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Ricardo Feltrin


"Tiramos a TV Brasil do traço abissal", diz superintendente demitido

Caíque Novis, ex-superintendente da TV Brasil, demitido na última sexta - Reprodução - Site EBC
Caíque Novis, ex-superintendente da TV Brasil, demitido na última sexta Imagem: Reprodução - Site EBC
Ricardo Feltrin

Ricardo Feltrin é colunista do UOL desde 2004. Trabalhou por 21 anos no Grupo Folha, como repórter, editor e secretário de Redação, entre outros cargos.

Colunista do UOL

29/01/2019 18h09

Caíque Novis passou por muitas emissoras abertas do país. Foi editor sênior do "Fantástico", diretor do "Domingão do Faustão", editor-chefe do "Jornal da Band", dirigiu uma série de programas na MTV e foi gerente de projetos do canal Futura.

Em novembro de 2016 recebeu um novo desafio. O maior de sua carreira: ser o superintendente da TV Brasil e tirar o canal público, imerso em disputas políticas, do traço de audiência. Traço que mantinha desde seu nascimento, em 2008.

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"Nunca se fez tanto pela TV Brasil em tão pouco tempo", afirma Novis. 

"Nossa equipe conseguiu tirar a emissora do traço abissal e colocá-la entre as 10 TVs abertas mais vistas em apenas dois anos."

Caíque foi surpreendido na última sexta quando foi informado pela direção que estava demitido. Ele disse que foi um "pedido do Palácio", sem especificar o autor do pedido.

Segue entrevista com o ex-superintendente da TV Brasil.

O que fica desses dois anos de trabalho na TV Brasil? Como avalia sua gestão em termos de resultados?

Caíque Novis - Sinto que nunca se fez tanto na TV Brasil em tão pouco tempo. Digo sempre que chegamos com nove anos de atraso. Com apoio irrestrito do diretor-presidente Laerte Rimoli, que me convidou para o cargo, nossa equipe conseguiu tirar a TV Brasil do traço "abissal" onde ela se escondia, colocá-la entre as dez mais vistas em apenas 2 anos.

Passamos da 27ª para a 10ª posição entre as TVs abertas mais assistidas. Isso é um feito e tanto, principalmente porque o mercado de televisão vem derretendo, a audiência caindo.

Além disso, entramos no line-up HD das operadoras, montamos uma programação infantil que hoje é festejada por todo mundo; priorizamos a pontualidade dos programas e abrimos espaço para produções de outras emissoras públicas do Brasil no horário nobre. 

Você passou por várias emissoras abertas e comerciais. Qual a maior diferença em ser executivo numa TV comercial e numa TV pública? 

Caíque Novis - Para mim, que sou professor na UnB (Universidade de Brasília) há 16 anos, a comunicação deve ser simplesmente eficiente. Não entro nessa disputa de comunicação pública x institucional X comercial. Cada uma tem o seu papel. Mas, no campo público, é mais complicado e tem que ser assim.

Por quê?

Caíque Novis - Ah existem regras para tudo que se compra e se contrata, estabilidade dos funcionários, pressão política. Mas, o que mais senti foi que uma grande estatal como a EBC, que lida com o "negócio da comunicação", é rígida demais. 

O diretor-presidente, Laerte Rímoli, chamava a EBC de "mastodonte". Nosso campo de atuação tem mudado numa velocidade assustadora, tragando tudo pelo caminho. Mas, uma estatal demora a mudar. Vão fazer uma grande reestruturação, até para que a empresa continue existindo, mas penso que quando tudo for efetivado já estará na hora de uma nova transformação. E se a que fizemos nesses dois anos deu certo porque essa agora também não seria bem sucedida? Sejamos otimistas.

Você concorda que a gestão anterior não se importava muito com audiência? E que isso enfraqueceu bastante a emissora?

