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Opinião: Ratinho e SBT ganham pontos com governo, mas perdem reputação

Ministro da Justiça, Sérgio Moro, deu entrevista a Ratinho no SBT - Gabriel Cardoso/SBT
Ministro da Justiça, Sérgio Moro, deu entrevista a Ratinho no SBT Imagem: Gabriel Cardoso/SBT
Ricardo Feltrin

Ricardo Feltrin é colunista do UOL desde 2004. Trabalhou por 21 anos no Grupo Folha, como repórter, editor e secretário de Redação, entre outros cargos.

Colunista do UOL

19/06/2019 11h52

Cobrindo TV nos últimos 20 anos, já critiquei e elogiei várias vezes Carlos Massa, o Ratinho, ao longo de sua carreira, desde a Record.

Como empresário não tenho um "a" a declarar, não conheço seus negócios embora saiba que é extremamente bem-sucedido.

Já como apresentador ele é um raro exemplo na TV de quem deu várias voltas por cima na carreira e soube se reinventar e assimilar críticas de forma madura.

Ratinho foi "caçado" pelos defensores do politicamente correto nos anos 90, acusado de ser o "rei da baixaria". Tentaram expulsá-lo da TV, inclusive.

Acabou reagindo de forma incrivelmente sensata.

Aceitou as críticas e decidiu mudar seu estilo. Voltou a ser aquele "palhaço" de início de carreira (sim, ele começou a carreira como palhaço) e se tornou um autêntico animador e comunicador, em vez de apelar e explorar o discurso de ódio, a desgraça e a miséria alheia.

O "Programa do Ratinho", do SBT, é divertido, despretensioso e popular. Tem ótimo ibope também. A Record já tentou enfrentá-lo várias vezes e sempre saiu perdendo.

Ratinho é engraçado, comunicativo e tem carisma e poder de mercado suficientes para ser um dos poucos apresentadores do SBT (e da TV brasileira) que tem fila de anunciantes esperando para entrar no ar. Ganha merecidos milhões por isso.

Mas, no momento em que transforma seu programa em palanque "político", Ratinho presta um desserviço para si mesmo, para o país, para o jornalismo e, claro, para o próprio SBT (cujo departamento de reportagem já anda bem mal das pernas).

"Boteco" não é lugar de tratar de questões nacionais importantíssimas. Não dá para chamar de "entrevista" aquilo que Ratinho fez ontem com o ministro Sérgio Moro.

Foi apenas um oba-oba, uma conversa chapa-branca, bajulativa e certamente um dos piores momentos da carreira do apresentador. Só faltou oferecer uma pinguinha.

Não estou entrando nem sequer no mérito se Moro deve ou não alguma coisa no cartório, se é ou não culpado de alguma coisa.

Mas, mesmo para o ministro, que está na berlinda, creio que seu lugar de falar não era ali, para uma claque mecanizada a adestrada aos aplausos.

Não estou aqui dizendo que Ratinho não tenha direito de levar políticos a seu programa.

Claro que tem, e já levou outros, assim como pastores evangélicos. Com exceção de seu filho, governador do Paraná (por questões que seriam de nepotismo explícito), ele tem direito a levar quem ele quiser. O programa é dele.

Mas, mesmo nesses casos, deve agir no mínimo como comunicador, ter alguma isenção, aproveitar a presença do convidado para esclarecer dúvidas, cobrar atitudes, questionar, e não se tornar "parceiro" e defensor incondicional do convidado. Aí mela tudo.

Foi isso que Ratinho fez ontem. Melou tudo. Até "fakenews" ele usou para agradar o convidado, como o jornalista Maurício Stycer, do UOL, demonstrou.

Certamente deve ter ganho muitos pontos com Moro, com o governo Bolsonaro (outro freguês de seu palanque), com os bolsonaristas e com o próprio Silvio Santos --outro eterno governista de carteirinha (seja qual governo for, aliás).

Ontem Ratinho brilhou com políticos, mas se apagou e perdeu um pouco de reputação e de credibilidade como apresentador e comunicador nacional. E o SBT feriu mais um pouco seu já fragilizado jornalismo.

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