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"Me disfarço para ver se esqueço um pouco de mim", conta Nanini

Giselle de Almeida

Do UOL, no Rio

20/01/2016 07h00

Marco Nanini poderia até estar de férias. Mas ficar "sem fazer nada" estava fora de cogitação. Após 14 longos anos de convívio intenso com o Lineu de "A Grande Família", a quem chama de amigo, o ator agora estreita laços com Pancrácio, o otimista professor de filosofia de "Êta Mundo Bom" que lhe permite exercitar o que mais gosta: brincar de ser outros. Pela incapacidade de se sustentar na profissão, o personagem vira pedinte e vive se disfarçando - ora é freira, ora é corcunda, ora é uma dama da sociedade, ora é um ex-militar. Mais do que um meio de sobreviver, é a forma que o personagem encontra para dar oportunidade às pessoas de praticarem sua generosidade.

Aos 50 anos de carreira, o ator, de 67, redescobre com prazer o processo de fazer parte de uma novela - experiência que não vivia desde 1999, em "Andando nas Nuvens", depois de ter atuado em clássicos como "Carinhoso", "Gabriela" e "Brega & Chique". A empolgação com que fala do recomeço é a mesma com que menciona os frutos do Galpão Gamboa, um espaço cultural que mantém na zona portuária do Rio. Mas falar de si é um desafio para o intérprete, que cria diálogos até na hora de posar para uma simples sessão de fotos. Segundo Nanini, a realidade é chata, legal mesmo é olhar o mundo com a poesia que a fantasia permite.

UOL - Como é voltar para uma rotina de novela depois de tantos anos?

Marco Nanini - Pois é, no início fiquei meio temeroso porque a tecnologia mudou radicalmente. Tem recursos que eu nunca tinha visto. Em “A Grande Família” começou a entrar o HD, mas lá era uma produção pequena comparada a uma novela, como se fosse uma lancha e um transatlântico. Tive muita sorte, a série tinha um clima fabuloso de entrosamento, era pequenininho, a gente resolvia as coisas em petit comité. Aqui não, é enorme. Mas fui tão bem recebido, e o clima é tão bom... Gosto de sair de casa com alegria de vir trabalhar. Caí numa novela das seis, horário pelo qual tenho um carinho especial. Walcyr é um autor de muito talento, tem uma imaginação que é uma loucura. E o estilo é um novelão, não tem nenhuma pretensão de ser outra coisa. Estou me divertindo, como se tivesse entrado num mundo de fantasia diferente. Fui muito feliz com Lineu, que virou meu amigo para sempre, tenho uma saudade alegre. E caí no Pancrácio, que é uma criatura que tem um pé na loucura, isso é muito bom para a fantasia, dá uma licença poética muito bonitinha.

André Lobo/UOL
Além de ator, Nanini é produtor e mantém projetos sociais no Galpão Gamboa, no Rio Imagem: André Lobo/UOL

UOL - O Pancrácio usa esses disfarces porque não consegue sobreviver como professor. Se você não pudesse viver como ator, consegue se imaginar fazendo outra coisa? Teria um plano B?

Não tenho, mas eu ia buscar, não ia ficar parado. Outro dia vi uma reportagem de um economista que, por causa da crise, foi mandado embora e abriu uma empresa de comida  saudável. Isso também me interessaria, porque eu sou produtor. Eu tenho um trabalho na zona portuária, o Galpão Gamboa, em que fazemos muitos espetáculos e um programa social. Comecei a ocupar o espaço com aula de luta, um ateliê e uma sala de ensaio que é um teatrinho. Já teve judô, kickbox, muay thai... Olha a alegria que isso dá. Tinha um menino, o Vitinho, que era um mascote. Quando colocava todos os apetrechos do muay thai parecia um ET, porque era tudo muito grande. Nunca tinha feito aula. Passaram-se os anos, esse menino hoje é campeão, tem medalha, formado pelo Galpão. Isso é um prazer, sabe? Abrimos ioga para terceira idade. Falei: 'Isso não vai dar certo'.  A gente tem uma escada de milhões de degraus porque não conseguimos botar elevador ainda. A terceira idade em peso vai, são minhas amigas as senhorinhas. E aí abrimos uma oficina de teatro para terceira idade. É um sucesso. Isso aconteceu quando eu tinha 60 anos. Abriu um futuro para mim... Não importa quando eu morra, mas eu já sei que tenho um futuro que posso percorrer. A idade não me fez declinar, não me fez acomodar. Mas eu não gostaria de deixar de representar.

