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Ricardo Feltrin


Fábio Rabin: "Minha mulher me ajuda a inventar piadas sobre ela mesma"

Reprodução/Twitter
Fábio Rabin e a mulher, Camila, que hoje é sua empresária e co-autora de piadas (sobre si mesma) Imagem: Reprodução/Twitter
Ricardo Feltrin

Ricardo Feltrin é colunista do UOL desde 2004. Trabalhou por 21 anos no Grupo Folha, como repórter, editor e secretário de Redação, entre outros cargos.

Colunista do UOL

2019-03-31T06:30:00

31/03/2019 06h30

Fábio Rabin, 37 anos, é um dos pioneiros do stand up brasileiro. Se não pode ser chamado de pai do gênero (título que cabe mais a Rafinha Bastos, Danilo Gentili e Fábio Porchat), Rabin ao menos pode ser considerado um dos tios. E dos mais bem-sucedidos no setor, aliás.

Não é exagero dizer que hoje certamente mais pessoas assistam a shows de stand up do que a peças de teatro no Brasil. Rabin acha que o gênero teve um crescimento gigantesco na última década e concorda que existem muitos humoristas sem graça --e que alguns não admitem isso.

"Há aqueles que saem do palco sem nenhuma risada e falar: 'Plateia difícil, né?'"

Só no ano passado, agenda lotada com o show "Tô Viajando", Rabin atraiu algo em torno de 80 mil e 100 mil espectadores em todo o pais.

No próximo dia 13 de abril, um novo show-- "Tá Embaçado"-- entra em cartaz em São Paulo no Teatro das Artes, Shopping Eldorado.

Na entrevista a seguir ele analisa o momento atual do humor brasileiro, revela que a mulher, Camila, o ajuda não só como empresária, mas também na elaboração de piadas sobre mulheres e sobre ela mesma, e conta os piores e melhores momentos desses dez anos de carreira nos palcos.

O que mudou no público de humor nos últimos 10 anos? O gosto das pessoas mudou?

Fábio Rabin Copeliovitch - Acredito que o público evoluiu com os comediantes. Aprendemos a explorar mais o cotidiano e a plateia entendeu que o humorista sobe ao palco para entreter. O crescimento gigantesco do gênero fez com que nossos textos chegassem às pessoas além do palco.

Só que tem gente sem senso de humor pra diferenciar uma piada de uma opinião, e também tem quem não curte o gênero, mas, honestamente, acho que na maioria falta senso de humor mesmo (risos).

Dê um exemplo de uma coisa que você podia fazer piada dez anos atrás e hoje se fizer vai ser atacado, xingado...

Fábio Rabin - Jair Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro, Flávio Bolsonaro... (risos)... Bom, sério, acredito que piadas com as mulheres adquiriram um tipo de censura devido à luta das feministas. Antes o pensamento machista era quase um senso comum. Hoje você tem que colocar muito bem a sua piada pra plateia feminina não sentir que você tem algo contra ela (que tudo é só uma brincadeira).

Sou casado, tenho uma filha e faço muitas piadas com elas. A primeira vez que fiz, minha esposa reclamou. Ainda namorávamos.

Eu disse a ela: Sou comediante, faço piadas, se faço piadas com você é porque te observo. Seria estranho se fizesse piadas com o Bahamas ou outras casas noturnas de garotas de programa. Um pintor pintaria você, um escritor escreveria um romance sobre você, eu faço uma piada.

Acredito que deu certo, porque hoje não só faço minhas piadas como ela é a minha empresária, e até mesmo ajuda a criar alguns textos "contra" ela mesma, porque entende meu trabalho. Já minha filha tenho que subornar com brinquedos, viagens e muito amor rs...

O Emílio Surita me disse uma vez que achava que o humorista deveria poder falar de qualquer coisa, que qualquer tipo de policiamento sobre o humor é uma forma óbvia de censura; que o nome já diz tudo: humor. Qual sua opinião?

