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Ricardo Feltrin


"Só tenho medo de não viver uma vida plena", diz brasileira que escalou K2

Karina Oliani, primeira brasileira a escalar a montanha K2, a mais perigosa do mundo - Divulgação
Karina Oliani, primeira brasileira a escalar a montanha K2, a mais perigosa do mundo Imagem: Divulgação
Ricardo Feltrin

Ricardo Feltrin é colunista do UOL desde 2004. Trabalhou por 21 anos no Grupo Folha, como repórter, editor e secretário de Redação, entre outros cargos.

Colunista do UOL

11/08/2019 06h03

Aos 37 anos, Karina Oliani já escalou as mais difíceis montanhas do mundo, mergulhou em praticamente todos os mares do planeta, salta de pára-quedas, pilota helicópteros --e ainda por cima com especialização em pousar e subir em locais inóspitos para resgatar feridos. E também atendê-los antes de tirá-los de lá, já que é médica.

Conversando com Karina, porém, quem não conhece seu currículo jamais imaginaria que dentro dessa mulher de 1m67, de jeitos calmos, com uma adorável fala pausada e voz de menina, vive uma força hiperativa da natureza.

Dias atrás ela se tornou a primeira brasileira a escalar a montanha K2, na fronteira entre o Paquistão e a China.

Antes dela um outro brasileiro conseguiu a façanha até hoje (Waldemar Niclevicz, em julho de 2000, sem uso de tubos de oxigênio).

Nesta segunda-feira (12) uma nova boa notícia: mais um brasileiro conseguiu o feito: o brasileiro Moeses Fiamoncini também chegou lá, e também sem uso de oxigênio (ela usou dois cilindros na subida).

Karina, porém, teve um trabalho extra durante a escalada: filmou toda a expedição e a chegada ao topo do K2, considerada a montanha mais perigosa do mundo. E o Everest? Bom, ela já escalou duas vezes --pelas faces Sul e Norte.

Os 50 dias da expedição renderam 15 horas de imagens que ela classifica de "extraordinárias", e que serão transformadas em documentário para a TV.

No próximo dia 19 ela vai exibir uma "prévia" das filmagens em São Paulo, em evento no shopping Eldorado, no Outback --um dos patrocinadores de sua façanha, que custou cerca de US$ 60 mil (pouco menos de R$ 235 mil).

A expedição vitoriosa de Karina contou ainda com o argentino (com alma brasileira) Maximo Kausch e o sherpa (guia) nepalês Nigma.

Leia a seguir uma entrevista exclusiva com Karina Oliani.

Primeira pergunta: você fez curso de mergulho e saltou de pára-quedas aos 12 anos, já escalou o Everest duas vezes, agora conquistou o K2, pilota helicópteros... O que move você interiormente? Desde que idade você tem esse, digamos, espírito?

Karina Oliani - Eu nasci com esse espírito. Desde pequena minha mãe conta várias histórias sobre essa coisa aventureira, de querer desbravar, de querer ir a lugares que eu não podia...

E como é que você conseguiu conciliar todas essas atividades com um curso de medicina? Aliás, qual sua especialização em medicina?

Oliani - Durante a medicina eu dei uma paradinha em algumas atividades, não consegui continuar muita coisa que eu fazia. Mas, durante o curso a gente tem anos mais tranquilos e outros anos mais exigentes, que só dá para estudar mesmo --por exemplo o quinto e o sexto ano, que eles chamam de internato; de tão grande que é a carga horária.

Mas, eu sempre fui uma pessoa hiperativa, de fazer várias coisas ao mesmo tempo, de dormir muito pouco e de ser muito ativa mesmo.

Quando o curso de medicina acabou, eu fui para os EUA e me especializei em "wilderness medicine" ("medicina em regiões selvagens" na tradução livre).

Foram três anos na Universidade de Utah, que foi aonde eu me formei em medicina de emergência em áreas remotas. Fui a primeira médica da América Latina a tirar o diploma da WMS.

Depois também fiz especialização em nutrologia na Santa Casa de São Paulo, e outra em medicina de urgência pelo hospital Albert Einstein. Então tenho três especializações.

Na última vez que escalou o Everest você me contou que viu vários corpos de outros alpinistas pelo caminho... Alguns corpos provavelmente ficarão lá para sempre, de tão inacessíveis que estão... Isso não te causa arrepios? Não faz você pensar: "Ôpa, será que eu deveria mesmo continuar a fazer isso?"

