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Ricardo Feltrin


Aprendi a trabalhar sem dinheiro, diz criador do "Encrenca", da RedeTV

Ricardo de Barros, superintendente da RedeTV, "pai" e diretor do "Encrenca" - Divulgação/RedeTV
Ricardo de Barros, superintendente da RedeTV, "pai" e diretor do "Encrenca" Imagem: Divulgação/RedeTV
Ricardo Feltrin

Ricardo Feltrin é colunista do UOL desde 2004. Trabalhou por 21 anos no Grupo Folha, como repórter, editor e secretário de Redação, entre outros cargos.

Colunista do UOL

21/07/2019 06h03

Ricardo de Barros passa até 18 horas (ou mais) por dia na sede da RedeTV, em Osasco. Todos os dias. Inclusive domingos. Faz isso porque quer e gosta, como diz na entrevista dada à coluna hoje.

Amigos sempre brincam e perguntam se ele tem vida fora do trabalho. Bem-humorado, responde: "Tenho, sim, estou até namorando". Tadinha da moça.

Dos 48 anos de vida, passou 17 deles dentro da emissora de Amilcare Dallevo e Marcelo de Carvalho. O último ano à frente da superintendência artística da casa, entre outras funções.

Profissionalmente, Ricardo, pode-se dizer, é uma espécie de raio que caiu duas vezes no mesmo lugar.

O primeiro raio caiu na RedeTV quase 17 anos atrás, quando foi um dos idealizadores e criadores do projeto "Pânico na TV".

Ficou à frente do humorístico de 2003 a 2008. O programa fez história (positiva e negativa) na TV aberta e mudou para sempre a chamada "guerra dos domingos", oriunda do início dos 90 e que até então era restrita a Faustão (Globo) e Gugu Liberato (SBT).

Fato: o "Pânico" foi a maior audiência e faturamento da história da RedeTV (não necessariamente tendo sido o mais lucrativo).

O segundo "raio" Ricardo lançou cinco anos atrás, quando foi "pai" pela segunda vez daquele que é --de novo-- o maior sucesso de ibope e faturamento da emissora: o "Encrenca".

Uma virtude visível do superintendente, porém, não é seu poder de criação, mas a capacidade de trabalhar praticamente sem dinheiro. Isso sim é a alegria de seus chefes.

"Na verdade virei especialista em trabalhar sem grana", brinca. Leia a entrevista:

Primeira pergunta: Você está completando 1 ano como superintendente artístico da RedeTV, mas não largou até hoje a direção do "Encrenca". Quantas horas por dia você trabalha?

Ricardo de Barros - Quando a gente gosta do que faz, pode ficar muito tempo no trabalho. Eu fico mais na RedeTV do que em casa. A TV nunca desliga, então eu fico ligado o tempo todo.

Comecei as reuniões do "Encrenca" um ano antes de o programa entrar no ar. Em 2014, três meses antes da estreia, conheci (pessoalmente) Tatola, Dennys, Ângelo e Ricardinho. Temos orgulho do que fizemos. O projeto "Encrenca" cresceu e é divertido demais. Tenho uma equipe incrível, um elenco muito forte e amigo.

Hoje faço a superintendência Artística da Rede TV, (dirijo) o 'Encrenca' e a tenho a direção criativa da Peanuts (braço digital da RedeTV). Produzimos conteúdos para outras plataformas como o YouTube e Facebook.

Como você avalia esse seu primeiro ano na superintendência, em termos de ibope, conteúdos e faturamento?

Ricardo de Barros - Um ano em televisão passa muito rápido. Além da parte criativa, estamos reorganizando a RedeTV. São vários procedimentos que não aparecem para quem vê a gente, mas são muito importantes.

Do controle e diminuição de gastos ao aproveitamento de nossos funcionários e colaboradores. Exemplo: "Tricotando" e "Olga" foram feitos com equipes remanejadas dentro da nossa casa, sem nenhuma contratação. Estou aqui já há 17 anos, vi muita coisa acontecer, eu posso colaborar.

Na RedeTV é assim, muita coisa que dá certo é formato original. Mas, eles demoram normalmente um ano pra 'pegar'.

Incentivei a volta do 'Mega Senha'. Trouxe mais uma opção de faturamento nas tardes com o "Tricotando", que hoje é um sucesso comercial e está melhorando no ibope.

O programa "Olga" começou há pouco tempo, mas já mudamos de horário e agora está crescendo também.

