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Ricardo Feltrin


"Futuro da TV aberta é distribuir conteúdo", diz Marcelo de Carvalho

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Marcelo de Carvalho, vice-presidente da RedeTV, grava o programa "O Céu É O Limite" Imagem: Divulgação
Ricardo Feltrin

Ricardo Feltrin é colunista do UOL desde 2004. Trabalhou por 21 anos no Grupo Folha, como repórter, editor e secretário de Redação, entre outros cargos.

Colunista do UOL

2019-04-30T06:12:00

30/04/2019 06h12

Sejamos justos: goste-se dele ou não, Marcelo de Carvalho é um dos poucos executivos --senão o único-- de TV brasileira que expõe a si e suas ideias de forma pública. Põe a cara a tapa.

Na entrevista a seguir, o vice-presidente e apresentador da RedeTV fala sobre a televisão aberta atual e do futuro, publicidade, o governo Bolsonaro (o qual ele apoia declaradamente e defende com veemência), economia e também volta a atacar a "inimiga" TV Globo.

Marcelo de Carvalho Fragali, 57 anos, engenheiro químico por formação, que debutou na TV justamente na Globo (no setor de merchandising), acredita que a TV aberta no Brasil é um fenômeno e que está longe de terminar, e que seu futuro é não apenas a difusão, mas a distribuição e venda de conteúdo.

"Ao contrário de todas as previsões catastrofistas, o número de horas assistidas de TV só aumentou; e no Brasil é um dos maiores do mundo: 6,5 horas/dia contra 4.5 horas/dia nos EUA.

Outro lado: Sobre as críticas do entrevistado à Globo, a coluna procurou a emissora carioca e enviou os trechos em que foi citada, para que comentasse. A Globo decidiu não se manifestar.

Veja a seguir a entrevista (que foi feita por e-mail).

Temos assistido a uma onda de demissões nas TV abertas, sem exceção. Globo, Record, Band e RedeTV têm cortado pessoal, acabado ou suspendido programas e estreias. Quais os motivos na sua opinião?

Marcelo de Carvalho: Esses cortes não são motivados pelo momento atual, mas principalmente pela crise pela qual o país passou nos últimos anos. E, por consequência, o setor.

Não vamos nos esquecer que tivemos crise econômica --com inflação combinada com recessão, crise política com impeachment, queda de governo--, e até uma crise moral, com milhões de pessoas nas ruas, prisões de corruptos e corruptores, agitação etc.

Esse processo todo só acalmou com eleições pacíficas e democráticas, mas deixou um rastro de destruição que agora todos trabalhamos para recuperar. Em toda crise (em meu ponto de vista equivocadamente), um dos primeiros setores a sofrer cortes é a publicidade, fonte principal de nossa receita.

Há alguns anos diziam que a TV paga seria a grande "nêmesis" da TV aberta. Hoje dizem que o bicho-papão são os serviços de streaming. O que acha dessas, digamos, "profecias"?

Carvalho: Vários 'teólogos' da comunicação têm errado ao embarcar nessa canoa. Vamos até retroceder: com o advento da televisão preconizaram que o cinema iria acabar. Não só isso não ocorreu como hoje há recordes de público jamais vistos.

Da mesma forma, é fato que o cabo não acabou com a TV aberta; o streaming não acabou com o cabo, e assim sucessivamente. As mídias se complementam, se empilham, mas não acabam. Recentemente assisti a uma palestra do 'chief executive' da CBS celebrando audiência recorde.

Embora sofra concorrência de TV paga e streaming, os dados apontam que o consumo de TV aberta tem se mantido estável. Ou seja, as pessoas continuam gastando um tempo razoável diante da TV aberta, certo?

Carvalho: No Brasil a TV aberta é um fenômeno de dimensões incomparáveis. A TV cobre 100% do país, alcança 65 milhões de domicílios e, ao contrário de todas as previsões catastrofistas, o número de horas assistidas só aumentou e é um dos maiores do mundo: 6.5 horas/dia contra 4,5 horas nos Estados Unidos.

Você apoiou a eleição de Jair Bolsonaro, o considera até um amigo. Inclusive já fez alguns posts públicos atacando a Globo por suposta campanha contra o governo. Não acha que há um exagero nas críticas? Devo dizer que não concordo com muitas, acho que a Globo faz e tem feito um jornalismo correto...