Caíque Novis - Com certeza. Ter uma TV que não é vista por quase ninguém? Mas, sabe que ainda tem muita gente que pensa assim? Eu, não. Entrar em campo sabendo que já vai sair derrotado? Tô fora! Eu quero ser visto, quero teatro cheio, quero casa cheia. Conseguimos todo esse sucesso sem programas de violência, de gente pelada, de fofoca, não temos nada disso.  O brasileiro adora audiovisual, gosta de coisa boa. E de coisa ruim, também, até porque tem muita gente não quer ser a santa.
  
A TV Brasil e a EBC sofreram e sofrem muitas críticas pelo Jornalismo praticado por lá. Agora mesmo houve o caso do deputado Jean Wyllys (que abandonou o mandato por se sentir ameaçado), que parece que teve o assunto censurado. O que você acha disso?

Caíque Novis - Eu, como superintendente da TV Brasil e Rede, comandei a programação, as chamadas, a rede, o acervo. Enfim, a estratégia do canal, mas eu não tinha comando sobre o Jornalismo e a Produção - fortemente centrados no Rio--, que estão em diretorias diferentes. O que fizemos foi montar a grade de programação, dizer o tempo de produção de um telejornal, sugerir que se faça um programa tal. Mas, o que o jornalismo produz e põe no ar, e o que a produção faz, não era comigo.

Se pudesse usar só um argumento para tentar convencer o presidente eleito Jair Bolsonaro a não fechar a TV Brasil qual seria?

Caíque Novis - Acho que isso não vai ser mais preciso. Fui demitido e devolvido para a Câmara dos Deputados porque, dizem, houve "um pedido do Palácio" (do Planalto). 

Talvez eles não tenham gostado do que fizemos na emissora e que eu não seja necessário para a reestruturação que vão fazer na empresa.

Eu acho que vão mudar muita coisa, talvez juntar com a emissora oficial que é a NBR, mas não vão fechar.

O que é bom porque temos colaboradores excelentes por lá e o Brasil merece ter uma televisão pública de qualidade, barata, diversa e ampla, isenta e agradável de assistir.

Que mensagem você deixaria para sua equipe?

Caíque Novis - Cheguei numa TV Brasil dilacerada por disputas partidárias, estávamos no processo do impedimento da presidente Dilma e a posse do Temer como presidente. Audiência lá em baixo, equipe desmotivada, um inferno.

Pensei em três estratégias a serem alcançadas: motivação da equipe, ganhar mídia positiva e subir na audiência. Conseguimos todas graças ao pessoal da EBC. Quando cheguei, troquei todos as chefias ocupadas por pessoas de fora por uma moçadinha concursada na faixa dos 30 anos. 

Reuni todo mundo numa sala e disse que não queria saber quem era Dilma, quem era Temer, porque eu não queria que aquela disputa contaminasse ainda mais o ambiente já conturbado e prejudicasse o que planejávamos por no ar.

O que se faz lá fora, fica lá fora, até porque quando um novo governo chega muita gente troca de "camisa", "vira a casaca" e isso não seria diferente numa empresa como a EBC.

Também nessa reunião disse que eu queria formar uma equipe com gente que tivesse um imenso tesão em fazer TV, que pudesse por o talento individual a serviço do coletivo. Foi um barato e deu certo. 

Só deu certo porque juntamos uma porrada de gente boa, da própria casa, que estava esquecida num canto. Fui professor de muitos desses que passaram no concurso, porque o meu partido é o de fazer bem, do esforço coletivo, da retidão, da satisfação. Eu adoro fazer o que faço e tenho certeza de que deixei uma equipe capaz de atravessar as inúmeras dificuldades que se avizinham.

Quais seus planos futuros?

Em primeiro lugar desejo que a TV Brasil, ou o que vier a ser dela num futuro bem próximo, continue melhorando a cada dia e justificando o dinheiro que cada brasileiro coloca lá. Fiz meu dever, ganhei muitas batalhas, mas acabou. Foi.

Continuo com as minhas aulas na Universidade de Brasília e volto para a Câmara dos Deputados onde sou funcionário concursado há 15 anos. Mas, estou triste, sim, porque eu adoro fazer televisão. É a minha cachaça. Eita coisa boa!

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