O "Amaury Jr." está de volta. Tenho ideias na fila esperando a vez. Vem mais por aí. Fizemos um piloto do "Casseta & Planeta", que dirigi na Globo em 2012.

A impressão que tenho da RedeTV é que ela tem dificuldade em criar uma imagem, uma identidade própria por causa da presença maçante de igrejas e de outros horários alugados. Como lidar com isso?

Ricardo de Barros - Fazer televisão não é barato e custa caro experimentar. Nós não podemos fazer tantos testes. Colocamos primeiro no ar e vamos acertando com o tempo. Igrejas e concessionários são importantes para manter a empresa funcionando. É uma locação de horário.

Você é o "pai" do Encrenca, hoje a maior audiência da RedeTV. No entanto, você disse que, quando o programa estava quase fazendo um ano, achou (que estava) muito ruim e mexeu em quase tudo. Você acreditava que o "Encrenca" chegaria a se tornar um fenômeno?

Ricardo de Barros - Começamos o "Encrenca" como qualquer outro programas. O elenco saía em duplas para gravar, fazendo matérias de cinco a dez minutos. Não ficou legal.

Eu já ouvia o "Quem Não Faz Toma", programa que o Tatola, Dennys, Ângelo e Ricardinho fazem na 89FM e dava muita risada. Percebi que eles se completavam, que eram fortes. Afinal, a amizade deles já tinha 20 anos.

Um dos criadores (do núcleo), o Marcelo Tadeu, sugeriu passar alguns vídeos e eu combinei com o elenco que eu deixaria os vídeos em tela cheia para que eles narrassem juntos (foi uma experiência).

Aos poucos fui abrindo uma pequena janela à direita da tela. Eles apareciam rindo e comentando tudo. Ali estava a diferença no formato.

O "Encrenca" é um programa inteiramente narrado por mais de três horas. Nós produzimos quase quatro horas de material editado por semana para eles narrarem.

Além disso, eles não sabem qual é a sequência, o que eu vou colocar (no ar). Isso faz com que eles mesmos tenham surpresas ao assistir.

Se eu acreditava? Sim. Depois desse dia eu tive a certeza de que um sucesso viria. Trabalhamos muito para isso acontecer.

Sei que você sofreu no princípio pressão para que o "Encrenca" fosse meio que uma cópia do "Pânico". Mas, que foi contra essa ideia. Por quê?

Ricardo de Barros - O 'Pânico' é meu filho mais velho, foi um sucesso tremendo. Então achei lógico que o caminho do 'Encrenca' fosse outro.

Não tinha humorista no 'Encrenca',o que tinha eram quatro caras bem-humorados. O caminho da família é mais difícil, muito mais complicado e nós optamos por esse caminho. Fomos direto para as crianças, seus pais e avós. E deu muito certo. Está dando né (nota: o programa é 4º lugar no ibope , mas já disputa algumas vezes o 3º; tem picos de audiência próximos de dois dígitos).

Você também é um dos "pais" do "Pânico" na TV, e foi o diretor do programa em seu auge. Sua saída, apesar de parecer tranquila, me pareceu ao mesmo tempo traumática. À época pareceu que você tinha sido escolhido como bode expiatório para as críticas? Quer falar sobre isso?

Ricardo de Barros - Formatei o "Pânico" desde o início, foram cinco anos de trabalho duro. Saí em 2008. Foram muitas conquistas, uma revolução, rachamos a guerra ''Gugu'' x ''Faustão'' na TV.

O ''Domingo Espetacular'', da Record, foi feito nessa época para concorrer também. Ganhamos Troféu Imprensa, APCA, entre outros. Sinceramente? Tínhamos o mundo nas mãos.

Fui montador na publicidade e trouxe uma edição rápida com apoio de artes na tela. A amarração da edição (do Pânico) era espetacular.

Consegui erguer o programa sem gastar quase nada, característica do "Encrenca" também. Baixo custo e alto benefício.

Se posso ser culpado é pelo sucesso do "Pânico na TV". Eles devem ter passado por momentos complicados com a minha saída, tudo mudou de repente.

Eu já tinha tentado (sair) antes de 2008, mas ninguém sabia, só o Emílio Surita. Eu parti para novos desafios, era um caminho mais difícil, mas eu precisava crescer. Aliás, não fiquei rico com o "Pânico na TV", viu?

