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Análise: Como o SBT levou um "chapéu" das TVs "aliadas" na Tele Sena

Tele Sena de Carnaval 2020 - Reprodução/YouTube
Tele Sena de Carnaval 2020 Imagem: Reprodução/YouTube
Ricardo Feltrin

Ricardo Feltrin é colunista do UOL desde 2004. Trabalhou por 21 anos no Grupo Folha, como repórter, editor e secretário de Redação, entre outros cargos.

Colunista do UOL

05/03/2020 07h56

Resumo da notícia

  • Fim da venda de Tele Sena e volta dos sorteios na TV estão relacionadas
  • Aliados do SBT, grosso modo, "puxaram o tapete" da emissora em Brasília
  • Para eles, SBT não poderia ter 2 fontes de receita oriundas de jogos
  • Tese é que governo não pode ajudar só Grupo SS em lotéricas
  • Só que 40% das vendas da Tele Sena são feitas em lotéricas hoje
  • Grupo SS estuda driblar proibição com venda de Tele Sena em apps

Aparentemente não houve nenhuma "coincidência" em o governo anunciar a proibição da venda de Tele Sena em lotéricas num dia e menos de 24 horas depois autorizar a volta dos sorteios nas TVs abertas.

Acontece que os dois assuntos estão interligados, disseram fontes ouvidas pela coluna nas últimas 24 horas. Elas pediram para manter anonimato.

Segundo elas, o acerto para o fim da venda da Tele Sena nas lotéricas foi decidido pelo governo, a Caixa Econômica Federal e os representantes da TV aberta na "calada da noite", durante a negociação da volta dos sorteios na TV.

O suposto motivo: os representantes da TV aberta (a quem o SBT apoiou, vale dizer) acharam que, com a Tele Sena e o Baú sendo vendidas em lotéricas, a TV de Silvio Santos teria duas fontes de renda diferentes provenientes, autorizadas e beneficiadas pelo governo: os títulos de capitalização e os sorteios.

Acreditam que isso seria "injusto" já que as demais TVs terão apenas uma: os sorteios.

Segundo a nova resolução, as TVs abertas podem voltar a fazer sorteios de prêmios em suas programações.

Até 1998 esses sorteios eram feitos mediante ligações telefônicas. Isso foi proibido devido a denúncias e constatações de que era prejudicial aos consumidores. Agora, serão feitos por meios digitais, como aplicativos.

Conforme o site "Notícias da TV" publicou ontem, desta vez não haverá o famigerado disque 0900. Os sorteios deverão ser feitos por "apps", mas sua finalidade continua sendo a mesma: arrecadar de dinheiro para as emissoras.

As TVs poderão oferecer serviços pagos (como games, fofocas, programas ou vídeos exclusivos, por exemplo) e só mediante essa assinatura é que o telespectador poderá concorrer aos ditos prêmios.

Hoje em dia muitas empresas já fazem sorteios de produtos (ou barras de ouro). A diferença é que a nova medida do governo permite às TVs também fazerem isso.

SBT perplexo

Nesta quarta-feira, executivos do SBT estavam ainda perplexos com a decisão da CEF.

Por ela, a partir de 1º de abril a venda de cartelas da Tele Sena e carnês do Baú não poderão mais ser comercializadas nas lotéricas (concessionárias da CEF).

Motivos para perplexidade e terror no SBT não faltam. A saber:

1 - A Tele Sena é hoje parte fundamental da entrada de receita publicitária no SBT. Estima-se que o Grupo SS seja responsável por algo em torno de 30% a 35% do faturamento publicitário anual da emissora; sim, você pode dizer que Silvio tira de um bolso e põe no outro, mas é assim que empresas —e empregos— são mantidos;

2 - As vendas em casas lotéricas representam cerca de 40% do movimento desses dois produtos do Grupo SS;

3 - A Tele Sena já vem sofrendo muito com a concorrência de bingos regionais, ora autorizados pelo governo a funcionar. Eles movimentam até R$ 1 milhão por semana. Parte dos consumidores acha que é mais fácil ganhar em um bingo regional do que na nacional Tele Sena;

4 - Mesmo com estrelas de grande apelo comercial anunciando a Tele Sena, ela ainda está abaixo da venda histórica e desejada nos últimos meses.

Tele Sena é legal

A Tele Sena já sofreu derrotas e vitórias na Justiça nos últimos anos, mas hoje é absolutamente legal.

Em 2000 o TRF da 3ª Região, em São Paulo, chegou a proibir a sua venda alegando que era um jogo disfarçado de título de capitalização. O Grupo SS, por meio da Liderança, recorreu.

Recorreu e venceu. Quatro anos depois, a terceira turma do STJ declarou que a Tele Sena era legal e manteve a autorização para sua venda no país.

No ano seguinte o mesmo Tribunal garantiu à Susep (Superintendência de Seguros Privados) a competência para autorizar sociedades privadas a emitir títulos de capitalização.

Parece nada, mas essa decisão acabou por "pacificar" a questão de a Tele Sena ser absolutamente legal, pois foi a Susep quem a havia autorizado.

Sabedores de tudo isso, os representantes das TVs que negociaram a volta dos sorteios —com aval do SBT, repito— defenderam que, se a Tele Sena é legal, ao menos não deveria ser beneficiada com sua venda nas milhares de lotéricas da CEF. Ou em outras palavras, do governo.

O argumento é que outras empresas, financeiras e bancos, por exemplo, também vendem títulos de capitalização e eles não são vendidos livremente em lotéricas. Então, por que beneficiar apenas o produto do Grupo Silvio Santos?

(nota: as TVs também poderiam ir à Susep pedir autorização para criar suas próprias "Tele Senas", mas aparentemente ninguém pensou nisso —ainda).

SBT reage

Uma das possibilidades já em estudo no Grupo SS, caso não consiga reverter a decisão da CEF, é passar a vender a Tele Sena também por meio de aplicativos.

Outra possibilidade é procurar fazer acordo com outros setores do comércio criar novos postos de venda.

Como esta coluna analisou dias atrás, a volta dos sorteios —seja qual for a ferramenta usada— pode se transformar em um tiro de grosso calibre no pé de seus defensores.

Isso porque a Globo também está autorizada a explorar esse nicho e é quem tem o melhor know-how e a maior audiência do país. Sem falar no quadro de funcionários.

Emissários e diretores do SBT estão em contato direto com Brasília desde segunda, tentando reverter a decisão da CEF.

Eles ainda têm mais 26 dias para fazer o governo mudar de opinião.

Ricardo Feltrin no Twitter, e site Ooops

Ricardo Feltrin