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Ricardo Feltrin


Entrevista: "Padrão Globo é 90% fama e 10% dinheiro", diz Milton Neves

O radialista, apresentador, publicitário e empresário Milton Neves, da Band - Divulgação
O radialista, apresentador, publicitário e empresário Milton Neves, da Band Imagem: Divulgação
Ricardo Feltrin

Ricardo Feltrin é colunista do UOL desde 2004. Trabalhou por 21 anos no Grupo Folha, como repórter, editor e secretário de Redação, entre outros cargos.

Colunista do UOL

19/05/2019 06h03

Milton Neves Filho acaba de completar 50 anos de carreira e, em agosto, chegará aos 68 anos de idade. A língua, porém, continua afiada como a de um garoto briguento.

Se tem algo que não falta a esse mineiro de Muzambinho é autoconfiança, e também senso crítico e espírito provocador. Para quem não o conhece, dizem amigos próximos, ele pode parecer belicoso. E frequentemente é mesmo, completam às risadas.

"Miltão", como é chamado pelos fãs, é do tipo que não 'passa pano'. O temperamento, no entanto, já o fez várias vezes se confrontar judicialmente com terceiros.

Nas respostas abaixo o apresentador do "Terceiro Tempo", da Band, fala (duramente) de Neymar pai, Neymar filho, Tite, de colegas e ex-colegas de profissão, de concorrentes, críticos de seu trabalho, executivos ou donos de rádios por onde passou; e até ex-executivos de TV --inclusive da Band.

Ninguém escapa. Se Milton tem alguma coisa a dizer sobre alguém, podem apostar, ele vai dizer.

Vai falar mal, mas também fala bem: demonstra gratidão a quem o ajudou a se tornar, ao longo dessas cinco décadas, não só um dos comunicadores mais bem-sucedidos do país, mas também um milionário.

Bom, quiçá bilionário, já que seus prósperos negócios fazem dele um empresário de grande porte (inclusive fisicamente falando).

Entre outros trabalhos Milton passou por Record, Manchete, rádios Jovem Pan, BandNews, Band, enfim, por quase todas as grandes emissoras de TV e de rádio. Nunca trabalhou na Globo, porém, e diz nunca ter recebido nenhuma proposta de trabalho de lá.

Mas, não se lamenta, como vão ler a seguir. "Globo é 90% de fama e só 10% de salário", afirma jocoso.

Milton, já são mais de 50 anos de profissão desde que estreou na rádio em Muzambinho. Algum momento você achou que ia se tornar um cara tão famoso (e rico)?

Milton Neves Filho - Nunca! Queria só entrar no Banco do Brasil, me casar com a Lenice, ter um Fuscão e uma casa mais ou menos em Muzambinho.

Mas, tomei pau em dois concursos, mais dois da Petrobras e em dois vestibulares para odontologia. Acho que Deus não me deixou passar porque tinha reservado para mim um caminho mais feliz e compatível com a única coisa que sei fazer: falar ao microfone.
Quanto ao "rico", sou mais do que rico considerando minha infância e adolescência, e também perante ao meio jornalístico em que vivo. Mas, entre os empresários, sou apenas um remediado. Um nota 5,07

Você ainda mantém contato com suas origens? Vai muito para Muzambinho?

Milton Neves - Sim, claro, e voltarei para lá dirigindo ou deitado com os braços cruzados na altura da barriga. Nasci lá, esposa e os três filhos também, e temos muitos negócios no trio Monte Belo - Muzambinho - Guaxupé.

Negócios agropecuários e imobiliários, que começaram por romantismo, mas que acabaram atingindo o profissionalismo. E quando chego lá vou direto ao Cemitério São José para ver minhas mãe, tia e avó. Jamais me separarei de Muzambinho.

Queria um panorama seu primeiro sobre o esporte na TV aberta atual e, especificamente, na Band. Aliás, gostaria de saber como foi seu período com Diego Guebel como diretor (argentino, ele foi diretor artístico e vice-presidente da Band entre 2011 e 2018).

Milton Neves - O panorama esportivo é muito bom na Band, mesmo considerando que, por enquanto, continuamos sem transmissão de jogos.

Mas, o DNA esportivo da Band é tão forte, que temos quatro programas no ar com bom faturamento e boa audiência. O "Terceiro Tempo" é a marca maior do pós-jogo do rádio e da TV do Brasil desde 1982. E estou muito feliz hoje com minhas 'invenções e criações' --Neto e Renata Fan, a quem profissionalmente ajudei mais do que a meus filhos.

Eu coloquei Renata na Band via Marcelo Parada, porque eu ainda estava na Record e à época não pude atendê-los. Tenho até hoje a "carta-oferta" do Parada enviada por e-mail para minha fazenda de Guaxupé (MG).

