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Análise: Agora ministro, genro de Silvio não tem poder de salvar SBT

Deputado Fábio Faria (PSD-RN)                              - Luis Macedo/Câmara dos Deputados
Deputado Fábio Faria (PSD-RN) Imagem: Luis Macedo/Câmara dos Deputados
Ricardo Feltrin

Ricardo Feltrin é colunista do UOL desde 2004. Trabalhou por 21 anos no Grupo Folha, como repórter, editor e secretário de Redação, entre outros cargos.

Colunista do UOL

15/06/2020 17h46

Na semana passada o Brasil se surpreendeu com mais um "plot twist" do presidente da República, Jair Bolsonaro.

O candidato que em 2018 dizia que não negociaria com corruptos, que montaria uma equipe de governo técnica, por meritocracia, e que reduziria o número de ministérios ("são cabides de emprego") fez tudo ao contrário de uma tacada só.

Bolsonaro, 65, não só recriou um ministério, o das Comunicações, como o entregou a um expoente do chamado "centrão", um completo ignorante —no bom sentido— das telecomunicações brasileiras: o deputado federal Fábio Faria (PSD-RN), 42 anos.

A única experiência em comunicações que esse contumaz governista e ex-apoiador de Lula, Dilma, Temer e agora de Bolsonaro tem é o fato de ser casado com Patrícia, uma das filhas de Silvio Santos, herdeira e apresentadora do SBT.

Vá lá: sua família também tem algumas rádios, mas não consta que o deputado tenha se empenhado alguma vez em entender sua estrutura ou trabalhado nelas arduamente. Muito menos parece entender da estrutura das telecomunicações do país.

Mesmo assim foi escolhido para cuidar da pasta e de um orçamento de R$ 2,3 bilhões anuais, mais estatais e a Secretaria de Comunicação federal (Secom), entre outros itens.

Não salva

Vi muita gente comentando e analisando o possível impacto que tal nomeação poderia ter para o SBT e suas contas (e ibope) em decadência.

Fábio vai tirar o SBT dessa situação, li em algum lugar.

Agora o genro vai salvar o sogro, postaram em outro.

O governo vai bancar e tirar o SBT dessa situação atual, escreveu ainda outra viv´alma no Twitter.

Desculpem a prepotência de alguém que é jornalista há 30 anos, sendo que 20 deles na cobertura de TV.

Anotem: bobagem, tudo bobagem.

Fábio Salustino Mesquita de Faria pode ter o orçamento que quiser em suas mãos, mas o "Diário Oficial da União" e a fiscalização da imprensa a seus atos não lhe permitirão beneficiar a TV do sogro em detrimento, por exemplo, da "Globolixo" —como gostam de postar "cidadãos de bem" e "robôs" bolsonaristas nas redes sociais.

Se não havia, agora há um enorme olho fiscalizador nas contas publicitárias do governo , e na distribuição dessas verbas, chamado TCU (Tribunal de Contas da União)

Ainda mais depois que o governo começou a ser flagrado bancando sites e veículos disseminadores de ódio e fake news (no fundo, a mesma coisa). Essa moleza sem controle acabou.

Isso sem falar do onipresente e competente olho da imprensa nacional e de muitos funcionários públicos, promotores e procuradores com espírito realmente estadista, que não admitirão jamais serem governados por um Estado totalitário e manipulador.

Ainda tem jeito de burlar? Sim, mas isso é "dinheiro de pinga" no assunto que estamos tratando aqui, o SBT

Mas, vamos dizer que ainda assim o tal genro quisesse ajudar ao sogro e ao SBT.

Ele teria como ajudar?

Não, caros leitores e leitoras. Não tem como o senhor Fábio Faria ajudar ao SBT porque, em primeiro lugar, o SBT faz parte de um problema muito maior chamado Grupo Silvio Santos. Ele é só uma de suas muitas pontas.

Fico penalizado porque sei que milhares e milhares de famílias dependem das empresas de Silvio Santos para sobreviver. E todos que trabalham ou trabalharam lá têm a mesmíssima opinião: é um lugar maravilhoso, Silvio é um patrão fantástico e generoso.

