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Miele achava ingrata a definição "showman": "Pode parecer pretensiosa"

Felipe Pinheiro

Do UOL, em São Paulo

14/10/2015 14h24

Dançarino, ator, cantor, contador de piadas, mestre de cerimônias, apresentador, diretor, produtor... Os talentos de Luiz Carlos Miele eram múltiplos, e ele reconhece que, apesar de ser chamado de "showman", a definição "contador de histórias" era a que agradava mais – tanto que incorporou ao título de seu livro recém-lançado "Miele, o Contador de Histórias".

Em entrevista concedida ao UOL no final de agosto deste ano, ele resgatou memórias da carreira e comentou que sentia até certa pressão por causa do rótulo que a ele foi atribuído: "Vou cantar, dançar dentro dos meus limites. A palavra showman é muito ingrata porque é americana e parece pretensiosa. Eu não gosto de usá-la, mas a imprensa usa. Não existe outra definição e por isso usam ela. Às vezes tenho medo que possa parecer pretensiosa. O melhor que você pode fazer é chegar o mais perto possível da palavra, cumprir e dar um show", declarou.

Miele disse que a definição "contador de histórias" surgiu há cerca de um ano, quando foi fazer um show com Leny Andrade no interior de São Paulo. A definição o agradou tanto que resolveu usá-la em seu último livro.

"Nós chegamos e a imprensa falou, 'chega a Leninha cantora e o Miele, o grande contador de histórias da música popular brasileira'. Depois fui para Belo Horizonte e curiosamente a imprensa falou a mesma coisa. Daí eu gostei dessa abordagem quando o Lula Vieira, um grande editor de livros, me chamou para reeditar o livro 'Poeira de Estrelas'. Eu atualizei o livro com um novo nome", afirmou.

Ansioso para ser ver em contato com público em uma nova turnê de shows, que segundo ele passaria pela principais capitais do Brasil, Miele prometeu mostrar toda a sua versatilidade como artista. As apresentações tiveram início no dia 1º de outubro, no Rio de Janeiro. "Como já estou menos jovem vou me entregar todo, vou cantar em inglês, francês, italiano, japonês, alemão.... Vou fazer uma viagem pelo mundo do show business. E espero cumprir esse papel".

"De cabeça pra baixo"
Na mesma entrevista, o apresentador e produtor musical falou, dando risadas pelo telefone, que começou na profissão "de cabeça para baixo". "Comecei de cabeça para baixo, primeiro como assistente, diretor e depois fui para frente da câmera. Agora que fiz a primeira novela, 'Geração Brasil' [2014], vou tentar fazer 'Malhação' e depois o 'Sítio do Picapau Amarelo' (risos). Vou indo de cabeça pra baixo", brincou.

Miele, que trabalhou na rádio, se orgulhava por ter participado da inauguração da TV no Brasil. "A TV tem 65 anos e eu estou nela há 66 (risos). Eu estava na rádio Tupi quando chegou a televisão no Brasil. Lembro-me que um diretor falou, em uma das primeiras transmissões ao vivo, manda esse garoto parar de passar na frente da câmera. Eu era o garoto e passei na frente da câmera de calça curta. Daí alguém falou, 'a TV brasileira dá os primeiros passos'. E os primeiros passos da TV foram as minhas pernas", disse.

Ele, que dizia aceitar o rótulo de "showman" pela falta de um termo melhor, lembrou seu início nos palcos com a cantora Elis Regina. "A minha estreia no teatro foi com a Elis, em 1970. Eu era apenas diretor e ela queria fazer mais coisas no espetáculo, como poder trocar mais de roupa. Eu entrei para dividir o palco com ela e assim ela poderia ter mais tempo para fazer isso", afirmou.

Testemunha de tantas histórias dos universos da música e da televisão, Miele se esforçou em resumir algumas delas a pedido da reportagem. Ele disse que cada uma delas era muito grande para ser narrada, e que, em suas palavras renderia “um artigo” pela riqueza de detalhes. Em uma das lembrança, falou de um episódio curioso no qual se envolveu com a cantora Maysa e o compositor Ronaldo Bôscoli - este com quem produziu uma série de espetáculos musicais, para artistas como Elis Regina, Wilson Simonal e Sérgio Mende.

“A Maysa era a paixão do Ronaldo e estava brigada com ele. Ela iria para a Espanha e dizia que tinha medo de morrer sem ver o Ronaldo. Estávamos [Miele e o Ronaldo] no restaurante La Fiorentina, no Rio. Ela falou, pode pegar um táxi para São Paulo que eu acerto aqui. Era mentira dela. Ela queria se vingar do Ronaldo, que era noivo da Nara Leão. Fomos de táxi para São Paulo e ficamos procurando a Maysa lá. Ela sumiu e foi embora para a Espanha, deixando a gente lá. Tive que pegar dinheiro emprestado na TV Paulista”, contou.

Ele também relatou como intermediava a relação profissional entre Elis e Bôscoli, após a separação: "Dirigimos O Fino da Bossa e ela não falava com ele, só comigo. Era uma coisa estranhíssima porque ele fazia parte da produção do programa. Eu fazia meio que uma ponte".