Oliani - Isso causou arrepios, sim, no Everest. No K2 eu não vi nenhum corpo.

Mas, por outro lado, a gente foi ao memorial do K2 --que é tipo um cemitério--, na base da montanha, onde dá pra ver restos mortais. Então ali tem um crânio aqui, tem um pé dentro de uma bota ali, ossos, pele, enfim, (literalmente) pedaços de alpinistas.

Sobre seu "ôpa"... Com certeza quando você chega ao memorial, quando você vê algo assim, e ainda por cima de montanhistas tão famosos, (vendo pedaços de) pessoas tão experientes, tão técnicas, que sabiam o que elas estavam fazendo... aí, bom, isso te faz ter um respeito ainda maior.

Não que você já não tenha, claro. Mas, tudo isso me fez ir com mais cautela ainda. Porque o K2 é... puxa... realmente... vou te falar: dá pra entender porque é chamada de a montanha mais difícil do mundo, viu?

Em todos esses anos você já correu risco de graves acidentes ou mesmo de morrer?

Oliani - Sim, sofri um acidente muito grave quando tinha 18 anos. Eu tive fratura na coluna cervical, eu fraturei vértebras, corri um grande risco de ficar tetraplégica. Mas, graças a Deus, não fiquei. Mas, que foi um acidente bem feio, foi.

Já passei perto da morte em algumas outras situações, no mar, velejando... e tive outras situações bem apertadas em que eu pensei 'caramba, será que eu vou morrer aqui mesmo?'...

Mas, olha, Ricardo, eu sei que vou morrer. Você vai morrer. Todo mundo vai morrer. A gente nasceu com essa condição mortal.

Claro, não é por isso que a gente tem de ficar se arriscando. E é por isso que eu me preparo tanto para as minhas expedições, faço análises, prevenção, enfim, a gente tenta evitar todos os riscos. E os riscos estão lá, né?

Por outro lado, um dia talvez você atravesse uma rua e vem um carro com um bêbado na direção, te atropela e te mata, não é verdade?

Então todos nós vamos morrer. Só que muito poucos vivem de verdade. Poucos vivem a vida que realmente querem viver. E é isso que eu tenho mais medo: de não viver a vida que eu quero. Temo isso muito mais do que a morte.

O que foi mais difícil: subir o K2 uma única vez ou escalar o Everest duas vezes?

Oliani - Nossa, essa pergunta aí é delicada, hein? Porque é assim: o Everest é uma montanha muito difícil, principalmente pela face Norte. E subir o Everest pela face Sul em 2013 foi muito difícil porque eu tinha muito menos experiência do que tenho hoje, 2019.

Mas, o K2, eu não subi uma única vez, né? Eu fiz um ciclo de aclimatação, depois fiz uma subida onde eu quaaaase cheguei ao cume, eu estava a 500 metros dele. E aí tive de abandonar, por causa de uma avalanche.

E aí eu fiz uma outra tentativa, que a gente realmente conseguiu chegar lá em cima. O K2 foi MUITO difícil.

E o K2 não foi difícil só pela escalada. Eu subi filmando. Então, além de toda dificuldade, como alpinista, eu subi com uma câmera na mão. Em compensação agora tenho 15 horas de imagens incríveis contando todos os detalhes da minha expedição.

Li uma entrevista em que o primeiro alpinista brasileiro a escalar o K2, Waldemar Niclevicz, afirmou que não quer nunca mais pisar lá. Pergunto: você quer?

Oliani - Olha, o K2, necessariamente, não tenho vontade de voltar, não. Eu escalei ele, subi, desci, subi, desci, fiquei muito tempo lá...

Foi uma experiência incrível, mas, realmente, é uma montanha BEM arriscada. Então eu acho que não tenho necessidade de voltar lá. Mas, quero voltar pro Paquistão, quero escalar outras montanhas lá.

Preciso perguntar isso também: você teve várias empresas te apoiando na escalada, como Volvo, Outback etc... Quanto custa no total uma expedição desse porte?

Oliani - Olha, tive de pagar pra mim, pro meu parceiro, os sherpas... Em média, a minha expedição custou uns US$ 60 mil. Claro que tem custos que eu ainda coloquei na planilha, mas em média custou isso por 50 dias.

