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Ricardo Feltrin


Análise: Volta de sorteios na TV pode ser tiro no pé de seus defensores

Amílcare Dallevo (à esq.) e Marcelo de Carvalho  - Imagem/AgNews
Amílcare Dallevo (à esq.) e Marcelo de Carvalho Imagem: Imagem/AgNews
Ricardo Feltrin

Ricardo Feltrin é colunista do UOL desde 2004. Trabalhou por 21 anos no Grupo Folha, como repórter, editor e secretário de Redação, entre outros cargos.

Colunista do UOL

26/02/2020 05h40

Resumo da notícia

  • TVs querem volta de sorteios proibidos pelo governo em 1998
  • Nos anos 90, disque 0900 foi uma mina de ouro na TV aberta
  • Só que volta de sorteios pode ser um tiro no pé das TVs interessadas
  • Por quê? Porque a Globo tem know-how e pode ser a maior beneficiada

Como a Folha publicou com exclusividade no último dia 17, o governo federal articula a volta dos velhos sorteios de prêmios pelas TVs abertas.

Os sorteios seriam feitos mediante "inscrições" via ligações telefônicas ou talvez mensagens pagas, e cuja arrecadação ficaria —na maioria— com as TVs, e parte com o próprio governo, pela coleta de impostos.

A articulação foi feita, segundo a "Folha", pelos dois donos da RedeTV e teria apoio do SBT, Record e Band.

Não custa relembrar que Amilcare Dallevo, presidente da RedeTV, foi originalmente na vida profissional um competente programador e um dos desenvolvedores dessa rentável tecnologia no início dos anos 90.

Era o tal 0900, proibido pelo governo no final daquela década por ser considerado lesivo aos consumidores.

Não foram só as TVs que ganharam uma fortuna. Empresas passaram a oferecer disque Tele Sexo, piadas, fofocas, receitas de bolo, dicas de relacionamento, previsão astrológica do dia. Tudo mediante pagamento.

Crianças faziam dezenas de ligações escondidas dos pais. As contas telefônicas iam às alturas. Procon e outras entidades de defesa da economia popular começaram a ser inundadas por queixas. e o governo foi forçado a acabar com a farra.

Farra que agora está prestes a retornar.

Mina de ouro

Enquanto existiu, o 0900 foi uma mina de ouro para seus criadores ao ponto de permitir a Dallevo e seu sócio, Marcelo de Carvalho, "comprarem" a concessão da TV Manchete. Ficaram —merecidamente, diga-se— podres de ricos.

A Globo tambem faturou horrores com ligações para seus programas, como o "Domingão do Faustão" e jogos de futebol, por exemplo.

Segundo a coluna apurou, o projeto já é dado praticamente como aprovado pelos interessados.

A previsão, segundo a "Folha", é que a RedeTV ampliaria suas receitas hoje em quase R$ 6 milhões anuais com a volta dos sorteios. O mesmo poderia ser arrecadado pela Band e Record com sorteios em horários de pico. É uma estimativa, claro.

Mas a pergunta que precisa ser feita é: isso vai salvar a TV aberta e, especificamente, esses canais da decadência e da fuga de telespectadores?

A resposta é um óbvio e maiúsculo NÃO.

Primeiro porque é evidente essas TVs não investirão um único centavo desse dinheiro na melhoria de sua programação, conteúdo ou mesmo em novas tecnologias.

Todos já ouvimos ladainha parecida cerca de três anos atrás, quando a joint-venture Simba (formada por Record, SBT e RedeTV) passou a cobrar as operadoras pela cessão de seu sinal digital.

Sim, a cobrança estava prevista na lei que antecipou o sistema digital no país, as operadoras foram resistentes, mas um dos argumentos que a gente mais ouvia dos interessados à época era que o dinheiro seria investido na melhoria da programação, novos programas, conteúdos etc.

Hoje essas três TVs faturam vários milhões de reais extras pagos pela Net Claro, Sky e Vivo, entre outras. Alguém viu por acaso alguma melhora na programação?

Então, em primeiro lugar, R$ 5 milhões, R$ 6 milhões ou R$ 7 milhões anuais não vão fazer grande diferença para nenhuma TV e muito menos para os seus já escassos telespectadores.

Tampouco vão tirar quase todas as emissoras da arapuca que caíram por sua própria incompetência e incapacidade de acompanhar os novos tempos e a concorrência da internet, da TV paga, e, mais recentemente, dos serviços de streaming (que também agora já estão engolindo a TV paga).

Em segundo lugar porque nenhuma nova lei ou autorização pode ser seletiva e beneficiar apenas os apoiadores (ou bajuladores) do atual —e temporário, lembrem-se— governo federal.

Esqueceram da Globo?

Então a Globo também vai ser beneficiada pela medida sem mexer um dedo; e poderá ganhar não uns milhõezinhos, mas dezenas deles anualmente.

Isso devido a vários e óbvios motivos já elencados nesta coluna ao longo dos anos: é a TV que tem os melhores profissionais, a gestão mais eficiente e —ora vejam!— o melhor know-how de tecnologia, inclusive essa dos sorteios.

Muito melhor, inclusive, que a de seu "pai", Dallevo.

Também está a anos-luz das demais em termos de novas mídias e produção de conteúdo. É a única que investe de forma responsável e planejada. Que controla gastos. Que comete menos erros. E nem por isso está a salvo da crise e da queda de audiência, como todos sabemos.

No entanto vamos repetir: a TV Globo tem sozinha mais ibope que todas as outras TVs abertas somadas.

Em outras palavras, em um único sorteio em seu horário nobre ou no Faustão, por exemplo, ela poderia gerar mais receita que meses ou anos das outras TVs empilhadas na insignificância de seus pontinhos de ibope.

Vejam outra coisa: o próprio SBT já faz uso hoje de receitas captadas por meio de sorteios no grupo Silvio Santos, como os da Tele Sena.

São muitos milhões de reais, e a emissora está longe de estar numa situação financeira confortável.

O que iria mudar na TV aberta com a volta do 0900? Para você, telespectador, nada. Para o bolso dos acionistas, aí sim.

Mas, no final das contas, a volta dos sorteios pode virar um tiro no pé de seus defensores. Incluindo o governo federal.

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