Mas, a verdade é que poucos conglomerados econômicos no Brasil foram tão afetados e prejudicados pela pandemia de coronavírus como o Grupo SS.

Com o perdão do trocadilho com cosméticos, já não estava nenhuma beleza mesmo antes da pandemia.

Silvio já vem tendo problemas sérios há anos com a Jequiti (um ralo de dinheiro) e mais recentemente passou a ter também com a Liderança e sua Tele Sena.

Quem vai comprar e vender cosmético em meio a uma pandemia mortal? Quem vai se preocupar com isso quando empregos estão por um fio e os salários sumiram ou foram cortados?

No caso da Tele Sena, ela estava sendo prejudicada pelos chamados bingos regionais, ora autorizados a funcionar.

As premiações desses bingos são muitas vezes maiores que as da Tele Sena, e o número de concorrentes é muito menor.

O coronavírus deu um golpe extra no título de capitalização de Silvio: confinou os idosos dentro de suas casas e os deixou longe das lotéricas e postos de venda.

A receita da Tele Sena desabou. Ao ponto de a Liderança ter até adiado um de seus sorteios, como esta coluna publicou.

O problema SBT

Mas, além de tudo isso, ainda há o problema chamado SBT.

Como todas as TVs, aquela sediada às margens da rodovia Anhanguera também foi devastada pela queda repentina de receitas publicitárias, pela fuga de anunciantes padrão e daqueles de "merchandising" também, além da impossibilidade de gravar novas atrações.

Os custos, por outro lado, continuaram os mesmos.

Só que, mesmo antes de tudo isso, o SBT já estava em franca decadência não só financeira, mas principalmente de ibope.

Depois ter passado vários anos se gabando de uma vice-liderança decimal no país e na Grande São Paulo, a emissora começou a perder terreno para a Record.

Diga-se: perdeu muito mais do que a Record ganhou.

O SBT já tinha nos últimos tempos uma programação fraquíssima, um conteúdo pobre, sem falar no mexe-mexe da grade.

São novelas repetitivas e insossas, uma linha de shows estagnada —cuja única renovação nas últimas décadas foi o "The Noite" e o "Programa da Maisa"—, além de ultimamente ter poucos filmes interessantes.

Isso sem falar na custosa faixa diária das 10h às 15h, quando o SBT apresenta programação infantil e só perde dinheiro com ela. Zero faturamento (devido às restrições publicitárias direcionadas às crianças).

Aí ainda vem a pandemia e a emissora passou a exibir ainda mais reprises, e manteve seu jornalismo vergonhoso. Não tem como agradar mesmo.

Não, Fábio Faria pode ser não só ministro. Pode virar até presidente da República que mesmo assim não poderá salvar Silvio Santos da perigosa arapuca que o dono do SBT se deixou envolver. Ou melhor, que ele próprio criou.

Silvio parece pensar que comanda a TV como ocorria nos anos 90, onde tudo que fazia era genial e dava resultados.

Vamos falar a dolorosa verdade: o mundo mudou, mas o dono do SBT, não. Ele continua com a cabeça nos anos 90.

Perdeu aquele toque de Midas que encontrava novos programas e quadros bacanas nas feiras de conteúdo mundo afora (parou de viajar também, né?)

Perdeu o timing de fazer mudanças na programação nas horas certas.

Perdeu o poder de descobrir novos talentos que alavancariam o ibope de sua grade.

Perdeu o trem (bala) do século 21 e não embarcou a tempo na internet, nas novas mídias e no novo comportamento da população. Não investiu em tecnologia, em modernização, em streaming.

Dizem que Silvio Santos odeia tecnologia "pessoal". Que não gosta de internet. Que tem horror às redes sociais. Que não suporta digitar qualquer "comando" que seja.

Deve ser essa a explicação para o ponto em que sua emissora está. Silvio parou de olhar o mundo a sua volta.

Pouco ouve seus diretores. Delega funções que logo depois toma de volta. Autoriza e depois desautoriza. É ciclotímico, inquieto, temerário.

Genro ou ministro nenhum podem mudar isso. Só ele próprio.

Mas, quem disse que ele quer?

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Ricardo Feltrin