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Análise: O governo federal também deve dinheiro à Globo

Presidente Jair Bolsonaro (PSL) durante live em suas redes sociais - Reprodução
Presidente Jair Bolsonaro (PSL) durante live em suas redes sociais Imagem: Reprodução
Ricardo Feltrin

Ricardo Feltrin é colunista do UOL desde 2004. Trabalhou por 21 anos no Grupo Folha, como repórter, editor e secretário de Redação, entre outros cargos.

Colunista do UOL

02/11/2019 05h45

Apesar da ameaça de Jair Bolsonaro sobre a possível não renovação da concessão da Globo, não é o Executivo que decide sobre isso. É o Congresso.

Uma eventual não renovação dependeria dos votos de dois terços da Câmara e do Senado, em votação nominal (206 e 33 votos nominais).

As ameaças acontecem ao mesmo tempo em que governo Bolsonaro reduziu em seu primeiro ano —e muito— a publicidade federal nas TVs abertas.

A propósito, o governo federal também deve às TVs abertas —inclusive à Globo.

Bolsonaro pode não saber, mas ainda está pagando a publicidade difundida no último ano do governo de Michel Temer. São dezenas de milhões de reais devidos às TVs abertas e outros veículos.

Vale o registro: Temer foi bastante dispendioso nos gastos para enaltecer seus últimos meses de governo.

Conforme o site "Notícias da TV" informou com exclusividade ontem, no ano passado a Globo faturou R$ 400 milhões em publicidade federal. Esse valor deverá cair para R$ 150 milhões em 2019. Mas, o governo não conseguiu ainda nem pagar o ano passado.

A despeito de tudo isso, ainda assim, a publicidade federal não representa nem sequer 5% do faturamento da TV Globo. Em nota enviada à coluna, a emissora disse não ter débitos fiscais com o governo federal, e que paga seus impostos em dia.

Além disso o corte de gastos, por Bolsonaro, está afetando muito mais seus "veículos aliados" Record, SBT e RedeTV.

Por fim, vale relembrar que a TV aberta (e a Globo) em geral já vinha obtendo receitas menores de publicidade desde os governos petistas.

Não são novas as represálias publicitárias à imprensa.

Se por um infeliz acaso os "grandes apoiadores midiáticos" de Bolsonaro hoje —a saber, Marcelo de Carvalho, RedeTV; bispo Macedo, Record; e Silvio Santos, SBT— estiverem com alguma esperança de que a torneira federal vai reabrir em troca desse apoio, sugiro jocosamente:

Retirem os filhotes de mamíferos perissodáctilos da condensação de vapor da atmosfera.

Sim, os cavalinhos terão de sair da chuva porque é evidente que a torneira vai seguir fechada, sem falar na natural migração de parte da publicidade —mundial, não só a de Bolsonaro— para meios digitais.

As TVs abertas que se reinventem.

Quer uma TV? Há 2.300 canais à disposição

Hoje o Brasil tem mais de 500 concessões de TV e quase 10 mil de rádio.

O Grupo Globo tem 5 emissoras próprias e 117 afiliadas que são propriedade de outros grupos e famílias.

Ainda há mais de 2.300 canais a serem explorados país adentro

No último dia 30 foi lançada ainda a Frente Parlamentar de Telecomunicações, com assinatura de 256 parlamentares.

Ou seja, além de tudo já exposto acima o Congresso agora tem um organismo para acompanhar os movimentos no setor televisivo. Inclusive os eventualmente autoritários do Executivo.

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