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Ricardo Feltrin


Memória: Boechat agradeceu elogio ao "JB" em nome dos mais jovens

Ricardo Boechat -
Ricardo Boechat
Ricardo Feltrin

Ricardo Feltrin é colunista do UOL desde 2004. Trabalhou por 21 anos no Grupo Folha, como repórter, editor e secretário de Redação, entre outros cargos.

Colunista do UOL

11/02/2020 11h16

Resumo da notícia

  • Há exatamente um ano morria Ricardo Boechat, aos 66 anos
  • Em 2015 ele escreveu agradecendo um elogio desta coluna ao "JB"
  • A coluna elegera o "JB" como o melhor telejornal daquele ano
  • Boechat escreveu agradecendo em nome dos jovens repórteres da Band

Há exatamente um ano o Brasil perdia num trágico acidente de helicóptero (ainda sem resposta das autoridades) um de seus maiores comunicadores e jornalistas.

Ricardo Eugênio Boechat morreu aos 66 anos, quando voltava de um evento no interior de São Paulo. Além dele, o piloto do helicóptero, Ricardo Quatrucci, também morreu no acidente.

Para que a data não fique marcada somente pela tristeza, revelo hoje uma carinhosa troca de e-mails que mantive com Boechat em 2015. Apesar de curta, mostra muito do seu caráter e empatia com os colegas de trabalho.

No dia 21 de dezembro de 2015, publiquei no UOL uma análise na qual elegi o "Jornal da Band" como tendo sido o melhor do ano que terminava.

Elogiei o fato de a equipe do "Jornal da Band", apesar de ser menor que a da maioria dos concorrentes, era aguerrida, combativa e conseguia fazer a diferença com pautas exclusivas e, claro, com seu âncora tão talentoso e sui generis.

Na mesma noite qual não foi minha surpresa ao receber o seguinte e-mail agradecido de Boechat.

"Caro Feltrin,

Com quatro pontos no Ibope é difícil fazer sucesso. Consolamo-nos com nossas pequenas vitórias, daquelas que só podemos comemorar na consciência e na Redação, quando muito.

Por isso e muito mais, estamos transbordando de vaidade com sua crítica no UOL dedicada ao Jornal da Band.

Foi um inesperado e preciosíssimo presente de Natal.

Em nome de todos, mas, especialmente, dos mais jovens —que colheram em suas palavras um inédito reconhecimento profissional— quero agradecer a você do fundo de meu sexagenário coração. Forte abraço, Boechat."

Surpreso com a mensagem inesperada, tratei de responder. Disse que, embora não o conhecesse pessoalmente, ele era talvez uma das pessoas com quem eu passava mais tempo no dia a dia: por ouvi-lo diariamente no rádio e assisti-lo na TV.

Na resposta também aproveitei para fazer uma queixa sobre o excesso de intervalos comerciais que o "JB" tinha todas as noites. Era uma queixa comum não só minha, mas de muitos telespectadores e de meus leitores.

Também aproveitei para enviar um beijo para minha radialista preferida, então ainda na Bandnews (hoje na CBN), e que também se tornou, de certa forma, uma amiga diária:

"Sabe, xará, eu te ouço e assisto todos os dias. Pode não acreditar, mas passo mais tempo com você do que com qualquer amigo de carne e osso que eu tenha. E olha que eu não gosto de gente. Mas, vem cá, o "JB" precisa ter menos comerciais, hein?

Aproveito para mandar um beijo para sua parceira de rádio, Tatiana Vasconcellos, a jornalista mais talentosa e a voz mais gostosa do rádio brasileiro. Diga a ela que suas críticas de cinema fazem muita falta. Abração."

E Boechat mais uma vez respondeu bem-humorado:

"Meu velho, os espectadores me escrevem muito reclamando da massa comercial do "Jornal da Band". Dou-lhes razão, por escrito.

E apenas explico que audiências baixas, como a nossa, sofrem a punição adicional de não conseguir remuneração satisfatória por minuto vendido.

As agências de publicidade usam o Ibope como garrote vil, comprando mais espaço por menor preço.

Resultado: intervalos gigantescos, desproporcionais e broxantes em troca de valores que, ainda assim, ficam a léguas de distância daqueles, por mero exemplo, obtidos por nossa co-irmã global...

Tatiana manda um beijo. E eu, outro abraço."

É essa a lembrança que guardo do único e tão amável contato que tive com Ricardo Eugênio Boechat.

Ele faz e fará muita falta para sempre para os ouvintes, os telespectadores, o jornalismo e para o Brasil inteiro.

Ricardo Feltrin no Twitter, e site Ooops

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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