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Ricardo Feltrin


Análise: Globo é beneficiada com saída de Gottino da Record

Ricardo Feltrin

Ricardo Feltrin é colunista do UOL desde 2004. Trabalhou por 21 anos no Grupo Folha, como repórter, editor e secretário de Redação, entre outros cargos.

Colunista do UOL

17/09/2019 10h35

Do ponto de vista estratégico, foi uma bela e inesperada jogada do CEO da CNN Brasil, Douglas Tavolaro: ninguém apostaria que ele tiraria Reinaldo Gottino da Record. Foi cirúrgico.

Gottino, 42 anos, trabalhou os últimos 14 na Record. À frente do "Balanço Geral", ele caiu no gosto do público e há anos incomoda e ocasionalmente derrota a Globo.

Um dos quadros do programa, "A Hora da Venenosa", vence a líder há mais de um ano consecutivo, algo inédito na TV brasileira.

Apesar de apresentar um telejornal local, Gottino virou um nome nacional e uma referência, respeitado pelos colegas e até pelos concorrentes.

Há anos Silvio Santos "ameaçava" contratá-lo, mas sempre hesitou. Assim como fez com Luiz Bacci e, duas vezes, com José Luiz Datena. Vacilou de novo.

Enquanto isso, nos bastidores, Tavolaro, que foi basicamente quem lançou Gottino para o estrelato jornalístico, driblou a ex-emissora "no meio das canetas" e atraiu um dos grandes nomes da TV aberta atual.

Como âncora, Gottino é sério, ponderado, seguro, simpático, tem carisma e muita credibilidade. É também versátil e tem grande jogo de cintura em coberturas ao vivo. Entende de esportes também, inclusive os paraolímpicos. Uma grande e útil contratação para a CNN Brasil.

Mas, vamos às críticas a quem merece: a .dona RecordTV.

O contrato de Gottino vencia dentro de 13 dias, e até ontem NINGUÉM da emissora o havia procurado para falar em renovação.

Vejam bem, a menos de duas semanas do fim do contrato de um de seus profissionais mais valiosos, e a Record simplesmente o deixou em banho-maria (e inseguro).

É a velha "cultura" da Record, e esta coluna já abordou esse assunto. A "filosofia" lá é a seguinte: ninguém é maior que a emissora. Ninguém é insubstituível.

É também uma "tática" que deixa o profissional inseguro e, dizem, uma forma de não deixar os salários decolarem muito. Dessa vez foi uma "furada".

Ok, pode ser que a estratégia funcione em alguns casos, mas tudo tem outro lado. Isso não significa que a empresa possa humilhar um profissional gabaritado e também que ela possa evitar que ele chame a atenção de outra emissora mais esperta.

Recentemente, na renovação de Luiz Bacci, a direção de Jornalismo da Record o chamou para tratar do assunto no último dia de vigência do contrato. Foi definitivamente constragedor.

A coisa pegou muito mal dentro da Record entre outros profissionais, e deve ter acendido o alerta vermelho para o próprio Gottino.

Sua contratação pela CNN foi, antes de mais nada, produto da empáfia (injustificada, diga-se) da Record. Impossível não dizer "bem feito", especialmente quando isso acontece com um comunicador tão querido, justo e generoso.

Gottino, para quem não sabe, dividia todos os meses parte do "merchandising" que ganhava no "Balanço" com TODA a equipe do programa. Provavelmente um caso único no país.

Resumindo: a Record tinha uma grade estável, um avião em voo de cruzeiro, sem problemas e deixou a situação complicar por seus próprios "méritos". Vai corrigir o erro, claro, mas não precisava.

Globo pode comemorar também

Mas, tirando tudo isso, quem também vai comemorar essa mudança é a Globo —essa sim, beneficiada com o terremoto que acaba de acontecer na Record.

A estreia do "Se Joga", com Fernanda Gentil", já havia sido definida bem perto do fim da novela "Bela A Feia", que vem atingindo ótimos índices de ibope (8 a 9 pontos) e será substituída por "Escrava Isaura".

Mesmo que Bacci seja transferido para o posto de Gottino (como antecipou o jornalista Flávio Ricco, do UOL), o "Balanço Geral" não será mais o mesmo e precisará de algum tempo para o público e a própria equipe se readaptar. Será uma nova química no ar.

Além disso fica aquela história do cobertor curto, porque Bacci vai muito bem no "Cidade Alerta" e agora terá de ser substituído lá por outro apresentador. E assim por diante.

A Globo contava, portanto, com uma estratégia própria, mas ganhou de presente um erro primário da concorrente

Com uma hora e meia de duração, o "Se Joga", portanto, enfrentará uma hora de "Balanço Geral" e meia-hora de novela.

A Record não sofreu nenhum nocaute, mas pode-se dizer que foi às cordas. E ainda corre risco de "Escrava Isaura" não repetir os índices de "Bela a Feia".

Com certeza tudo isso é um bom augúrio para o novo programa de entretenimento comandado por Fernanda Gentil, Érico Brás e Fabiana Karla a partir do próximo dia 30.

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