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Ricardo Feltrin


Análise: TV aberta vive onda pessimista com corte de custos e de elenco

Fernando Rocha e Mariana Ferrão perderam o programa "Bem-Estar" e o emprego na Globo - Divulgação
Fernando Rocha e Mariana Ferrão perderam o programa "Bem-Estar" e o emprego na Globo Imagem: Divulgação
Ricardo Feltrin

Ricardo Feltrin é colunista do UOL desde 2004. Trabalhou por 21 anos no Grupo Folha, como repórter, editor e secretário de Redação, entre outros cargos.

Colunista do UOL

03/04/2019 08h46

Nos últimos dias esta coluna conversou com o máximo possível de executivos em atuação na TV aberta, em todos os níveis hierárquicos. A todos, fez a mesma pergunta: para você qual o futuro da TV aberta diante das novas mídias e de tanta oferta de conteúdo para o espectador-assinante?

Quase todas as respostas tiveram o mesmo denominador comum: pessimismo total, seja em curto, médio ou longo prazos.

Nos últimos anos e meses, todas as emissoras abertas --sem exceção-- fizeram grandes cortes de gastos (e continuam a fazer).

No jornalismo, "medalhões" com salários nababescos têm sido demitidos paulatinamente.

Na dramaturgia, a mesma coisa. Programas estão sendo tirados do ar. Novos projetos estão sendo engavetados. Salários mais altos estão na berlinda das emissoras, que não querem se arriscar em nada.

Comecemos pela ainda líder, a Globo.

Dias atrás a Globo anunciou que a partir de 2020 Globosat e Som Livre estarão sob o mesmo guarda-chuva, assim como a própria TV aberta; é a ponta do iceberg de uma grande integração da empresa e, com ela, ocorrerá mais cortes de custos.

Conforme o site Notícias da TV antecipou no último dia 13, a TV Globo pelo segundo ano consecutivo só teve lucro graças a aplicações financeiras bem-sucedidas, de acordo com seu balanço anual.

Ou seja, o dinheiro que salvou a "lavoura" veio de operações no sistema bancário, e não de seu departamento comercial ou da lucratividade de seus programas.

No ano passado o resultado operacional da emissora foi de R$ 530 milhões negativos, seis vezes mais que em 2017.

Causa e efeito: programas deficitários ou considerados decadentes estão sendo eliminados (como "Vídeo Show" e "Bem Estar"); dezenas de apresentadores foram demitidos nos últimos meses.

E outros profissionais atrás das câmeras também.

Atores e atrizes também estão sofrendo na carne. Há alguns anos, como esta coluna antecipou, a Globo decretou o fim dos salários milionários em seu elenco, bem como os contratos de longa duração --que hoje só valem para pouquíssimos artistas e jornalistas..

Programas da Globosat já estão sendo integrados à programação da Globo aberta, numa outra clara fusão que remete também à redução de custos.

Mas, se a Globo vai mal, as outras emissoras estão em situação bem pior.

Record, SBT, Band e RedeTV também estão cortando custos em todas as áreas possíveis. E ainda contam com um público --e faturamento-- muito menor que o da Globo.

A Record, talvez, seja a que menos sofre graças à injeção de centenas de milhões de reais anuais da Igreja Universal, que compra parte de suas madrugadas.

Mas, mesmo assim, já não são tantas centenas de milhões como há cinco ou dez anos. E os cortes também estão ocorrendo.

O SBT tem outros problemas. Está sob um guarda-chuva, o Grupo Silvio Santos, em crise. O escândalo que atingiu o Banco Pan-Americano no início da década repercute até hoje no caixa da emissora.

A TV de Silvio não tem dinheiro disponível para investir em praticamente nada, com raras exceções.

Seu jornalismo ainda nem chegou à era HD. Além disso, boa parte do faturamento publicitário da TV provém do próprio Grupo SS (por meio da Tele Sena, Jequiti etc.) Ou seja, sai de um bolso e entra no outro, mas o paletó é o mesmo.

A RedeTV, de acordo com o que colunista Flávio Ricco, do UOL, publicou na última semana de março, prevê que, se a crise publicitária continuar, deve demitir até 40% dos funcionários este ano.

Todos estes problemas têm sido agravados com outro fato: a decisão de o governo federal ter feito cortes de bilhões de reais em publicidade estatal neste início de ano.

Some-se a isso a internet, as redes sociais, a Netflix, o YouTube, concorrendo pela atenção dos mesmos olhos que assistem à TV, e também à conta bancária dos anunciantes. Além da TV paga, que está em decadência, sim, mas ainda tem um público bastante razoável.

A verdade é que a TV aberta, da forma como a conhecemos, está desparecendo.

Aquela TV aberta em que a família se reunia no sofá da sala todas as noites para assistir à novela. Aquela TV aberta em que as pessoas se programavam para ver uma agtração de auditório aos domingos. O público fiel desta ou aquela série ou apresentador(a) escasseia..

Tudo Isso está ficando no passado..

Os novos tempos e as crises econômica e publicitária neles embutidas parecem ser como um asteroide prestes a atingir o mundo da TV aberta ( e também fechada )..

O impacto é inevitável. Mas, a sobrevivência das emissoras ainda depende do nível de adaptação (e inteligência) dos executivos que as comandam.

Os que fracassarem definitivamente serão no futuro lembrados como os dinossauros do passado.

Ricardo Feltrin no Twitter, Facebook e site Ooops