UOL - A novela tem uma mensagem muito positiva, com personagens ingênuos. Você acha que o público sente falta desse tipo de história hoje em dia?

Eu não sei exatamente se sente falta porque não sou um analista, mas quando você abre o jornal e lê notícias que diariamente põem você para baixo, é necessário alguma ilusão, principalmente no horário das seis. Acho que veio a calhar um pouco, para chamar a atenção para o lado bom, embora a novela tenha vilões. Mas não tem arrastão na novela. Vivi uma época maravilhosa, nos anos 60, que era da liberação sexual, dos protestos estudantis no mundo inteiro, não tinha esse preconceito que hoje está arraigado nem de gênero nem de raça nem de condição social. Hoje está muito difícil, em vez de gerar uma solidariedade geral, cria o preconceito, como se o mundo tivesse ficado muito cheio de gente e as pessoas tivessem que se reunir em guetos uns contra os outros. Acho que essa novela, tirando que pode ser chamada de escapista, porque hoje em dia tudo tem rótulo, vem num bom momento. Por que não pode ter uma novela assim? Por que não pode ter outra que mostra a realidade? Pode ter tudo.

UOL - Você nasceu no finalzinho dos anos 40, período retratado na novela. Tem alguma coisa da história que remeta à sua infância?

Pancrácio remete a essa época de muita fantasia. Ele é um cidadão que faz personagens, se transforma numa grávida aos 60 anos, falta um certo discernimento a ele, mas ele não se importa (risos). Acha que vai arrasar. Quando você é criança, você tem isso. Acho que o meu baú de energia vem dessas lembranças e eu tive também a sorte de novo de morar em Manaus na década de 50, que era uma cidade inusitada, no meio da selva. Quadrimotor não descia lá, viagem de bimotor do Santos Dumont até lá durava 13 horas, sem pressurização, todo mundo vomitando. Tinha a Maloca dos Barés, um barracão ao ar livre, onde se apresentavam vários artistas do circo, cantores de sucesso, atores de chanchada. Era paradisíaco, ficava à beira do Rio Negro, a lua refletia no rio, uma coisa linda. Também me remetem à infância a moda dos anos 40 e 50, que era muito sofisticada, e as chanchadas. A novela tem um pé nisso, através do Mazzaropi. É uma fábrica de energia reativar essas memórias e botá-las em cena quando consigo resgatá-las é um momento de prazer.

André Lobo/UOL
Além da novela, o ator planeja dois espetáculos para este ano Imagem: André Lobo/UOL

UOL - Em 2015 você completou 50 anos de carreira, mas a data vai ganhar algumas comemorações esse ano – livro, exposição, peças...