Carvalho: Discordo frontalmente. A Globo não faz jornalismo, faz partidarismo. A Globo tentou desesperadamente não eleger Bolsonaro. Nas vésperas do segundo turno vimos um 'Jornal Nacional' que parecia 'infomercial' do candidato de oposição, faria a Polishop ter vergonha.

Além disso insistem em divulgar pesquisas que erraram e continuam errando vergonhosamente. Não mostram os avanços, criam notícias e intrigas onde não há, ou no mínimo maximizam absurdamente para passar um clima de desestruturação onde não existe.

Claramente hoje a Globo joga um jogo de "quanto pior melhor". Aliás essa minha opinião pessoal é espelhada pela grande maioria do país.

Mesmo tendo seu apoio, de Silvio Santos, de Edir Macedo, o governo federal simplesmente fechou a torneira dos gastos com publicidade, inclusive para vocês. Não é paradoxal?

Carvalho: Olha, eu já vivi muitos presidentes, muitas mudanças de governo. É natural que em toda troca ocorra uma parada. Muda o presidente da empresa estatal, muda o diretor de marketing, muda o ministro e seus assessores... Depois a tendência é as coisas retornarem aos eixos.

Pelas últimas declarações e postagens (sobre mídia) de Bolsonaro e seus filhos, o governo fechou a torneira na TV, de certa forma, mirando a Globo. Só que ao mesmo tempo está atingindo a todas as outras TVs também...

Carvalho: Em primeiro lugar, não acredito nessa teoria. Como já disse, é normal que em todo início de governo haja uma paralisação até que todos sentem em suas cadeiras.

Mas, apenas hipoteticamente, se o governo fizesse isso, nada significaria para a Globo. Eles dariam 5% de desconto ou bonificação a mais para os clientes ou agências e num estalar de dedos recuperariam a verba toda. Ou seja, eles teriam um soluço e todos os outros, pneumonia.

Marcelo, até onde isso --a redução ou até paralisação de anúncios federais e de estatais-- afeta a RedeTV? E qual o impacto que acredita ter nas outras emissoras?

Carvalho: O governo como um todo, repito, não só a publicidade institucional, mas o conjunto de estatais, ministérios etc. é um importante cliente para os veículos de comunicação.

Estimo que tenha um peso variando de 3 a 5% de veículo a veículo, meio a meio. Esses recursos são importantes para todos, com exceção da Globo que se vira sem isso.

Eu acho até que todo grande anunciante, seja governo ou privado, tem em mãos um mecanismo eficaz e certeiro para democratizar o país: investir proporcionalmente suas verbas.

Hoje a Globo tem só 33% da audiência, mas recebe quase 90% do dinheiro do mercado como um todo. Nada mais terrível para as instituições do que haver um só microfone forte, o 'grande irmão'.

Diversificando os investimentos, além de o anunciante conseguir alcançar mais gente, com um investimento menor, pois o custo da Globo é muito mais caro que os demais, há uma consequência importantíssima: muitas emissoras vão crescer e investir mais em programação, entretenimento, informação e jornalismo de qualidade.

Agora, reitero: absolutamente não acredito que haja de parte do governo esse desejo de não anunciar. Seria um erro desastroso. As estatais concorrem com empresas privadas --por exemplo o Banco do Brasil concorre com gigantes como Bradesco, Itaú, Santander.

O Ministério da Saúde tem de informar sobre campanhas de vacinação, prevenção. As reformas têm de ser explicadas claramente para a população. E não há comunicação que funcione sem uma mídia maciça em TV.

Você disse uma vez que, sem vender horários da grade para igrejas, a RedeTV não seria viável. Isso continua?

Carvalho: Em 2018, devido a práticas de 'dumping', totalmente ilegais nos grandes mercados publicitários do mundo, a Globo com menos de 33% de audiência teve 89% do investimento, tomando como base um painel das 20 maiores agências (publicitárias) do país.

Ou seja 67% da audiência teve que dividir somente 11% das verbas.

Nada, nem custo, nem alcance, nem público justifica isso. Nunca se viu isso na história da publicidade mundial. Isso deve acabar, mas é um fator de sufocamento de todos os outros veículos, que, se não forem extremamente agressivos comercialmente, táticos, ou buscarem outros meios de se sustentarem, vão quebrar. Mesmo grandes e prestigiosos grupos de comunicação, vide o caso da Abril.

Apesar disso hoje todos temos grandes trunfos de programação. A RedeTV! por exemplo chegou a ficar em primeiro lugar de audiência durante um jogo da Copa Sul Americana, com uma transmissão impecável, HD, de extrema qualidade.

