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Abuso sofrido por Domingas "está em toda parte", diz atriz da novela

Reprodução/TV Globo
Domingas (Maeve Jinkings) chora após levar tapa na cara do marido Juca (Osvaldo Mil) em "A Regra do Jogo" Imagem: Reprodução/TV Globo

Natália Guaratto

Do UOL, em São Paulo

13/11/2015 13h31

Novela inspirada no cotidiano violento do Rio de Janeiro, "A Regra do Jogo" tem muitos vilões, mas poucos tão reais como Juca, personagem de Osvaldo Mil, homem que xinga, bate e abusa física e mentalmente da mulher com que é casado, Domingas (Maeve Jinkings).

Morador do Morro da Macaca, o casal vive em conflito constante na trama, despertando indignação na ficção e na realidade. Recentemente, Juca armou um teste de fidelidade para ver se Domingas teria coragem de traí-lo. Ao flagrá-la indo encontrar-se com um admirador secreto, ele a humilhou e a agrediu com um tapa na cara: “E essa boca pintada? Você está parecendo uma palhaça. Seu amante marcou e você veio que nem uma cadelinha. Não tem homem nenhum, fui eu, sua vadia”, diz Juca na cena.

Por trás da ingênua e sofrida Domingas está a brasiliense Maeve Jinkings, rosto já visto em filmes nacionais premiados como o “O Som Ao Redor” e “Amor, Plástico e Barulho”. Em entrevista ao UOL, a atriz afirma estar “impressionada” com os casos de violência a mulheres de que teve conhecimento desde o início da trama.

“O mais impressionante é que quando você começa a procurar [casos de relacionamentos abusivos], percebe que está em toda parte”, diz. Para se familiarizar com a situação de Domingas, Maeve entrevistou mulheres agredidas e foi a reuniões do MADA – Mulheres Que Amam Demais Anônimas. “Depoimentos de outras mulheres não param de chegar em mim, é como uma antena parabólica: vêm de todos os lados de todas as classes”, conta.

Feminista, Maeve diz que a oportunidade de retratar “a questão da opressão à mulher” foi decisiva para que ela aceitasse seu primeiro papel em uma novela.

“É poderoso poder mergulhar nesse tema num momento de catarse feminina, me faz sentir ainda mais mobilizada a fortalecer Domingas, e mais do que isso, de compreendê-la como um fenômeno social”, diz.

UOL – Apesar de estar há muito tempo em atividade no cinema e no teatro, você demorou a aceitar um papel na televisão. O que te moveu a interpretar a Domingas?
Maeve Jinkings - Eu tinha interesse em trabalhar com a dupla João Emanuel Carneiro e Amora Mautner experimentando a linguagem da telenovela, gênero no qual o Brasil é referência mundial. João e Amora assistiram alguns trabalhos meus no cinema e me convidaram a viver Domingas. A chance de tratar da questão da opressão à mulher foi algo que me moveu, sem dúvida alguma.

O que você descobriu ao entrevistar mulheres que sofreram violência doméstica para compor a personagem?
O mais impressionante é que quando você começa a procurar, percebe que está em toda parte. Não tinha ideia de como está próximo. Minha primeira entrevista foi com uma trabalhadora doméstica, ela viveu isso e acompanhei de perto todo o processo de libertação dela. Apesar de ser uma mulher forte, vivia uma relação que a aniquilava. A segunda entrevista foi com a vizinha de uma amiga minha, uma mulher de classe média, que ao me receber tinha ainda um olho roxo, uma entrevista muito comovente. Ambas independentes financeiramente. Depois delas os depoimentos de outras mulheres não param de chegar em mim, é como uma antena parabólica: vêm de todos os lados, de todas as classes. Além das entrevistas fui a reuniões de MADA, assisti a filmes e documentários, conversei com terapeutas, li poesia de mulheres, observei obras de artistas como Frida Kahlo, a forma como viam a si mesmas. Compreender o medo e os sonhos delas foi fundamental para viver Domingas. Assim pude adquirir fundamento para sua história, que é também o drama cotidiano de muitas pessoas. O mais impressionante é justamente a naturalização da violência psicológica e física, o que dificulta perceber que estão dentro de uma relação doente e sair disso.

