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Entrevista Carla Vilhena: "Ser chamada de blogueirinha é o máximo"

Ricardo Feltrin

Ricardo Feltrin é colunista do UOL desde 2004. Trabalhou por 21 anos no Grupo Folha, como repórter, editor e secretário de Redação, entre outros cargos.

Colunista do UOL

17/03/2019 07h02

Cerca de um ano atrás Carla Vilhena fez o impensável para 99% dos jornalistas: deixou a TV Globo, onde era repórter especial do "Fantástico" e âncora ocasional do "Jornal Nacional".

Aos 51 anos, após passar por TVE, Manchete, Band e Globo, decidiu dar um novo rumo à carreira e se dedicar ao próprio site, onde fala de turismo, beleza, moda, comportamento, da experiência de ser mãe, mulher, jornalista e outros temas (ufa!)

O que pouca gente sabe, e Carla revelou isso no ano passado em entrevista ao "The Noite", do SBT, é que mas seu sonho nunca foi estar diante das câmeras, e sim mexer em motores de carros.

O que a impediu de ser engenheira mecânica, afirma, foi a "fraqueza" pessoal em matemática.

Carla diz não se arrepender de ter deixado a Globo, onde tinha polpudo salário de três dígitos. Aliás, continua faturando (muito) bem na nova profissão. Poliglota, fala inglês, francês, italiano e alemão.

Veja abaixo uma entrevista exclusiva com Carla Vilhena, que diz adorar hoje ser chamada de "blogueirinha".

Cerca de um ano atrás você deixava a Globo, depois de mais de três décadas. Sente alguma falta de lá ou da rotina de produzir e apresentar?

Carla Vilhena - Entrei na Globo em 1984 como editora de imagens. Depois fui repórter, apresentadora, editora de texto, até pauta e produção fiz. Passei por todas as funções possíveis no jornalismo de televisão.

Algumas vezes fui plenamente feliz, mas sempre --nos bons e maus momentos-- tentei dar o melhor de mim. A minha paixão é apresentar, mas acho que o lugar onde pude me mostrar como profissional completa foi na reportagem.

Conheci pessoas incríveis, algumas são amigas até hoje. Mas, sinceramente, acho que cumpri meu ciclo.

Hoje busco outros caminhos. Tive a sorte de trabalhar e dar o meu melhor durante todos esses anos em grandes emissoras. Respondendo à sua pergunta: tenho saudades de muitos momentos; de outros, nem tanto.

Na sua saída da Globo de repente você virou de "a âncora" para "a demitida", "punida por ter aberto um blog"; "dispensada por fazer merchan e desobedecer a Globo" etc.... Como você analisa tudo isso, agora que passou?

Carla Vilhena - Quando comecei o blog, mesmo ele sendo de caráter pessoal, fui procurar a direção da Globo para comunicar a estreia na internet.

Foram feitos os seguintes questionamentos: o blog fará parte de algum portal? Abordará política ou economia? Será comercializado? A resposta foi "não" para todas as perguntas.

Mesmo assim sempre tomei o cuidado (graças às precauções do marido advogado, Carlos Monnerat) de oficializar em papel todos os empréstimos de produção --com devolução assinada pelas lojas--, e de guardar o recibo de todas os hotéis (sempre pagando).

Embora não tenha descumprido nenhum dos questionamentos iniciais feitos pela direção, (num certo momento) tive que restringir citações de nomes comerciais no blog. Mas, isso, infelizmente, inviabilizava o blog como fonte de serviços para o leitor.

Como eu poderia fazer um relato de viagem sem citar dicas de restaurantes, de hotéis? E se o museu citado fosse pago? Seria permitido?

Sempre fui bem consciente de que, no papel de âncora do principal telejornal do país (onde fiquei até minha saída). Eu tinha de ter uma conduta irrepreensível.

Estou certa de que o público, mais do que ninguém, sabe disso, e sempre reconheceu minha idoneidade e seriedade. Isso eu levo sempre comigo. O que aconteceu foi que, em comum acordo com a Globo, vimos que não havia mais como compatibilizar o meu trabalho na TV com o trabalho que desejava fazer na internet.

Você ficou magoada com algo que escreveram?

Carla Vilhena - Magoada não é exatamente a palavra. Lamento apenas que alguns profissionais estão apenas em busca de cliques, com manchetes sensacionalistas, e passam por cima sem dó, sem uma apuração rigorosa ou de respeito à história das pessoas.

Tenho acompanhado seu site e suas redes... Vi que tem feito muitos eventos, apresentações e principalmente viagens para lugares muito chiques... Vou perguntar muito indiscretamente: você por acaso ganha mais ou menos hoje do que ganhava na Globo?

Carla Vilhena - Um dos "jornalistas" que citei na pergunta anterior me fez esse questionamento e eu exemplifiquei assim: se você ganha X de salário, trabalhando 26 dias por mês, com apenas uma folga por semana; e depois passa a ganhar metade de X, trabalhando 4 ou 5 dias no mês, com muito mais tempo para cuidar de sua família e curtir a vida, o que você acha? Que está ganhando mais ou menos?

Na Wikipedia você é definida como jornalista e também "blogueira". Te incomoda ser chamada de blogueirinha?

Carla Vilhena - Nossa, blogueirinha é o máximo! Se eu, aos 51 anos, for comparada àquelas meninas lindíssimas, bem-vestidas, saradas, que tiram fotos maravilhosas e se hospedam em hotéis incríveis... podem me chamar de blogueirinha!

Brincadeiras à parte, eu continuo repórter e jornalista, apenas com a diferença de que sou minha própria patroa. Se não quero falar de política, não falo.