Tenho ouvido alguns executivos e especialistas e quase todos fazem uma previsão sombria para a TV este ano, em termos de faturamento. A opinião comum é que a TV aberta vai "diminuir" de tamanho ainda mais nos próximos anos. E ela já diminuiu bastante nos últimos anos, concorda?

Carvalho: A pergunta está respondida acima. Mas, eu acrescentaria algo que não está exatamente perguntado, mas que me parece essencial.

Nós na RedeTV! acreditamos que o futuro da TV é crescer não só como radiodifusora,como "broadcaster", e sim como produtora e distribuidora de seu conteúdo em todas as plataformas, principalmente a digital.

Há alguns anos você foi um dos idealizadores da Simba, uma joint-venture que uniu três concorrentes: RedeTV, Record e SBT. Dois objetivos seriam defender os interesses das três no mercado (o que tem sido feito), como também produzir algum conteúdo novo para a TV paga. O que está empacando o segundo?

Carvalho: O segundo objetivo não era produzir conteúdo novo 'para a' TV paga, e sim produzir conteúdo novo.

A primeira coisa que fizemos foi oferecer novos canais, e excelentes canais, para a TV paga. Esbarrou na equação comercial e estamos abertos para isso. Desde que bem remunerados, como são os canais da Globo (que novidade...)

Então fizemos um outro movimento. Fechamos um acordo, inédito no cinema nacional: um pacote com a Paris Filmes para a produção de até 13 longa metragens inéditos a serem distribuídos no Brasil, no exterior, em cinemas e, é claro, posteriormente em várias plataformas.

O que você achou da tentativa de o governo federal (já cancelada) de submeter publicidade de estatais para aprovação do Planalto?

Carvalho: Não vamos ser hipócritas. Como já disse, passei por muitos governos, muitos presidentes. E todos, sem nenhuma exceção, supervisionaram sua comunicação. No milímetro.

O problema é que quando se trata do Bolsonaro a patrulha fica toda arrepiada.

Quanto à polêmica da ordem e contraordem, eu conheço o Ministro Santos Cruz, um general de exército preparado e correto, e creio que deva ter havido uma má interpretação do que disse.

Até porque isso seria insubordinação a seu chefe, ao 'comandante-em-chefe' das forças armadas --o presidente do Brasil.

Deixe eu ser mais claro: esse presidente ganhou uma procuração de 60 milhões de votos, da maioria do povo brasileiro, para imprimir uma guinada no país. Em todos os campos, inclusive e especialmente na maneira de se comunicar.

É lógico que, na prática, os presidentes das estatais autorizam suas campanhas, mas seria absurdo supor que qualquer coisa vá ao ar sem estar alinhada com o pensamento do presidente.

Ele tem o direito e, repito, a autorização da maioria do povo brasileiro para, evidentemente com a assessoria e análise dos técnicos da Secom, autorizar ou vetar a comunicação.

Diferentemente disso, esperaríamos o quê? Por exemplo que o ministro da Educação imprimisse um outro kit de educação sexual infantil e ele nada faria?

Desculpe, mas democracia é isso? A maioria do povo brasileiro o elegeu com base em uma plataforma. E mais clara, impossível

(nota: o governo já recuou dessa decisão de análise prévia da propaganda de estatais).

Um exercício de futurologia: o que a RedeTV estará exibindo daqui a dez anos? E o que você estará fazendo?

Carvalho: O DNA da RedeTV! é e sempre foi inovação. Fomos a primeira emissora do país 'tapeless', ou seja, sem fita. Fomos a primeira a transmitir 100% de nosso conteúdo digital HD. E somos hoje o maior canal exclusivo de tv no YouTube.

Hoje temos quase 10 milhões de seguidores, e já batemos 600 milhões de 'views' por mês. O futuro da RedeTV é a produção de conteúdo a ser distribuído por todas as plataformas, com um peso cada vez maior no digital.

Recentemente inauguramos um "hub" de produção com oito novos estúdios, exclusivamente para produção de conteúdo digital.

Quanto a mim, confesso que gostaria de ser cada vez menos 'mão na massa'. De um lado gostaria de continuar apresentando programas, sempre na mesma linha: auditório, com prêmios, engraçado.

Quanto à direção de nossas empresas, gostaria de ficar mais longe do dia a dia, focando mais e mais no planejamento estratégico, pensando no futuro. O problema é que o pessoal me chama sempre.

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