Fábio Rabin - Ah, concordo com ele. Mas, acredito que é importante saber falar. Às vezes você diz bom dia pra uma pessoa e ela abre um sorriso, mas se você der um bom dia meio cansado ou agressivo a pessoa pode entender como descaso ou como uma cobrança por um cumprimento de volta. Imagina então com uma piada pesada!

Tem que saber a entonação, a emoção que vou passar pra não soar como agressividade, preconceito ou qualquer sentimento negativo. Afinal, a intenção sempre é fazer a plateia dar risada.

Por isso acho que geralmente uma piada é melhor apreciada ao vivo ou em vídeo, do que transcrita por algum site pra gerar a notícia.

É como quando você tenta contar uma história que alguém te contou. Geralmente isso termina com: "Ah mas ela contando era bem melhor", Segue um silêncio constrangedor depois... rs

Falando em Emílio, você teve duas passagens pelo "Pânico", 2007 a 2009; e 2016 a 2017, quando o programa saiu do ar na Band...

Fábio Rabin - Eu saí um pouco antes do programa acabar. Minha demanda de shows inviabilizou a agenda de gravar com o "Pânico" e até mesmo de continuar na rádio.

Você é considerado um dos, digamos, "tios" do stand up brasileiro. Tenho te acompanhado nas redes e vi que hoje você lota qualquer lugar que vai. Quantos espectadores você teve no ano passado?

Fábio Rabin - Não tenho números exatos, mas acredito por cima que é um número que está entre 80 mil e 100 mil espectadores.

Vou ser enxerido e perguntar: você tá rico?

Fábio Rabin - Hahahaha! No Brasil ninguém é rico. Ou você paga muito imposto ou tá na Lava Jato... O custo de vida do nosso país é absurdo! Gostaria de aproveitar o espaço aqui na entrevista pra pedir desconto no plano de saúde e na escola da minha filha... Desculpa, mas você tocou no assunto de dinheiro com um judeu e aí sempre vou ter minhas questões. Não posso reclamar do que ganho, mas tá embaçado.

De dez anos para cá, o stand up brasileiro cresceu, mas também apareceu muita gente ruim e sem graça (nota: isso é uma opinião do entrevistador)... Faça um comentário sobre o panorama do humor nesses dez anos...

Fábio Rabin - As pessoas descobriram um gênero de humor menos burocrático. Você não tem que passar por um "teste" inicial pra subir num palco e tentar fazer stand up.

O gênero se tornou também um modelo de sucesso em business. Se qualquer pessoa chegar num bar e disser ao dono que faz comédia stand up, o dono vai ver as fotos de shows lotados e vai querer isso pra si, pensando na grana.

Isso assustou uma parte do público que, desavisada, entrou em qualquer canto pra assistir stand up comedy sem saber de um detalhe: diferentemente de um show sertanejo ou pop, onde o público canta junto os sucessos, no stand up o show é autoral.

Surgiu uma nova geração muito boa e, honestamente, me inspiro em caras que vieram comigo ou até mesmo um pouco antes (Adnet, Calabresa, Diogo Portugal , Oscar Filho, Rafinha, Gentili, Porchat etc), e também com uma rapaziada que chegou depois e deu um novo gás pra comédia.

O que você faz quando vê um colega humorista fazendo uma apresentação ridícula ou daquelas que ninguém ri? Você teria coragem de dizer para um colega a verdade (tipo, amigo, essas piadas não têm graça)?

Fábio Rabin - Com certeza teria. Mas, acredito que ele já saiba disso, pois o termômetro é a plateia. É muito difícil o comediante sair de um show ruim, não ouvir a plateia rir, ver os rostos tristes e achar que foi bom. Tem que ser meio esquizofrênico.