Gravo o que quero e quando quero. Posso dizer o que quiser e do jeito que quiser. Uso cabelo, roupas e maquiagem do jeito que gosto.

Edito meus vídeos do tamanho que quero, e assiste quem quer. Não preciso mais ver meu trabalho e da equipe toda jogado fora, simplesmente porque o diretor do programa considerou que a matéria vale apenas 6 minutos, 3 minutos ou 1 minuto.

Quem me segue e acha meu conteúdo interessante, ótimo. Quem não acha, pode ir pro Instagram ao lado.

Uns dois anos atrás acho que você mal mexia em suas redes sociais... Hoje tem quase 240 mil seguidores só no Instagram, mais uns 145 mil no Twitter etc... As redes já são uma fonte de renda para você?

Carla Vilhena - Aqui vale um comentário sobre o meu momento nas redes. Até sair da Globo eu tinha menos da metade dos seguidores que tenho hoje. Muita gente entrou para minhas redes porque gosta do trabalho que desenvolvo lá, gosta de seguir meu estilo de vida.

No meio dessa gente há muitos jovens, que nem sequer acompanharam minha carreira de jornalista. Comecei nas redes sociais para divulgar o trabalho do blog. Hoje, elas, juntamente com o site, me ajudam muito nos contatos profissionais.

Quanto a fazer anúncios nas redes, confesso que tenho muita dificuldade... Para mim, não é só o dinheiro que conta.

Como jornalista, questiono tudo. Analiso o produto. Checo se a empresa é séria. Verifico se há reclamações graves de consumidores. Enfim, são precauções para manter a minha credibilidade, conquistada com muito esforço.

Curiosidade: por que você tem viajado tanto nos últimos meses? São férias (porque vi que você viajou com as crianças) ou trabalho envolvido também?

Carla Vilhena - Viajar é o que mais gosto de fazer. Se puder conciliar viagem e trabalho, melhor ainda... Tenho feito muitos vídeos dos lugares aonde vou, pois acredito que o conhecimento deva ser compartilhado.

Fico muito emocionada com várias mensagens que recebo, me agradecendo por poder desfrutar de imagens e informações sobre os lugares que visito; até de gente que, de outra forma, não poderia conhecer esses lugares, por não ter condições físicas, financeiras, pela idade avançada... Sinto como se estivesse conversando com amigos sobre algo interessante que conheci.

Quero mostrar aos meus seguidores que vale a pena se informar um pouco mais sobre o local visitado, pois isso traz muito mais satisfação do que simplesmente passear, olhar as lojas e fazer compras. Por isso, estudo e aprendo sobre as cidades e tento passar as informações de um jeito simples e divertido.

Se surgir uma TV aberta com proposta para ancorar um jornal, você está aberta a essa possibilidade ou não deixa mais essa sua vida de "blogueira"? Ou dá para conciliar as coisas?

Carla Vilhena - Neste período, desde que saí da Globo, recebi várias propostas, algumas até interessantes, mas que não condiziam com meu momento profissional e pessoal. Felizmente, sempre tive um estilo de vida moderado, o que me permitiu economizar dinheiro.

Portanto, uma proposta, para me seduzir, não será apenas pelo lado financeiro. Precisa ser algo em que eu acredite e que valha a pena para mim em termos de carreira, um ganho profissional de verdade.

Verdade que um dos únicos sonhos de sua vida não realizados foi um dia dividir a bancada com o Ricardo Boechat (que morreu tragicamente no dia 11 de fevereiro)? Onde estava quando soube da morte dele?

Carla Vilhena - Estava na Inglaterra e senti uma tristeza enorme. O estilo de fazer jornalismo do Boechat é algo que poucos conseguem, por isso foi tão admirado.

Minha mãe disse várias vezes que gostaria de me ver dividindo uma bancada com o Boechat, e me lembrei disso imediatamente ao saber da morte dele.

No seu site blog você tem uma gama de assuntos variados: dicas de beleza e saúde, viagens, cuidados com a família, pensamentos, reflexões... não são assuntos demais para um só pessoa?

Carla Vilhena - Não nasci geminiana por acaso! Gosto muito de me comunicar, me interesso por mil assuntos, leio três ou quatro livros ao mesmo tempo, sou multitarefas, escrevo, faço ginástica, conserto coisas em casa, cozinho, desenho, faço projetos de móveis, cuido de filhos, sou vaidosa, amo estudar, me questiono, penso na vida. Aquela lá, do blog, sou eu.

Outra pergunta pessoal: ao contrário de outras pessoas de TV, você parece ser sossegada em relacionamentos; se casou apenas duas vezes --e ambos relacionamentos longos. Você sempre foi assim, digamos, pouco namoradeira?

Carla Vilhena - Tenho dificuldade em desapegar. De coisas e pessoas. Prezo a lealdade e o companheirismo. Mas, sempre é bom lembrar, gosto muito da minha própria companhia. Quem gostar de estar comigo, ótimo. Senão tudo bem também.

Você casou em 2011 com o Carlos Monnerat? Vocês tiveram uma paixão na adolescência que não aconteceu, é isso? Pode contar essa história (de novo)?

Carla Vilhena - Não é que não aconteceu... Tínhamos 18, 19 anos e acabamos perdendo contato quando eu fui morar na Itália. Um ano depois de me separar, nos reencontrarmos pelo (finado) orkut e descobrimos muitas afinidades.

Temos a mesma idade, os mesmos princípios, vivemos experiências semelhantes, somos apegados ao lar e à família, temos uma história linda e continuamos crescendo como casal. Estamos sempre juntos, compartilhamos sonhos e cuidados um com o outro.

Queremos ficar velhinhos juntos também. Como na música "Velha Infância", dos Tribalistas, meu melhor amigo é o meu amor.

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