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Ricardo Feltrin

Opinião: Domingo virou o "dia oficial" do assistencialismo na TV aberta

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Geraldo Luís, o rei do "drama" na TV aberta Imagem: Reprodução/YouTube
Ricardo Feltrin

Ricardo Feltrin é colunista do UOL desde 2004. Trabalhou por 21 anos no Grupo Folha, como repórter, editor e secretário de Redação, entre outros cargos.

Colunista do UOL

07/10/2018 06h21

Quem acompanha o noticiário de TV e, em especial, desta coluna, sabe que o dia mais caro e valioso para as emissoras é o domingo.

O motivo é que nesse dia, em tese, toda a família está em casa, e muitas pessoas que nunca assistem TV durante a semana (porque trabalham) têm essa possibilidade de lazer nos finais de semana.

Anunciantes fazem fila para anunciar aos domingos, nos intervalos de boa parte dos programas da TV aberta. A pergunta é: será que o domingo realmente ainda é o dia mais valioso para a televisão e para a  publicidade?

Pergunto isso porque, do ponto de vista de programação, a resposta definitivamente é não.

Hoje , domingo, do ponto de vista de conteúdo, acredito ser o pior dia da semana. Domingo virou sinônimo de programação apelativa, de sensacionalismo, de dramatizações exacerbadas e muito, mas muito assistencialismo.

Pela manhã temos o “Domingo Legal”, um dos pioneiros do assistencialismo televisivo, já desde os tempos de Gugu Liberato. Com Celso Portiolli pouca coisa mudou.

O programa continua convocando pessoas pobres de simples a se inscrever numa disputa para reformar ou construir uma casa no “Construindo um Sonho”.

“O Domingo Legal” tem ainda um outro quadro assistencialista disfarçado de game familiar, o “Comprar é Bom, Levar é Melhor Ainda”, em que famílias (pobres também) passam uma hora podendo comprar o que quiserem num mercado e depois respondem a um quiz, para ver o que podem ou não levar para casa.

Muitas vezes é quadro deprimente.

Já na Record, quase no mesmo horário, temos o atual campeão de apelação da TV aberta nacional: o “Domingo Show”.

Comandado por Geraldo Luís, esse programa parece não ter escrúpulos na escolha de situações “constrangedoras”.

Pode ser um teste de DNA envolvendo um famoso (que todo mundo já sabia que ia dar negativo); um desconhecido que não vê a família há 30 anos (“Quem São Meus `Pais?”); ou coisas mais comezinhas como um fã “doente” que quer conhecer a Gaby Amarantos ou até alguém que quer dinheiro emprestado “para seguir uma carreira”.

O apresentador não só se envolve, mas age da forma mais sensacionalista possível, enrolando às vezes uma hora com um único quadro.

O mesmo está valendo para Rodrigo Faro, cada vez mais colocando o pé no assistencialismo e nas lágrimas.

No SBT Eliana também tem sua “cota” de "emotividade" semanal..

Mulheres e homens (pobres mais uma vez) que se consideram feios podem se inscrever no quadro “Beleza Renovada” e ganhar um tratamento estético do programa.

Tudo filmado com muitos detalhes e com direito a um “antes e depois”, geralmente acompanhado de lágrimas copiosas de parentes dos “renovados”.

Até o “Agora é Domingo”, com José  Luiz Datena, anda flertando com esse mundo do chororô, já que a produção faz sempre o que pode para fazer algum convidado ir às lágrimas, emocionado com alguma lembrança da vida ou da carreira.

Grosso modo, é um “cover” do “Arquivo Confidencial” do Fausto Silva, que há décadas força a barra até o artista homenageado “se emocionar”

Por tudo isso eu volto a perguntar: o domingo é realmente o dia mais valioso da TV ?

Sinceramente, não parece.

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