É verdade que a atriz Cássia Kis te recomendou um livro sobre assédio moral que te ajudou na composição da personagem? Como essa leitura foi útil?
Cássia me recomendou o livro “Assédio Moral: A Violência Perversa no Cotidiano”, de Marie-France Hirigoyen, e acabei comprando também outro título da mesma autora: “Violência no Casal: Da Coação Psicológica à Agressão Física”. Esses livros foram fundamentais para minha pesquisa. Há diversos relatos, coisas que estão sempre muito submersas no interior das relações, mas que são reveladas no consultório. Eu ignorava a dinâmica perversa do assédio moral, que está presente em diversos tipos de relação humana, não apenas nos casais. E se você começa a ler, percebe que já viveu isso em algum grau. É importante dizer que a violência psicológica, o assédio moral, costuma ser apontada como a pior forma de violência, pois é invisível, difícil de ser detectado. Destrói uma pessoa sem derramar uma gota de sangue, sem deixar rastro.

As cenas em que a Domingas apanha ou é humilhada pelo Juca causam um grande mal-estar em quem assiste. Como são as gravações? Como é contracenar com o Osvaldo Mil?
No período de ensaios trocamos muita informação. Osvaldo Mil é antes de tudo uma pessoa generosa e muito afetuosa. É cuidadoso nas gravações e costuma vir me dar um abraço antes e depois das cenas mais densas.

Como é abordar o tema da violência contra mulheres em uma novela diária? O que as pessoas te dizem nas ruas?
Essa forma de entrar na vida privada do espectador é impressionante. Há uma identificação muito forte com o sofrimento de Domingas. Mais de uma mulher veio falar comigo e se comoveu. O curioso é que as mulheres dizem: “Mas você não é feia! Você é linda, viu?!”, os homens se oferecem para “dar um jeito no Juca”, mas ambos me aconselham a deixá-lo. Na rua ou no Instagram, a imobilidade de Domingas provoca uma indignação, mas ao mesmo tempo as pessoas parecem querer protegê-la.

Coincidentemente, a violência e o assédio contra as mulheres estão em discussão no Brasil. A redação do Enem abordou o tema, a votação do PL 5069 levou mulheres às ruas pelo direito de abortar, milhares de mulheres compartilharam na internet suas histórias de assédio sexual. Como esse momento se relaciona com você e com o seu trabalho atual?
É justamente porque vivemos num mundo hostil à mulher, numa sociedade machista, que essas mulheres fragilizadas existem em enorme quantidade. É poderoso poder mergulhar nesse tema num momento de catarse feminina, me faz sentir ainda mais mobilizada a fortalecer Domingas, e mais do que isso, de compreendê-la como um fenômeno social. Sou feminista e acho importante afirmar isso, pois me parece inevitável repensar o lugar da mulher em todas as esferas da vida. Quero ser tratada com respeito independente de meu gênero ou escolha sexual.

Já sofri assédio de homens, assim como minhas duas irmãs, minhas primas, minha mãe, tias, todas as amigas com quem já conversei a respeito. Em graus diferentes, me parece que toda mulher sofre isso. Na rua, dentro de casa, no trabalho. Não acredito que uma mulher brasileira passe a vida incólume. Só que a gente naturalizou, nem pensava a respeito porque afinal “é normal”, isolou cada assédio como um problema pessoal quando na verdade é um sintoma coletivo. Por isso é tão importante o que está havendo nesse momento, as mulheres querem colocar a boca no trombone. Pessoalmente já reagi das mais diversas formas, desde não saber como reagir e ficar confusa, até partir para o enfrentamento direto. E sempre que enfrentei, a reação dos homens foi de susto e imobilidade. Não estão habituados com isso.

“A Regra do Jogo” não é a primeira novela a retratar a violência doméstica. “Mulheres Apaixonadas”, “A Favorita” e “Fina Estampa” já fizeram isso antes. Você acha que incluir o tema em uma novela ajuda as mulheres a procurarem ajuda?
Acredito que a novela tem esse papel de colocar o tema na mesa, entende? Dar corpo a um assunto que estava ali meio de escanteio. A gente inevitavelmente passa a discutir mais o assunto, e debater o tema é um caminho para reflexão. Não tenho dados estatísticos, mas espero que a história de Domingas também sirva para outras mulheres buscarem algum tipo de ajuda, de perceberem que estão nesse lugar.

Na atual fase da trama, a Domingas ainda está completamente presa ao Juca. O que você quer que aconteça com ela? Torce para que denuncie o marido?
Torço muito para que ela encontre forças para se libertar do Juca, que saiba estar sozinha e perceba como isso pode ser fortalecedor. Se ela também encontrar um amor será lindo, desde que seja um homem que faça bem a ela. Estou impressionada com a reação positiva das pessoas ao possível romance com Iraque (Danilo Ferreira). Ao contrário do que pode parecer, Domingas não é fraca. Ela está fragilizada, o que é completamente diferente.

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