ontem, mais uma vez, a emissora da Barra Funda chegou a derrotar o “Caldeirão do Huck”, da Globo, por quase uma hora no confronto direto, enquanto abusava da tragédia da menina Vitória, cujo corpo foi encontrado em uma estrada de terra no interior de São Paulo.

A adolescente VItória Gabrielly Vaz, 12 anos, estava desaparecida desde o último dia 8, quando foi vista andando de patins em Araçariguama.

Ontem o corpo foi finalmente encontrado. Há um suspeito preso e seu nome não foi divulgado até o momento, tampouco a causa da morte.

GUERRA DE AUDIÊNCIA

Na TV, o “furo” da descoberta do corpo da menina foi da Globo, dado por Sandra Annemberg logo após o jogo Peru 0 x 1 Dinamarca.

Em seguida a emissora retomou a programação normal com o “Caldeirão”, que uma hora depois seria interrompido novamente para a exibição de Croácia 2 x 0 Nigéria.

A Record não interrompeu a programação, embora tivesse passado a semana toda especulando sobre o sumiço da menina, alterando inclusive quadros do “Balanço Geral” para manter o tema em voga.

Às 16h45, porém, ao começar o “Cidade Alerta”, a Record mostrou mais uma vez sua especialidade: abusou do jornalismo sensacionalista, especulativo, com exageros, hipérboles e, principalmente, pouca informação relevante.

O (bom) apresentador Luiz Bacci foi levado pelo espiral do ibope e perdeu o tom enquanto descrevia (desnecessariamente) várias e várias vezes o estado do corpo da menina.

Isso sem falar na exibição exaustiva, pelas câmeras, do pai da morta chorando em desespero.

Tudo feito não para informar, mas mexer com as emoções primárias do telespectador.

Por fim, quero crer que foi coincidência, e não algo intencional: só depois de  o jogo Croácia e Nigéria terminar (a Globo então liderava com folga a audiência) é que a Record exibiu as imagens da mãe de Vitória recebendo a informação oficial da morte da filha, e entrar em colapso.

O que é pior: do ponto de vista jornalístico, a Record e seus repórteres não tinham nenhuma informação exclusiva ou mesmo relevante para transmitir.

A equipe passou praticamente as três horas apenas especulando sobre hipóteses e boatos.

Acabou recebendo críticas de setores da polícia por causa disso, inclusive, pois mais atrapalha do que ajuda as investigações.

A Record ficou em primeiro entre 18h e 19h.

Chegou a ter picos de 19 pontos na Grande SP, onde cada ponto equivale a cerca de 72 mil domicílios, enquanto o “Caldeirão do Huck” marcou cerca de 17 (no confronto direto).

A pergunta é: valeu a pena? Para o jornalismo evidentemente que não.

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