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Marília Pêra dominou teatro com técnica e fama de difícil nos bastidores

Miguel Arcanjo Prado

Colaboração para o UOL

05/12/2015 16h25

A notícia da morte de Marília Pêra aos 72 anos neste sábado (5) deixa o teatro brasileiro de luto. Apesar de conhecida do grande público pelos papéis marcantes na televisão e no cinema, foi nos palcos que ela começou e permaneceu toda sua vida, tanto à frente da cena quanto nos bastidores.

Sua primeira peça foi com apenas 19 dias de vida, emprestada por sua mãe a uma amiga atriz que precisava de um bebê em cena, como gostava de contar. Mas pisou no tablado por vontade própria com apenas quatro anos, já integrante da companhia de Henriette Morineau, Os Artistas Unidos, onde era colega de elenco dos próprios pais, os atores Manuel Pêra e Dinorah Marzullo. Pequenina, viajou o Brasil em turnês que marcaram sua vida, aprendendo o ofício artístico na prática diária do palco e da coxia.

No teatro, Marília Pêra foi diva absoluta até o fim, prezando por aliar sempre talento a uma técnica precisa, sem, com isso, despir de alma as personagens que interpretava. Marília fez de tudo nos palcos, sempre surpreendendo seu público com construções arrebatadoras de personagens. Fez teatro comercial e político, experimental e dramas clássicos. Jamais teve medo de inovar.

Assim foi em sua última peça, o musical "Alô Dolly!", em 2013, montado em sua homenagem pelo amigo Miguel Falabella, diretor e parceiro de cena que deixou que Marília brilhasse em cada aparição no palco. Ela era o centro da montagem, com vitalidade ímpar aos 70 anos e executando com maestria as coreografias criadas por Fernanda Chamma. Marília tinha mais fôlego que o jovem elenco com o qual contracenava.

Perseguida pela ditadura

Sua coragem também chamou a atenção do público e da crítica no fatídico ano de 1968, quando esteve no elenco do polêmico musical "Roda Viva", escrito por Chico Buarque e reinventado no palco pela genialidade de José Celso Martinez Corrêa, o Zé Celso, com o Teatro Oficina. O espetáculo foi perseguido ao ponto de ter atores espancados e presos, entre eles Marília, que chegou a ter sua casa invadida pelos militares à época da tenebrosa ditadura civil militar que atormentava o Brasil.

Por ter muita dedicação a tudo que fazia, Marília sempre foi muito exigente de seus atores, produtores e diretores. Não aceitava nada que não fosse o máximo, o que lhe deu fama de difícil nos bastidores do mundo artístico.

Mas ela sabia por que exigia tanto. Afinal, teve a sorte ao poder desfrutar do convívio íntimo com o talento dos grandes de seu tempo. Em 1962, por exemplo, integrou o coro do musical "Minha Querida Lady", protagonizado por Bibi Ferreira. No ano seguinte, em 1963, já vivia ninguém menos do que Carmen Miranda em "O Teu Cabelo Não Nega", personagem que lhe acompanharia por toda a carreira.

Com a instauração do regime de exceção no Brasil em 1964, logo Marília, destemida, se aliou ao teatro político. Foi assim que fez a "Ópera dos Três Vinténs", de Beltolt Brecht, produzida por Ruth Escobar e dirigida por José Renato, ainda em 1964. Em 1966, fez "Se Correr o Bicho Pega, Se Ficar o Bicho Come", de Oduvaldo Vianna Filho e Ferreira Gullar, com o Grupo Opinião. Mesmo perseguida, jamais abriu mão de sua opinião.

Presença nos palcos

Em 1969, é consagrada com todos os prêmios de melhor atriz, entre eles o APCT (atual APCA), Governador do Estado e Molière por sua atuação em "Fala Baixo Senão Eu Grito", de Leilah Assumpção. Mesmo cada vez mais famosa e requisitada pela TV, Marília não abandona o teatro. Muito pelo contrário, intensifica sua presença nos palcos, muitas vezes produzindo suas próprias peças.

Em 1973, ganhou novamente o Molière de melhor atriz por "Apareceu a Margarida", de Roberto Athayde, com direção de Aderbal Freire-Filho. Em 1976, voltava a arrebatar plateias com "Deus lhe Pague".

Em 1978 assume nova função, convidada pelos então jovens atores Miguel Falabella e Maria Padilha: dirige o infantil "A Menina e o Vento", de Maria Clara Machado. Nos anos 1980, mergulha nas comédias e passa a dirigir cada vez mais. É dela o comando da peça "O Mistério de Irma Vap", que estreou em 1986 e foi sucesso de público por 11 anos com atuação de Marco Nanini e Ney Latorraca.

Em 1989, ela criou polêmica com os colegas do teatro ao apoiar o candidato à Presidência Fernando Collor. Com a derrocada pública do político, alvo de impeachment em 1992, resolveu não mais falar de política.

Personalidade forte

Em 1996, viveu a diva Maria Callas na peça "Master Class". Em 1998, fez "Toda Nudez Será Castigada", de Nelson Rodrigues. No século 21, continuou requisitada. Fez sucessos como "Mademoiselle Chanel", em 2004, e "Gloriosa - A Vida de Florence Foster", em 2008, quando interpretava uma cantora desafinada que desconhecia sua inaptidão.

Dona de forte personalidade, Marília Pêra conseguiu dominar sua própria carreira, sempre optando pela liberdade para escolher as personagens que mais lhe interessassem. Enfrentou poderosos com suas recusas, jamais admitindo ser destratada ou rebaixada diante de sua trajetória. Afinal, Marília sabia que havia desenhado para si um caminho artístico único e inesquecível na arte dramática brasileira. Sabia a força que tinha. É por isso que, com sua partida, o teatro brasileiro fica mais fraco.