Quanto à TV esportiva em geral, a fase é espetacular com "mil" canais abertos e fechados no ar fazendo esporte. E registro outro motivo de satisfação: todo mundo agora descobriu a pólvora e eles resolveram fazer também seus "Terceiros Tempos".

Até a Globo tem agora uma marca "terceirotempista", chamada de "Segue o Jogo", e "A Última Palavra" (Fox Sports) na TV fechada.

E lembrar que meu ex-diretor Diego Guebel matou o "Terceiro Tempo" (Band) aos sábados e quartas...

Ali a Globo despertou com o "Segue o Jogo". A Globo ensinou ao executivo que não permitia colar o fim de jogo com o "Terceiro Tempo". Exigia sempre "reportagens primeiro". Algumas de até 15 ou 20 minutos, em plena Copa do Mundo.

E ainda conseguiu fatiar o programa aos domingos em dois pedaços --uma hora antes e uma hora depois, para inventar um tal "Formigueiro".

Foi uma 'obra-prima': criou um "Zero Tempo" de uma hora e um "Terceiro Tempo" também de uma hora. Experiente e do ramo, ele não precisava disso.

Nos últimos anos a Band perdeu o direito de exibir os principais campeonatos nacionais. O quanto isso atrapalha o seu trabalho na emissora e ao conteúdo de seu programa?

Milton Neves - Já tinha resvalado nisso e é heroísmo. Não temos futebol e (ainda assim) "Jogo Aberto", "Os Donos da Bola", "Band Esporte Clube" e "Terceiro Tempo" estão indo bem. Mas, é claro, com bola rolando o meu programa dava mais Ibope. Estamos navegando em médias e picos na faixa dos 3 ou 4 pontos, o que é ótimo.

A resposta comercial já voltou aos padrões anteriores assim que passei a apresentar o "Terceiro Tempo" às 18h. Foi o "ovo de Colombo", mas estivemos uns sete meses fora desse horário e sentimos dificuldades.

No rádio você tem o hábito de tentar adivinhar o resultado dos jogos. Acompanho isso há anos e quero perguntar: não é melhor você desistir da carreira de Mãe Dinah ?

Milton Neves - Hahaha...isso faz parte. O dia em que o "se" for proibido de ser falado ou escrito na crônica esportiva, todos ficaremos mudos. O "se" é a grande muleta.

E palpite também: todos nós 'chutamos' um placar, uma substituição 'certeira', uma convocação de alguém que vai ganhar a Copa para o Brasil, e que esse jogo será 1 a 1" e que 'não precisa nem acontecer'. Mas, a verdade, é que eu erro muito mesmo. Só Deus acerta tudo. Eu falava isso até para o ateu Ricardo Eugênio Boechat.

Agora sério (mas não muito): qual a sua porcentagem de acertos de resultados?

Milton Neves - Acerto uns 28,17% Aliás, deve ser a média de todo mundo (rs).

No passado você foi criticado porque sempre fez merchandising, ganhou até um personagem hilário no "Pânico", o "Merchan Neves"... Poderia falar sobre as críticas e sobre o merchandising no esporte também?

Milton Neves - Sabe aquela "do limão o fulano fez uma limonada"? Foi o que aconteceu comigo. O Tutinha do Pânico, sujeito imprevisível, inteligente e competente, achou talvez que aquilo poderia me desmerecer, mas foi ao contrário. Cresceram ainda mais meus 'merchans' (mais tarde) na Record.

Aliás, tenho um recorde nacional ou mundial, sei lá, o que pode ser atestado pelo Marcus Vinicius Chisco, hoje na CNN Brasil. Ele era meu diretor de merchandising: fiz 27 (VINTE E SETE!) ações em um "Terceiro Tempo" de duas horas durante a Copa de 2006 --que a Record não transmitiu!

E 'merchan' só de empresas 'top', que me acompanham --muitas até hoje. Foi muita grana e isso despertou violentamente algo muito comum na alma, coração, mente, olhos gordos e em cotovelos compridos e doloridos: a inveja!

Foi exposição 'top', muito 'merchan', muito trabalho, muito ibope, muito evento corporativo no Brasil e na América do Sul.

Era muito dinheiro, somando-se Record, rádios Jovem Pan, depois Band, Brahma, cotas de patrocínio... E também gerou muita inveja desses "triliardários" da difícil arte de se viver sofrendo com o sucesso alheio.

Os 'patrulheiros' sacaram o óbvio: como falar mal de minha rara memória, voz, conhecimento profundo de futebol e publicidade, raciocínio lógico e muito poder de comunicação esportiva em estúdio?

