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Análise: O que está acontecendo com a ESPN Brasil?

João Palomino, ex-vice-presidente de jornalismo, dispensado ontem pela ESPN Brasil - Divulgação
João Palomino, ex-vice-presidente de jornalismo, dispensado ontem pela ESPN Brasil Imagem: Divulgação
Ricardo Feltrin

Ricardo Feltrin é colunista do UOL desde 2004. Trabalhou por 21 anos no Grupo Folha, como repórter, editor e secretário de Redação, entre outros cargos.

Colunista do UOL

15/08/2019 00h09

O mundo esportivo levou um "chacoalhão" ontem com o anúncio de uma série de demissões no canal ESPN Brasil.

Entre os demitidos, como o UOL Esporte publicou, estão do vice-presidente de jornalismo, gerentes, diretores, editores, apresentadores, comentaristas e colunistas "históricos" da casa.

Em nota oficial, o canal disse que passa por "um processo de transformação e adaptação para atender aos fãs, acionistas e clientes".

Embora cruel, a mudança é legítima e outros canais --inclusive abertos, como a Globo-- também estão fazendo reformulações e enxugamentos nos seus quadros.

A diferença é que a ESPN está nos últimos anos no "olho" de uma série de furacões contínuos que assolam a economia, o esporte na TV e a TV por assinatura como um todo. Nesse ponto tem sido um dos canais mais afetados.

Comecemos pelo conteúdo e sua distribuição: a ESPN Brasil não é um canal incluído em pacotes básicos, como SporTV e FoxSports.

Ao optar, lááá atrás, pela "elitização", ao não se movimentar com os novos tempos, o canal acabou atropelado pela realidade, pela concorrência mais esperta e por uma "explosão" de novos canais esportivos.

No mês passado, por exemplo, na Grande São Paulo --principal mercado publicitário e maior público do país--, a ESPN Brasil deu o ibope-traço de 0,06 ponto. Convenhamos, isso equivale a zero de audiência. Zero público.

Apenas para comparação, o canal deu menos que o SporTV3 (0,09), SporTV2 (0,14), Fox Sports (0,18) e, obviamente, SporTV (0,32).

Falta dinheiro e conteúdo

Um outro problema já vinha acometendo a emissora há anos e estava bem visível: a crise econômica e a perda de conteúdo.

Conforme esta coluna informou no ano passado, ao deixar seu conteúdo estagnar, ao perder os direitos de exibir a Copa do Mundo da Rússia, ao sofrer forte concorrência de outros canais esportivos, ao não se mexer, a ESPN Brasil perdeu mais de 1 milhão de assinantes nos últimos tempos.

Parte desses assinantes, é verdade, foi embora da TV por assinatura como um todo. Mas, uma boa parcela desistiu apenas do canal.

Dá para entender essa gente: por que continuar pagando uma "taxa extra" todo mês na fatura para ter um canal que nem sequer vai exibir a Copa? Ou que passa o dia todo exibindo versões de um mesmo programa ("Bate Bola")?

A verdade é que nos últimos anos a ESPN Brasil começou a sofrer forte concorrência e a perder relevância junto ao fanático telespectador dos esportes.

Como disse um especialista de TV ouvido ontem pela coluna sob anonimato, "a ESPN virou uma grande mesa redonda mal-humorada e antiga".

É muito doloroso ver tanta gente competente, querida do público, com currículos impecáveis, sendo descartada dessa forma.

Mas, a verdade é que, como o ditado diz, pessoas jurídicas não têm sentimentos, só resultados contábeis.

A Disney Company, "dona" da ESPN, fez uma opção por um novo modelo de TV, e certamente o objetivo é tornar o canal mais competitivo e sintonizado com os novos tempos midiáticos e de crise econômica. Também propriedade da Disney, a Fox Sports terá de ser vendida nos próximos meses. A direção lá em cima está se preparando e mirando no futuro.

Assim como na Globo, a próxima geração de funcionários da emissora certamente chegará com salários bem menores. É tudo uma decisão estratégica, embora também seja algo frio e calculista para quem vê de fora.

Se as mudanças vão dar certo ou a ESPN vai continuar perdendo de goleada, porém, só o tempo dirá. A torcida, obviamente, é para que sim.

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