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Ricardo Feltrin


Depoimento: Meu dia de cozinheiro no "MasterChef", da Band

Divulgação/ Band
Ao fundo, a repórter Michele Marreira e o colunista do UOL Ricardo Feltrin, em "prova" do "MasterChef Brasil", da Band Imagem: Divulgação/ Band
Ricardo Feltrin

Ricardo Feltrin é colunista do UOL desde 2004. Trabalhou por 21 anos no Grupo Folha, como repórter, editor e secretário de Redação, entre outros cargos.

Colunista do UOL

2019-03-20T14:49:00

20/03/2019 14h49

Ontem (19) tive uma experiência que nunca esperei vivenciar: participei de um reality show. No caso, o "MasterChef Brasil", da Band.

A emissora fez o lançamento oficial à imprensa de seu programa mais famoso e lucrativo, que estreia neste domingo. Como diversão promoveu uma "batalha" culinária com jornalistas. Fui um deles.

Após a apresentação e dos clipes, Ana Paula Padrão passou com uma caixinha e cada um de 20 jornalistas pegava um número. Deveríamos achar nosso par, já que seria uma competição de duplas.

Minha companheira de reality foi a Michele Marreira, hoje no site "Na Telinha" (parceiro do UOL), mas a quem conheço há muito tempo de outras coberturas.

Cada dupla tinha em sua bancada uma caixa com os mesmos (cerca de) 20 ingredientes. Nosso desafio era fazer uma tal de "omelete francesa".

Nunca tinha ouvido falar. Basicamente são uns ovos mexidos metidos a besta, em que você usa sal, pimenta e creme de leite.

O chef Érick Jacquin fez uma demonstração e preparou uma receita básica.

Nós, no entanto, podíamos incluir ingredientes da caixa ou na omelete ou como acompanhamento. Ou fazer só a omelete básica mesmo.

Competitivo que sou, fiquei nervoso desde o princípio e não vou mentir: cheguei a ter a ilusão de que poderíamos ganhar, sabem? Afinal, desde que me conheço por gente o ovo é meu alimento preferido.

Quando criança eu acordava cedinho todo dia só para comer um ovo quente preparado por meu avô.

É aquele ovo que fica exatos três minutos na água fervendo e atinge o que para mim é a coisa mais gostosa do mundo: um ovinho com a clara cozida o suficiente para tirar só o topo da casca, misturar a clara com a gema molinha, mais um salzinho, e comer o ovo dentro da casca do próprio ovo.

Meu Deus, como gostava daquilo.

Eu como ovos mexidos todos os dias. Não é exagero. Para muita gente o dia não começa sem uma xícara de café. Para mim é o ovo que dá significado ao resto da minha existência depois de acordar.

Tomei as rédeas e falei para a Michele que íamos usar um ingrediente secreto, que estava ali entre os 20 outros e que eu tinha certeza que ninguém usaria: açúcar.

Aprendi com meu filho que se usa açúcar para fazer "tamagoyaki", a omelete japonesa.

Além disso na hora da demonstração o chef Jacquin colocou tão pouco, mas tããão pouco creme de leite na receita que achei aquilo até absolutamente inútil (claro que não é, mas na hora eu achei isso).

Como o creme de leite já é adocicado, eliminei-o e substituí por açúcar. Mas, claro, também usei sal e pimenta, como manda a receita. O açúcar é só para dar uma, digamos, "quebrada" no paladar.

Misturamos aos ovos também um pouquinho de queijo branco e pouquíssimo agrião picadinho.

A omelete francesa é servida como uma espécie de "massa" de ovo.

Ela não é seca e esturricada como uma panqueca com a casca queimada, como muita gente faz. Nem tem a consistência dos ovos mexidos "molhados" do dia dia. Não.

Ela é como uma "massinha", uma espécie de "lasanha mole" feita só com ovo (e no nosso caso mais queijo branco e agrião).

Aqui vão duas queixas à produção da Band:

1 - Eu não teria colocado queijo se eu soubesse que nossas omeletes iam ser servidas geladas. A prova exigia esperar o julgamento de dupla por dupla até nossa vez. Nossa dupla foi a nona (penúltima). O queijo aquecido e depois resfriado resseca e fica borrachento.

2 - No último minuto --literalmente--, quando fui colocar um azeite no nosso "acompanhamento" (duas rodelinhas de tomate e mais uma folhinha de agrião, temperados com sal e pimenta) a tampa do azeite estava desenroscada e simplesmente eu dei um banho no prato com azeite. Banho mesmo. Uns 100 ml ou mais.

Por milagre eu estava temperando o outro lado do prato e boa parte do banho de azeite caiu fora do prato e atingiu pouco a omelete. Mas, de qualquer forma, atingiu.

Faltava menos de um minuto. Entrei em pânico, quase chorei de ódio e fiz um protesto em altos brados para Ana Paula Padrão.

Não é justo. Isso é quase uma pegadinha. Os ingredientes e seus recipientes devem estar ideais para usar e servir. Eu não tenho tempo para checar tampa de azeite. Estou concentrado no prato, saco. Sou um chef ocupado!