O célebre Fernando Luiz Vieira de Mello (1929- 2001), hoje nome de túnel em São Paulo, já falava nos anos 80: "Igual a esse mineiro caipira aí não teve, não tem e não vai ter". Eu concordo com ele (rs). Ah, a propósito, o pessoal de estúdio esportivo de rádio atualmente anda "miando" muito. Todos fracos. Fase ruim.

Hoje a Globo mudou sua linha editorial só para permitir que os funcionários do departamento de Esportes façam merchandising. Nesse sentido você foi mesmo um pioneiro...

Milton Neves - Mereço participação lá no departamento de 'merchan' da Globo como pai da criança (rs)!

Aí está outra vitória desse sujeito aqui, que segurou essa praga que é a figura do 'patrulheiro' invejoso e do falso moralista da classe.

Tenho lido que hoje até a Globo 'miltou'. Aliás, na comunicação esportiva, quem não 'milta se trumbica'.

Já ouvi o 'top dos tops', Galvão Bueno, lendo os nomes dos patrocinadores do futebol da Globo. Mas, falou muito rápido, comeu uma ou outra sílaba. Eu o 'critiquei' no Twitter: 'Publicidade no ar você faz de peito aberto ou não faz'.

Galvão é o maior, muito invejado também. Mas, tem uns aí sem voz, carisma, simpatia, poder de comunicação e domínio de microfone, que ainda torcem o nariz para publicidade. Mesmo com o bolso vazio coçando, se negam a fazer publicidade.

O mercado e a mídia agradecem porque, com tanta antipatia, e 'incomunicação', poderiam quebrar grandes conglomerados de nossa economia.

A Globo e os canais Globo nos últimos anos começaram a perder o tal "monopólio" das principais transmissões esportivas no mundo. Como foi trabalhar e cobrir futebol contra um monopólio como a Globo?

Milton Neves - Olha, sou fã da Globo e nunca a vi "contra", sempre "a favor". Ela sempre foi muito correta com a Band e também com a Record em meus tempos lá.

Concorrer com Globo não é fácil, é empresa notável, padrão NY, onde, por sinal, estou querendo ir morar. Se der tempo. Lá não pago diárias, mas condomínios (sim, no plural).

Nunca trabalhei na Globo, mas seria uma honra, pois eles são a 'seleção brasileira'. Porém esse é outro orgulho meu: fiz uma carreira do porão à mansão sem trabalhar lá, sem nunca ter saído do estúdio, sem nunca ter pertencido às tradicionais 'igrejinhas' de coleguinhas (da imprensa).

Sou o cardeal de minha própria igreja. Fui, sou e serei Sozinho FC, ao lado de grandes e eventuais companheiros de emissora. E, mesmo dando nota 10 para Globo, que jamais tentou me contratar, não lamento não ter trabalhado lá porque o padrão de pagamento deles não me agrada: é 90% em fama e 10% em dinheiro.

Curiosidade: por que você nunca se dedicou à narração de jogos? Pergunto isso porque Galvão Bueno deve trabalhar muito menos que você e ganhar mais (rs). Aliás, vocês têm alguma amizade?

Milton Neves - Já narrei, e bem, em 1990 e 1991, na TV Jovem Pan (canal 16 UHF). Só podia ser bom mesmo porque o Milton Leite, hoje excelente narrador, era meu 'reserva'. Ajudei muito o Milton com conselhos iniciais (quando ele foi escolhido pelo 'Seo' Tuta, da Jovem Pan).

A princípio, Milton Leite não queria se aventurar na narração, começou do meu lado no futsal e também foi para minha agência de publicidade. É um ótimo 'fazedor' de 'merchans'. É um ótimo profissional, sempre foi.

Quanto ao Galvão, ele merece ter o maior salário do meio, por ser o mais importante --disparado. Vivem publicando que ele ganha 'meros' R$ 500 mil, porque teria sofrido redução salarial em troca da liberação para fazer 'merchans' etc.

Sei lá. Se for "só" R$ 500 mil (duvido), seria "injustiça", e esse teu "ganhar mais" perguntado, Feltrin, ficaria muuuuitoo prejudicado.

Mas, acho que nós dois hoje trabalhamos pouco em relação ao passado. Ele, estrela maior, tem vida sossegada em relação "aos ontens". Eu só saio de casa às quartas e domingos, rumo à Band. Mas, entro, de casa, 'trocentas' vezes por dia nas minhas rádios do Morumbi --meu último estádio.

Semanalmente recebo amigos de verdade, não 'bicões-malas' falsos, em minhas adegas "Terceiro Tempo" I, II e III.

Sobre amizade com o Galvão, a distância física prejudica, mas quando o vejo bato palmas. E acho que ele também gosta de mim.

Nesses 50 anos de carreira você viu o auge e o fundo do poço do futebol brasileiro. Hoje você diria que ele está em que nível?

Milton Neves - Gostei da pergunta! Fomos Pelé, hoje somos Coutinho, não o do Santos, mas o do Barcelona ainda.

