Topo

Coluna

Ricardo Feltrin


Análise: Sem dinheiro federal, TV aberta pode ser inundada por igrejas

Pastores "sumidos" da grande TV aberta, como Valdemiro Santiago, podem voltar a qualquer momento - Reprodução
Pastores "sumidos" da grande TV aberta, como Valdemiro Santiago, podem voltar a qualquer momento Imagem: Reprodução
Ricardo Feltrin

Ricardo Feltrin é colunista do UOL desde 2004. Trabalhou por 21 anos no Grupo Folha, como repórter, editor e secretário de Redação, entre outros cargos.

Colunista do UOL

06/04/2019 13h41

Como todos já sabem, o recém-empossado governo federal liderado por Jair Bolsonaro escolheu a mídia como inimiga, e uma de suas primeiras medidas foi o corte de gastos em publicidade federal e de estatais na TV.

Só por isso todas as TVs abertas já trabalham com pessimismo e expectativa de grandes prejuízos em 2019, mas quem está "comemorando" o corte de gastos do governo são as igrejas evangélicas.

Esta coluna apurou que, com exceção da Globo, todas as demais emissoras abertas (inclusive as menores, como TV Gazeta) nas últimas semanas estão sendo assediadas por pastores e igrejas interessados em comprar horários nas grades de programação.

Sem dinheiro algum do governo, emissoras como RedeTV e Band enfrentam grave crise, e devem não só encerrar programas e demitir quadros (o que já está ocorrendo), como colocar igrejas para ocupar esse espaço, já que elas pagam por isso e se trata de um ganho praticamente líquido.

O que está em risco, com isso, é a TV aberta brasileira retornar ao seu estado na primeira metade desta década, quando as igrejas chegaram a ter 4.800 horas de programação nas TVs abertas e paga, como esta coluna informou com exclusividade à época.

Dois anos atrás, o colunista Maurício Stycer, do UOL, revelou cerca de 21% da aberta ainda era ocupada por programas religiosos.

Desde que o governo Bolsonaro assumiu, praticamente toda a verba de órgãos e empresas como BNDES, CEF, Petrobras e BB, entre outras, sumiu da TV.

A RedeTV ameaça demitir 40% de seus funcionários, como publicou Flávio Ricco, do UOL.

A Band está em dificuldades e num enorme processo de mudanças internas. Record e SBT também devem amargar prejuízos em 2019.

A Record, no entanto, ainda tem arrimo financeiro da Igreja Universal, que compra parte da grade de suas madrugadas. Já o SBT hoje ainda vive com enorme volume de anúncios oriundos do próprio Grupo Silvio Santos.

A Globo também terá resultado negativo em 2019 (após perdas no ano passado), mas já está num processo de enxugamento e reconfiguração, o que lhe dá maiores chances de sobrevivência.

Vale lembrar ainda que, segundo a legislação atual, não há impedimento algum que emissoras de TV abertas ou fechadas vendam ou "aluguem" parte de suas grades para igrejas (ou outras entidades e empresas). A legislação atual é dúbia e omissa.

Em todo caso, se o objetivo era solapar a declarada "inimiga" TV Globo, o bolsonarismo acabou afetando a toda a TV aberta (e paga) do país. Inclusive as que lhe eram simpáticas.

Ricardo Feltrin no Twitter, Facebook e site Ooops