Corri com papel toalha, eliminei a maioria daquele ácido graxo viscoso e melequento, mas nosso prato ficou com muuuuuito "brilho" extra.

Os assustadores jurados

Pareceu um tempo interminável até chegar nossa vez de levar a omelete para julgamento dos temíveis Henrique Fogaça, Paula Carosella e Érick Jacquin.

Assim que entregamos o prato pedi a palavra ao microfone (todos tinham direito a falar) e, diante dos três jurados e de Ana Paula Padrão, fiz meu libelo.

Disse que nunca mais teria oportunidade de ser ouvido por três dos mais famosos chefs do Brasil e que estava ali para pedir à Band e ao "MasterChef Brasil" para que parassem de usar carne de pato e foie gras nas receitas. Disse que estava ali para defender os patos.

O chef Fogaça meneou a cabeça e cerrou os olhos, como que dizendo: "Mas que merda é essa?".

Já chef Jacquin apenas bufou e revirou os olhos.

A chef Carosella, tive a impressão, achou que aquilo talvez fosse alguma brincadeira da produção. Não era. Era um protesto solitário e sincero. Ela então me perguntou se eu não tinha pena de outros animais. Disse que no momento eu estava ali só pelos patos, uma paixão desde criança.

Senti na hora que meu libelo fez bem ao meu espírito, mas muito mal ao nosso futuro como concorrentes do reality. Fomos julgados com muito mais sarcasmo e desdém.

Só consegui mudar um pouco a situação porque, quando relatei nossa receita (todos deviam fazer isso), disse aos jurados que havia um ingrediente secreto que eu só revelaria depois que os três provassem.

Imediatamente mudou o "clima". Os três ficaram curiosos e queriam saber que ingrediente era.

Quando Jacquin foi o último a morder um minúsculo bocado (eles já haviam provado oito omeletes, acho que não podiam nem ver mais ovo na frente), o chef Fogaça já me interpelou: "Diga logo qual é o ingrediente secreto!"

"Açúcar", respondi.

Paola Carosella: "Eu sabia, a omelete está um pouco doce!"

Jacquin: (apenas bufou de novo e revirou os olhos)

Fogaça: "Por que usou isso?"

Eu respondi que me inspirei na receita do "tamagoyaki", mas o chef e dono do restaurante Sal ralhou antipático e fazendo cara feia:

"Era pra fazer uma omelete francesa, e não japonesa."

Juro por Deus que, por muito pouco eu não olhei para ele e respondi com sua própria frase, só trocando as sílabas:

"Nhé nhe nhenhé nhé nhenhenhé nhenhenhé, nhe nhe nenhenhenhé."

Mas me segurei (ainda bem).

Olhei para Paola e perguntei fazendo beicinho: "Está uma omelete vergonhosa?"

Ela foi gentil. "Não está vergonhoso, Ricardo, mas vocês não têm nenhuma chance de ganhar", disse sincerona.

O chef Jacquin não estava satisfeito e continuou a espezinhar nossa receita.

Nervosinho, provavelmente cansado, o chef francês (pai de bebês gêmeos), picou e destruiu nossa omelete com um garfo, dizendo que aquilo era "incomível", que estava um "lixo".

Não, não estava, senhor Jacquin.

Se o senhor a tivesse provado o prato quentinho, com seu queijinho interior derretido no forno (outra inovação que fizemos após cozinhar levemente) seria outra experiência.

Quem mandou deixar a omelete gelada por uma hora em cima da bancada?

Espírito do "MasterChef"

A verdade é que naquela hora eu tinha entrado definitivamente no espírito do "MasterChef" da Band e entendi o quão difícil é esse reality. E quão exigentes e, pior, intimidadores são seus jurados.

Imagino o desespero dos concorrentes e compreendo porque tanta gente já teve chilique diante e atrás das câmeras do programa. Deus me livre passar por isso de novo.

E olhem que eu jamais abriria um restaurante para viver. Imaginem agora candidatos que sabem que aqueles minutos podem mudar sua vida para sempre...

Mais uma competição e uma receita e eu certamente iria bater boca feio com o Fogaça ou com o Jacquin. Eu defintivamente seria eliminado do "MasterChef" não por não ter o dom de cozinhar (não tenho mesmo), mas por insolência e desacato (brincadeira, gente; mas não muito rs).

De qualquer forma acho que a ideia do programa também é fazer os candidatos terem criatividade e às vezes até arriscar. Foi o que fizemos. Nos arriscamos com doçura.

Lembram que disse nos primeiros parágrafos que como ovos todos os dias desde que me conheço por gente?

Pois não comi hoje, quarta-feira, 20 de março de 2019. Não lembro a última vez que deixei de comer ovos na vida.

Pois não consigo nem sequer olhar para eles desde ontem à tarde. Só de ver ovo na geladeira já me embrulha o estômago.

Espero que seja um trauma passageiro :´(

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