Somos uma seleção tímida, com um falso capitão-problema, Neymar, um técnico, Tite, 'supermala' em coletivas, e um time tipo Paraguai, Chile, Eslovênia ou Suécia. Ou seja, somos hoje a série B.

Muitos fãs do futebol acham que você exagera nas críticas a Neymar...

Milton Neves - Fui o primeiro a chamá-lo de Neymar Arantes do Nascimento. Gostava e gosto dele e tive a honra de apresentar 'de graça' o lançamento do primeiro site dele no Hotel Renaissance em São Paulo.

Fui o primeiro a colocá-lo na TV, no "Terceiro Tempo". Depois, fomos jantar também com o pai dele, que ainda não era 'mala', e com sua esposa, Nadine, maravilhosa, fina e ex-professora.

E lá, no Lellis Trattoria Campinas, dei um 'cooler' de cerveja Brahma para o menino. E aí deu um 'mini-rolo' pois ele tinha menos de 18 anos (rs).

Não quero mal ao Neymar e não o persigo. Afinal é o único que jogaria na seleção brasileira nos anos 60 e 70. Mas, preferiu virar artista, arrogante e 'mascarado', tornando-se o jogador mais odiado no mundo do futebol.

Árbitros, bandeirinhas, beques, volantes brucutus, colegas de times, torcidas adversárias e a Espanha inteira não gostam dele.

E, anotem: infelizmente logo, logo um beque cavalo pisará forte no quarto metatarso do dedinho dele, o seu calcanhar de Aquiles. Sou fã do Neymar, mas precisa virar adulto. Nada que uma vara de marmelo ou um rabo de tatu de Dona Nadine na bundinha dele não possam resolver (rs).

Porque o guloso Neymar pai e o 'malístico' Tite só passam a mão na cabeça dele. Ora, senhor Tite, Neymar de capitão é como o Paulo Morsa (Band) de Miss Brasil.

Você já se envolveu em brigas e polêmicas (e processos)... Não lembro de que tenha ouvido algum desaforo e ficado quieto... Você tem esse temperamento, digamos, combativo desde criança?

Milton Neves - Tenho, sim, mas como diz o insuspeito Mauro Beting, uma freira da bondade: "O Milton Neves não age contra ninguém, só reage. E forte, de vez em quando".

Mauro sempre acrescenta: "Ninguém sabe como é o Milton Neves fora do ar com muitos colegas, ex-colegas, funcionários mais humildes, com ex-jogadores e familiares de ex-jogadores; ou com a cidadezinha dele. Seria bom 'investigar'.

Para encerrar: diga o pior momento e o melhor momento que teve como jornalista esportivo nestas cinco décadas.

Milton Neves - Os melhores momentos foram quando Fernando Vieira de Mello me contratou pela Jovem Pan em 1972, por indicação do querido João Carlos Di Genio.

Ele abriu meu caminho neste mundo maravilhoso de 51 anos de microfone e de publicidade (sofram, invejosos); e, em 1999, quando entrei na TV para valer com o projeto Band-Traffic.

Obrigado, Johnny Saad, obrigado, J. Hawilla (1943-2018). Antes, fui boicotado na Manchete, na Gazeta e no "Cartão Verde" (Cultura). Um 'companheiro' de bancada, medroso e ruim de latinha 'igrejou' contra mim. Hoje dou graças a Deus por isso.

Meu caminho era a Band, hoje não preciso de mais nada. Só de mais uns 10 netos, se Deus quiser.

O pior desses 50 anos? Sabe que não tem? Bom, talvez em 2005, quando o 'Seo' Tuta (Antônio Augusto Amaral de Carvalho), da ótima Jovem Pan, cismou comigo e me 'gelou' na emissora. Foi uma burrada que um lúcido filho dele e o diretor comercial à época reconheceram.

Mas, ele embirrou e fui para as rádios Band. Eles perderam muito dinheiro com caros e bons advogados, e muita audiência de um raro apresentador que eles próprios formaram. Hoje apostam em apresentador com voz de ouvinte, e que nunca será "top" (nota: Milton perdeu a ação para a Jovem Pan no final do ano passado).

Levei Schincariol, Fiat, Casas Bahia, Tip Top, Caltabiano, Conibra, Madeirense, Giorgio Nicoli, Antarctica, Bradesco, Brahma e trocentos outros anunciantes para lá de 82 a 2005.

Além disso (com minha saída) reforçaram --muito-- o Grupo Bandeirantes de Rádio. Mas, tenho orgulho e carinho pelos meus tempos de Jovem Pan.

Desejo sucesso a eles, estão bem hoje na política; e muita saúde ao casal Margot-Tuta, meus primeiros patrões em São Paulo. E que sejamos todos felizes.

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