Mesmo assim o ego é algo muito forte. Há aqueles que saem do palco sem nenhum riso e dizem: 'Plateia difícil né?' Às vezes, sem dúvida, a plateia está mais dura, mas eu prefiro pensar no que eu poderia ter feito pra mudar isso.

Afinal de contas não faço shows apenas pro meu público, realizo eventos corporativos pra chefões que tem referências como o Cirque Du Soleil... então tento dar o meu melhor no palco, sempre.

Qual foi sua pior apresentação da vida? Teve alguma que se arrepende até hoje? E qual foi a melhor?

Fábio Rabin - A pior foi justamente num evento corporativo em Campo Grande. Era depois de uma maratona, então já começou errado. Eram umas 5.000 pessoas que estavam cansadas da corrida e esperando o sorteio de um carro dado pela prefeitura, pra só então serem liberadas pra comer.

O palco era gigante, longe do camarim e o produtor me chamou em cima da hora pra entrar em cena. Levei cinco minutos pra chegar ao palco e achei que seria uma boa ideia justificar meu atraso dizendo que estava fumando um cigarro.

Foi uma péssima ideia, os maratonistas não enxergaram a ironia (ou eu não consegui transmiti-la) e me enxergaram como um mau exemplo. Chegando ao momento do sorteio (descobriram que) já tinham sorteado o Fiat Uno modelo novo e agora o sorteio seria de um Uno velho.

Eu não segurei e disse: 'Vocês tão esperando até agora pra ver quem NÃO vai ganhar essa merda certo?'

Pois não gostaram de novo e a vaia começou... senti um pouco de medo e preferi encerrar dizendo: eu também amei vocês! Dessa vez eles entenderam a ironia e vaiaram ainda mais!

Saí bem triste e culpei a estrutura do lugar que, sem dúvidas, não era a ideal, mas hoje tenho vontade de voltar no tempo e entrar de uma forma diferente.

Seria menos comediante no começo e mais mestre de cerimônias, pra acordar aqueles caras, sabe? Depois entrar com um roteiro de piadas mais inocentes, ou sobre a maratona, me colocar no lugar deles. A única coisa que eu não mudaria era zoar o Uno velho!

Melhores shows: escolho três como os mais especiais até hoje! Em 2009 em Vila Velha, no Espírito Santo, eu tinha duas sessões de 700 pessoas para fazer e o show não poderia atrasar.

Mas, caiu uma chuva forte e um raio estourou a caixa de força do teatro, acabando com a luz geral. O show tava quase sendo cancelado mas resolvi entrar em cena com uma lanterna iluminando meu rosto e sem microfone usei as técnicas vocais do teatro e fiz um dos meus melhores shows!

Parte porque a plateia notou a entrega que tive, parte porque sem microfone eu saí da minha zona de conforto e fiz o show com muita autenticidade.

Teve um Risorama (festival mais tradicional de comédia do Brasil, organizado por Diogo Portugal, em Curitiba) que meu vôo atrasou e por conta disso eu tinha apenas 3 minutos pra fazer o show.

Fiz uma rápida edição na minha cabeça e fiz em 3 minutos o que às vezes demoro uma hora e meia pra conseguir. Foi demais!

E por fim o meu show que gravei ano passado em Curitiba. Foram 2.500 pessoas no Teatro Positivo. Um show onde tudo deu certo! E, no final, minha filha entrou em cena pra me dar um abraço! Ah... e era meu aniversário!

Na verdade todos os meus shows são especiais, cada um a sua maneira.

Você tá encerrando a temporada atual e vai começar uma nova, é isso?

Fábio Rabin - Encerro meu show mais completo até hoje! Tenho um carinho gigante pelos shows que fiz pois foram verdadeiros e eu me divertia em cada apresentação! Menos esse da maratona? (rs)...

O "Tô Viajando" (nome do meu show atual) venceu o "Prêmio Risadaria" como melhor show de Stand Up Comedy do Brasil em 2018. Não posso cravar que seja, mas sem dúvidas é bem divertido!