Você foi a primeira brasileira da história a escalar o K2, mas por apenas algumas horas não foi também a primeira sul-americana --já que uma equatoriana (Carla Pérez) chegou antes. Foi questão de estratégia, sorte dela ou o quê? Ficou chateada?

Oliani - Não, não fiquei chateada, nem sabia que tinha uma equatoriana, ela falava espanhol com sotaque da Espanha, eu achei que fosse espanhola.

Não foi uma questão de estratégia, porque ali a gente estava numa situação difícil, meio que todo mundo já tinha desistido, todo mundo estava indo embora do K2, ficaram pouco mais de 20 alpinistas pra tentar mais uma vez.

Então, desses 20 que ficaram, o que a gente queria mesmo era só chegar ao topo. Ter essa oportunidade de chegar lá.

Eu não estava pensando muito nisso de 'ah, a primeira sul-americana, a primeira brasileira'... Acho que essa coisa de 'títulos' não estava em jogo pra mim. Não fez diferença nenhuma.

Depois, quando desci, só aí eu soube que ela era equatoriana. Mas, eu fiquei muito feliz por ser simplesmente uma mulher a chegar ao topo do K2. Isso mostra que o montanhismo está deixando de ser um esporte predominantemente masculino.

Pergunta pessoal: você pensa em ter filhos? Acha possível conciliar esse espírito aventureiro com a maternidade?

Oliani - Iiiih, essa pergunta aí é a que eu mais me faço (risos). Eu aaaacho que eu quero ter filhos (risos). Isso é uma decisão bem complexa, sabe?

Muitas mulheres têm certeza disso, elas têm a maternidade como projeto de vida, mas para mim é uma coisa que eu ainda questiono bastante.

Questiono justamente porque eu não sei o quanto a maternidade atrapalharia minha liberdade --que é a coisa que eu mais prezo na vida, e que está intimamente ligada com minha profissão e com tudo que eu faço.

Qual seu próximo objetivo como mulher e como esportista? Falta alguma montanha? Porque até vulcão em erupção você já escalou, né? (no ano passado ela cruzou um vulcão ativo na Etiópia em uma tirolesa)

Oliani - Hahahaha! Meu próximo objetivo? Bom, eu tenho uma viagem marcada para o Nepal, tenho umas montanhas na lista, mas elas não são tão conhecidas como o K2 ou Everest, são simplesmente montanhas que me fascinam.

E eu tenho muitos outros sonhos de expedições e de coisas a fazer. Não sei a ordem que vai acontecer, mas neste ano eu ainda tenho mais três viagens. Numa delas vou ter de aprender a voar com uma coisa que eu nunca voei, e que é muito inusitada. Só pra te adiantar (risos).

Tenho uma última pergunta. Você, Karina, corre muitos riscos, a despeito de toda segurança, profissionalismo, preparação etc. Mesmo assim o risco está em todos os lugares, você mesma disse aí em cima. Você nunca pensa que as pessoas que te amam sofreriam muito se algo ruim te acontecesse?

Oliani - Penso. É justamente porque eu penso nessas pessoas e não quero que elas passem por sofrimentos que eu faço tudo com tanto cuidado, com tanta segurança, com tanta preparação. Por isso a gente pesquisa, estuda, calcula, se prepara tanto.

Mas, essas pessoas que me amam, elas têm tudo muito claro e me conhecem. A gente já conversou sobre isso vááárias vezes: que essa é a vida que eu escolhi, que isso é o que eu amo fazer, que é isso que faz brilhar meus olhos, que faz meu coração bater mais forte.

E, se um dia, por acaso, eu morrer fazendo isso --como eu poderia por acaso morrer de uma doença ou atravessando a rua, num acidente de trânsito--, se um dia algo de ruim acontecer essas pessoas terão certeza que eu morri fazendo o que eu gosto.

Terão certeza que eu morri tendo uma vida plena, a vida que eu escolhi. Que morri fazendo tudo que realmente fazia meu coração bater. E essas pessoas sabem de tudo isso, e também sabem o quanto eu amo a todas elas.

Além disso, da mesma maneira que eu posso morrer, elas também podem morrer. Talvez de uma maneira mais simples, mas todos nós somos mortais. Essa é a única certeza que há desde que a gente nasceu.

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