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Análise: TVs abertas encolhem, fazem cortes e isso já era esperado

Silvio Santos comanda este ano novamente o Teleton  - Divulgação/SBT
Silvio Santos comanda este ano novamente o Teleton Imagem: Divulgação/SBT
Ricardo Feltrin

Ricardo Feltrin é colunista do UOL desde 2004. Trabalhou por 21 anos no Grupo Folha, como repórter, editor e secretário de Redação, entre outros cargos.

Colunista do UOL

20/10/2019 10h17

As últimas semanas têm sido agitadas no mundo da TV aberta. Várias emissoras, como Globo, Band e, mais recentemente, SBT promoveram grandes cortes de pessoal e de custos, como esta coluna e outras têm publicado.

Curiosamente, a primeira a fazer isso foi a modesta RedeTV, que cerca de seis anos atrás readequou seu tamanho, demitiu uma quantidade grande de funcionários e principalmente —e não menos importante— fez uma verdadeira "faxina" em seus casos na Justiça Trabalhista.

Acreditem: Record e RedeTV são hoje duas das emissoras com menos processos trabalhistas em andamento na Justiça.

Mesmo assim, nesta segunda-feira (21), a RedeTV chocou suas equipes ao anunciar um grande corte e redução de salários.

A Globo já vem fazendo cortes pontuais e consecutivos há mais de um ano.

Além disso também está tentando mudar suas relações contratuais com seu elenco, e isso tem causado certa tensão.

A Globo também de olho na sangria de processos trabalhistas que sofre de ex-funcionários descontentes.

A emissora propõe acabar com a "pejotização", prática que invadiu praticamente todas as suas áreas nas últimas décadas: jornalismo, esporte, entretenimento e até setores técnicos, cenografia etc.

O resultado foi o pior possível: algumas vezes uma pessoas é "pejotizada", mas depois que sai da empresa passa a cobrar direitos trabalhistas pela CLT. Não raro, a emissora perde e a verdade é que acaba pagando duas vezes pelo mesmo serviço.

Grupo SS

Na semana passada foi a vez de o SBT "chacoalhar" o mercado televisivo com uma grande demissão que se estendeu também a todo Grupo Silvio Santos.

Nas redes sociais, como já virou moda, os "especialistas" em assuntos aleatórios e as "cassandras espectrais" de plantão logo culparam e xingaram o dono do SBT, Silvio Santos, pelos cortes. Ou o chamaram de incompetente.

"Ué, puxa tanto o saco dos Bolsonaros e não tá entrando dinheiro do governo?" Não vi uma, mas inúmeras postagens assim.

Não custa repetir: Silvio Santos não bajula os Bolsonaros porque precisa de dinheiro. Bajula porque ele é assim mesmo com todos os últimos presidentes, e já falamos sobre isso em outro artigo aqui.

Nesse caso ele não tem culpa de nada. É um empresário de mídia afetado pela crise como qualquer outro. Amigo ou não do presidente.

As verbas publicitárias federais e estatais nunca chegaram nem sequer a 10% do faturamento do SBT e não serão elas que tirarão a emissora do mau momento atual. Fazem alguma falta? Sim, claro. Mas, vão segurar empregos? Salvar a pátria? De jeito nenhum.

Outros bolsonaristas mais desocupados usaram o corte do SBT para atacar a Globo. Afirmam que a emissora está à "beira da falência" e que, sem o importantíssimo dinheiro da publicidade federal, terá de demitir tanta gente até que feche.

Sugiro que esperem deitados. Se tiverem cama criogênica, melhor.

É até enfadonho ter de repetir —mas necessário— para essas pessoas iludidas e viscerais que, se nem o SBT depende entre a vida e a morte da publicidade federal, a Globo menos ainda.

Sim, a emissora carioca tem feito vários cortes de gastos, encerrou a era dos salários milionários (falávamos disso aqui já cinco anos atrás), mas está tão bem saneada que acaba de investir mais de US$ 40 milhões num complexo de estúdios que não deve nada a nenhum outro no mundo.

Não só vai agilizar sobremaneira a gravação de suas produções, como também vai render MUITO dinheiro extra sendo alugado para produções internacionais.

O lucro do Grupo Globo certamente vai diminuir nos próximos anos, mas isso é fruto de um investimento bem pensando e que mira as próximas décadas, e não o ano que vem.

A Globo continua líder de audiência e até mesmo na TV paga 30% dos aparelhos ligados passam o dia todo sintonizados nela. Mais de 50% de quem paga TV por assinatura só vê canais abertos, a propósito. A TV aberta ainda é MUITO forte no Brasil.

É também líder inconteste de audiência e público junto a um universo quase nunca lembrado, de cerca de 15 milhões de antenas parabólicas espalhadas pelos grotões do país.

Resumindo: a TV aberta, como um todo, não dá mostra alguma de que está morrendo, a despeito das profecias escabrosas, das pitonisas das novas mídias e dos oráculos de novas telas que estão surgindo nos últimos anos.

Desde a explosão da internet e das redes sociais, o total de aparelhos ligados mensurados pela Kantar Ibope continua ali na mesma faixa dos 45% na média dia. Em horário nobre, passam dos 60%.

Resumindo

Enfim, o que as TVs estão fazendo nada mais é que um necessário enxugamento de gastos e de quadros, de acordo com os novos tempos bicudos e digitais.

Uma boa parte da publicidade e do público está migrando ou se dividindo também com o mundo digital, e, aí, sim, as TVs precisam ficar atentas. Daí o interesse crescente de (quase) todas em tomar parte também no mundo do streaming, ou o chamado mundo "play".

Mas, a verdade é que pode vir Disney Plus, Amazon, Netflix Parte 2, tecnologia 5G, transmissão quântica, o que for, mas a TV aberta ainda tem um enorme poder junto à população, e esse poder ainda tem uns bons anos de fôlego pela frente.

Só para lembrar aos mais radicais e odiosos: nas últimas décadas muitos governos e projetos políticos megalomaníacos tomaram posse. Surgiram e passaram

A TV, a mídia, a verdadeira liberdade de expressão continua aqui.

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