Meu show novo se chama "Tá Embaçado" e vai falar de todos os conflitos que nos atingem, desde a política até a intimidade do relacionamento de um casal que tem sua harmonia esmagada pela convivência e a rotina que a vida nos impõe.

O show também vai falar dos mimimis, drogas e tabus, o que o tornará mais polêmico que o anterior, mas nunca sem perder o objetivo maior. Fazer as pessoas darem risada e voltarem pras suas vidas mais leves.

Você trabalhou na MTV, RedeTV, Band? nunca teve interesse em se dedicar só à TV? Digo isso porque ela paga mais. Veja o Danilo Gentili, por exemplo, que já tá milionário... hehehe...

Fábio Rabin - Às vezes eu penso nisso... principalmente quando dá uma turbulência forte no avião! Nessa hora eu penso: 'Eu poderia estar num estúdio do lado de casa, apenas gravando e ganhando merchan'... mas, a verdade é que ainda não encontrei na TV um formato que me deixe tão confortável quanto no teatro.

E, mesmo se encontrar, não vou abandonar o stand up. Eu venho do teatro e me apaixonei por estar em cena. Sou livre e a plateia percebe isso. Não adianta. É minha vocação. Sonho em fazer mais que um bom programa, um bom filme de comédia e vou trabalhar pra isso...

Pergunta que eu morro de vontade de fazer a humorista de stand up, mas nunca tive coragem: como você consegue repetir tantas e tantas vezes a mesma piada? Não tem uma hora que o texto enche o saco? Tipo, "poxa vou falar tudo isso de novo"...

Fábio Rabin - O que mais me chamou atenção no stand up é a frequência com que o comediante se põe a prova. Todo ator sabe o que é uma estreia? Dá um nervoso, uma adrenalina gigantesca! E isso por fim nos motiva e faz com que sejam apresentações verdadeiramente especiais. E se eu te disser que faço uma estreia por semana? Toda semana eu testo de dez a vinte minutos de material novo pra jogar no meu canal de Youtube.

Na comédia escrevemos nosso texto e em cena desenvolvemos nosso próprio "espetáculo" que, quando chega à maturidade, tem a fluidez e, muitas vezes, gestos de uma peça teatral.

Por essa razão não enjoo das minhas piadas. Mas, infelizmente o público enjoa, por isso precisamos mudar. A piada só tem graça quando ouvida uma, no máximo duas vezes... Por isso estou sempre ativo.

Eu, particularmente, creio que, tendo um bom público no teatro, dois anos é um tempo bom pra rodar o Brasil, fazer todas as praças, atingir boa parte do público e completar o ciclo.

Você nunca fez uma piada que revoltou alguma pessoa e ela foi embora do show? Ou ficou esperando o fim pra te xingar?

Fábio Rabin - Já sim, sem dúvidas! Principalmente no evento dos maratonistas...rs... Pra evitar que isso aconteça eu gosto de comparar o show a uma conversa numa mesa de bar.

Se você tem uma história pesada pra contar, "cabeluda", e são pessoas que não te conhecem, se você quiser ganhar a confiança não comece por essa história. Ganhe a simpatia de todos pra depois ir mais além.

Frequentemente comediantes cometem o erro de subir no palco e falar qualquer coisa pra chamar atenção. Ele até chama, mas cria uma barreira com a plateia que, na primeira piada mais polêmica que ele fizer, vai pensar: "Já achava ele um idiota, mas agora tenho certeza" (rs).

Ou às vezes simplesmente a pessoa não foi com a sua cara e aí é ficar tranquilo e não se cobrar por quem se sentiu ofendido.

Se apenas uma pessoa saiu, isso deve ser um problema isolado, muitas vezes até particular. Mas, se dez pessoas foram embora...aí talvez eu esteja fazendo algo errado? Ou você que entrou por engano num culto evangélico (o que já aconteceu comigo).

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