Soube que até hoje, após cinco anos desde a estreia, o "Encrenca" até não sofreu nenhuma ação judicial. Faz ideia de quantos processos o "Pânico" tinha após cinco anos?

Ricardo de Barros - Muuuuuitos! Mas, olha, processos fazem parte de uma televisão e nem sempre eles são justos.

Naquela época fomos no limite várias vezes. Isso causava uma revolução de audiência, muitas polêmicas e alguns problemas: a temida "Sandálias da Humildade" e outras ideias que desconstruíram as celebridades, por exemplo, causaram muitos.

O "Encrenca", por outro lado, é família. Temos esse compromisso, a ideia é entreter com coisas leves e fazer as pessoas darem muita risada. Eu tomo muito cuidado com tudo que vai ao ar. Assisto a tudo mesmo.

Uma crítica que o "Encrenca" sofre constantemente --inclusive sofreu até de Silvio Santos em rede nacional, no último Troféu Imprensa-- é que se trata de um "amontoado" de videos de "zap", que "não tem conteúdo" ou quadros. "É chato", disse Silvio. Pode comentar isso?

Ricardo de Barros - O programa parece ser muito simples ao assistir. Esse é o segredo. Só que é muito mais complicado de produzir do que o "Pânico". São pequenos tapes de um a três minutos que escolho ao vivo. São muitas horas de trabalho durante a semana.

A 'curadoria' do vídeos do quadro 'Zap Zap' é complexa. Buscamos tudo que está rolando na rede. É, sem dúvida, hoje, a maior participação popular da TV brasileira. Quem assiste aparece também e participa ativamente enviando vídeos durante a semana, e também ao vivo.

Não parece, né, mas (fazer tudo) isso é muito difícil, pois tenho que montar uma operação de guerra em busca desses vídeos todas as semanas. São mais de três horas ao vivo todos os domingos.

Veja: não é fácil produzir quatro horas de material editado por semana. O custo do projeto é baixo, mas o resultado, espetacular.

Assista e você vai ver a diversificação. O formato é moderno e acompanha o que está acontecendo no mundo agora.

Na verdade acho que o "Encrenca" tenta parecer um programa de Youtube...

Ricardo de Barros - Sim, ele tem características de internet: do YouTube, do WhatsApp e do celular, que é o computador de bolso. Eu consegui colocar o rádio na TV, o elenco fala o tempo todo. Essa é a harmonia.

Você me disse que acha que o "Encrenca" é um formato que vai durar muitos e muitos anos? Eu imagino porque você diz isso: é porque as crianças gostam dele, não é?

Ricardo de Barros - Sim, é essa a nossa maior conquista: a criançada. Temos hoje a confiança dos pais e avós, e isso é muito importante. O público vem crescendo a cada ano.

Recentemente o "Encrenca" teve sua classificação indicativa baixada para 10 anos e, em breve, poderá se tornar uma atração "livre". Já o "Pânico" abusava de escatologia, de panicats e de situações constrangedoras. Só que você fez as duas coisas, e tão diferentes. Se arrepende de algo?

Ricardo de Barros - Não me arrependo de nada. Já testei o extremo muitas vezes. Com a minha saída, na verdade, acho que o "Pânico" perdeu o controle nos exageros.

Eu ponderava muita coisa. O programa ficou muito mais caro e deixou de ser simples. O mundo muda e tenho que acompanhar essas mudanças. Ser simples e 'ser família' é mais difícil.

O "Tricotando" foi um dos programas que você lançou este ano. O outro é "Olga". A audiência de ambos tem sido bem baixa... O quanto você é cobrado (pelo ibope)?

Ricardo de Barros - Brigo pela audiência o tempo todo, sou cobrado e cobro também. A audiência ainda pode crescer. O 'Tricotando' já subiu um pouco e o faturamento está ótimo, com oito ações de 'merchandising' e dois 'breaks' comerciais.

O 'Olga' recentemente mudou de horário e precisa se firmar, processo normal, uma boa alternativa.

Desculpe a sinceridade, mas como é que um programa como do padre Alessandro foi ao ar nas manhãs da RedeTV? Saiu do ar após três meses. A mim não parecia adequado nem em conteúdo, nem musicalmente e muito menos no horário de exibição. Foi sua ideia?

Ricardo de Barros - O "Programa do Padre Alessandro" não foi ideia minha, tivemos que atender a uma demanda comercial e colocamos no ar.

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