Eu não pensei nisso, outras pessoas que convidaram e agradeci, mas eu não perderia tempo. Não tenho jeito para organizar nada, só o papel que eu vou fazer. Se eu tiver que organizar uma ida daqui até ali não conta comigo, que eu só vou tumultuar (risos). Fico inventando, quero criar. No final do ano vou montar “Ubu Rei” em novembro aqui no Rio. Vou fazer um Beckett (Samuel Beckett, dramaturgo irlandês) também. A exposição é com meu sócio, Fernando Libonati, e quem está organizando o livro é o Gringo Cardia. Não queria que fosse um obituário, queria que fosse uma alegria para quem lê, entende? Mas não vou dar depoimento. Quando fiz o depoimento para o Museu da Imagem e do Som saí de lá estressadíssimo. Falar de você o tempo inteiro é um pouco chato... Já vivo comigo, já me olho no espelho, já me disfarço de outras pessoas para ver se esqueço um pouco de mim. Mas gosto de ter uma vida comum também, uma vida íntima. Gosto muito de ficar em casa, tenho cachorro, árvore frutífera, tenho muito amigo criança, filhos de quem trabalha comigo. Não sou pai. Tive oportunidade, mas não tenho o menor talento. Ia ser um sofrimento porque eu ia sufocar a criança. Agora eu faço mais o papel de avô. Elas enchem a casa de alegria. Faço almoço, elas vêm, me abraçam, mas se caírem na piscina, escorregarem, entro em pânico. Ainda bem que os pais estão perto. Eu me divirto com essas coisas e trabalhando. Mas não me chame para fazer conta. Não sei. Trabalhei num banco, não sei até hoje como, não fechava o balanço de jeito nenhum. Acho a realidade muito desinteressante. Eu gosto da realidade via fantasia, você entende a poesia. Mas ela nua e crua? Acho chatérrimo.

UOL - Que balanço você faz desses 50 anos? Fez tudo que queria ou ainda falta alguma coisa?

Nunca faltou nada, sou muito feliz com o que conseguia fazer. Foi um trabalho longo, não foi do dia para a noite que consegui alguma projeção, algum conhecimento. Fiz escola de teatro, tijolo por tijolo, tinha muita paciência. Nessa fase fica confortável porque, quanto mais você se envolve e se dedica ao trabalho, mais interessante é ter um retorno, senão fica uma coisa muito vazia. Estou satisfeito. E só penso em ter saúde para poder continuar criando, convivendo com a equipe, discutindo.

UOL - Durante a sessão de fotos você brincou dizendo que não queria que sua barriga aparecesse. Você é vaidoso?

Não passa disso. Muitas vezes é brincadeira minha. Mas eu prefiro evitar porque as pessoas são muito maldosas. Não tenho rede social porque eu ficaria louco, parei de ler comentários de sites, porque é tanta bobagem, tanta maldade, tanta ignorância...

André Lobo/UOL
Nanini diz que público ficou íntimo com "A Grande Família" Imagem: André Lobo/UOL

UOL - Mas envelhecer é uma questão para você?

Não pode ser porque é inevitável. Eu me divirto. As pessoas dizem: ‘Você se faz de mais velho do que é’. Faço mesmo, exijo uma atenção, digo que sou sexagenário (risos). Tenho medo do jeito que eu poderia morrer porque não gosto de sentir dor. Mas se tiver que sentir, tanto faz. Eu tenho que estar em atividade. Ano passado, depois de 14 anos em “A Grande Família”, pensei: “Preciso de umas férias grandes”. Mas no meio das férias já estava deprimido, chateado, porque não tinha o que fazer. Também não tenho traquejo social para ficar saindo, indo a festas. Já não lembro o nome de ninguém, confundo uma pessoa com a outra, sou muito distraído, faço gafes horríveis. Prefiro evitar. Quando tem um monte de gente que não conheço, cada um fazendo tipo, me dá um nervoso! Não tenho essa vaidade de aparecer.

UOL - E como é sua relação com o público? As pessoas te abordam na rua, te chamam de Lineu?

A maioria que me aborda é sempre com muito carinho. Um ou outro é mais agressivo ou “entrão” demais, principalmente com o Lineu, porque as pessoas se sentiam da família.  Vinham com uma intimidade que não batia, e eu ficava nervoso. Mas alguém me acode sempre, eu não saio sozinho. Chamam de Lineu, Seu Nenê, confundem. Ouço: “Oi, Décio  Piccinini”, “Oi, Fúlvio Stefanini” (risos). E agora tem máquina. Quando você diz não, ficam com ódio, começam a te xingar, ficam magoados. Mas eu criei uma disciplina. Num evento público, abertura da novela, claro, quem quiser pode tirar foto, faz parte. Quando faço algo pessoal, eu não tiro. Às vezes é algo preocupante, estou indo ao médico, por exemplo. Aí, como sou sexagenário posso processar (risos).

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