Topo

Coluna

Ricardo Feltrin


Gugu: Doação de órgãos foi seu último ato de generosidade

Patos de borracha que Gugu Liberato me presenteou nos últimos 20 anos - Arquivo Pessoal
Patos de borracha que Gugu Liberato me presenteou nos últimos 20 anos
Imagem: Arquivo Pessoal
Ricardo Feltrin

Ricardo Feltrin é colunista do UOL desde 2004. Trabalhou por 21 anos no Grupo Folha, como repórter, editor e secretário de Redação, entre outros cargos.

Colunista do UOL

23/11/2019 00h09Atualizada em 23/11/2019 08h44

Quem for atento e estiver acompanhando a repercussão da morte de Gugu Liberato nas redes sociais vai perceber que uma das palavras que mais aparece é "generosidade".

Amigos, conhecidos, colegas de trabalho, gente de dentro e fora da TV não param de usar essa palavra para descrever o apresentador que teve a morte declarada nesta sexta-feira (22).

Eu conheci Gugu 20 anos atrás e posso confirmar: poucas vezes na vida conheci alguém tão amável e generoso. Seja da TV ou não. Seu coração era enorme.

Gugu ajudou milhares de pessoas ao longo de seus 60 anos, especialmente depois que se tornou famoso e rico.

Conheci Gugu no final dos anos 90 na gravação do troféu Imprensa, quando ele foi eleito Melhor Apresentador. Concorria, se não me engano, com Xuxa e Faustão.

Naquele mesmo ano, pouco antes do Natal, recebi em casa uma enorme cesta de comidas e bebidas natalinas finas. Tinha sido enviada por ele.

Era uma cesta caríssima, hoje eu a avaliaria em mais de R$ 1.000. Pois bem, mas pelas regras éticas e comportamentais do Grupo Folha eu não podia aceitar aquele presente (o limite de valor para um mimo qualquer era de R$ 100).

Liguei para Esther Rocha, a eterna amiga e assessora de Gugu —e que se tornou uma grande amiga minha também— e expliquei, constrangido, que teria de devolver a cesta.

Esther ligou para Gugu e minutos depois me ligou de volta com uma sugestão dada por ele:

"Se você não pode aceitar a cesta, não aceite. Doe tudo."

Naquele ano Gugu, por meu intermédio, fez guardadores de carro, seguranças, porteiros de prédio, e vizinhos humildes ao meu redor terem um Natal inesquecível e farto.

Aquela cesta pareceu mesmo se multiplicar diante da surpresa e alegria a quem eu doava.

Gugu ajudava colegas de trabalho, gente de TV em dificuldades e também muitos estranhos. Tudo sem alarde. Colaborou sempre com entidades e campanhas sociais de forma discreta.

Também foi sempre um gerador de empregos, graças à GGP, sua produtora, que agora a família e o diretor e escudeiro Homero Salles terão o desafio de manter viva.

A última vez que vi Gugu pessoalmente foi no dia 19 de fevereiro deste ano, no salão Jassa. Assim me viu ele disse rindo: "Feltrin, como estão seus patos?"

Era essa frase que ele escreveu em todos os bilhetes que me mandou junto a incontáveis patinhos de borracha nos últimos 20 anos (alguns deles ilustram esta coluna).

Sempre que ia viajar para algum país, Gugu comprava um pato de borracha diferente e, na volta, mandava Esther me entregar. Junto, sempre o bilhete; "Feltrin, como estão seus patos?"

Quando vivo Gugu já havia deixado claro para toda a família que, o dia que morresse, queria doar seus órgãos.

Foi o último ato de uma vida verdadeiramente generosa.

Ricardo Feltrin no Twitter, Facebook e site Ooops

Ricardo Feltrin