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Wyllys classifica fala de Benedito Ruy Barbosa de reacionária e homofóbica

Leo Franco/Agnews
Wyllys classifica fala de Ruy Barbosa de "reacionária e homofóbica" Imagem: Leo Franco/Agnews

Do UOL, em São Paulo

09/03/2016 18h12

O deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ) classificou as palavras do autor da Globo Benedito Ruy Barbosa de "deselegantes, reacionárias e homofóbicas" em um longo texto publicado em seu perfil no Facebook, na tarde desta quarta-feira (9).

Wyllys defendeu a liberdade de expressão, mas lamentou que "tenhamos que ouvir esses insultos e ofensas contra homossexuais" em pleno século 21. O deputado elogiou o talento do autor, citou sucessos de sua responsabilidade no passado, como "Terra Nostra" e "O Rei do Gado", mas ressaltou também a "ignorância e o preconceito" de Ruy Barbosa.

O longo desabafo do político e defensor dos direitos da comunidade LGBT é uma reação imediata às palavras do autor da Globo. Durante o lançamento de "Velho Chico", próxima novela das nove, Benedito Ruy Barbosa criticou tramas que contam "histórias de bichas" e rechaçou a ideia de transformar esse tipo de assunto "em aula para crianças".

"Pode existir, pode aceitar, mas não pode transformar isso em aula para as crianças. Tenho dez netos, quatro bisnetos e tenho um put* orgulho porque são tudo macho pra cacete", disse ele, em entrevista ao jornal "Extra". E prosseguiu. "Não sou contra, não acho errado. O que acho é que quando eu tenho na mão 80 milhões assistindo minha novela, tenho que ter responsabilidade com as pessoas que estão me assistindo. Tenho que saber que tem muito pai que não quer que o filho veja, porque eles não sabem, não sabem como colocar. Muita gente reclama disso pra mim. O que não é justo é você transformar um cara normal que é bicha, o que não é bicha não é normal. A mulher que é 'sapatona' é perfeita, a que não é 'sapatona' não é legal. É assim que estamos vivendo", completou.

Veja o desabafo de Wyllys na íntegra:

As declarações homofóbicas e deselegantes de Benedito Ruy Barbosa durante o lançamento de "Velho Chico" - nova novela das 21h da TV Globo - podem ser interpretadas como mais uma manifestação do embate entre o antigo e o novo: entre a velha ordem social, com seus preconceitos, hierarquias e opressões, defendida por conservadores e reacionários, e a nova ordem social que nasce da ampliação dos conhecimentos humanos e do repertório cultural, da mobilidade social, da paulatina inclusão de outros atores sociais e temas na esfera pública e da superação de velhas injustiças. Aliás, curiosamente, esse antigo embate é o mote da nova novela, que fará da transposição do Rio São Francisco palco para o confronto entre duas ordens político-econômicas e culturais e pano de fundo de uma história de amor e vingança entre famílias rivais no Nordeste brasileiro.

É uma pena que tenhamos que ouvir esses insultos e ofensas contra os homossexuais (parcela da sociedade que forma boa parte do público diário das telenovelas e que é responsável por mantê-las em evidência nas redes sociais) de um autor tão talentoso e que trouxe, para esse gênero da ficção (ainda que de maneira estereotipada e dentro dos limites impostos pela da indústria cultural), o chamado "Brasil profundo" e a herança cultural dos imigrantes europeus: os dramas, conflitos e modos de vida dos homens e mulheres do campo, do interior, enfim, do Brasil além do eixo Rio-São Paulo. Exemplos dessa contribuição não faltam: "Pantanal", "Renascer", "O Rei do Gado", "Esperança", "Terra Nostra" e etc. Suas novelas dialogaram sempre com uma literatura igualmente interessada nas histórias e pessoas que constituem a tradição cultural confrontada com a modernidade; não por acaso ele adaptou "Cabocla", romance de romance Ribeiro Couto, ainda no final dos anos 70.

É uma pena que, apesar dessa contribuição para a diversidade cultural na tevê, ele seja, no que diz respeito à sexualidade, tão ignorante e preconceituoso. Essa sua limitação constrangeu inclusive sua própria filha e seu próprio neto, que lhe pediram ponderação em público. Ironicamente, na vida como na novela, sua própria família encarna o embate entre as duas ordens (a velha e nova).

A fala de Benedito representa uma reação desmedida diante de conquistas ínfimas feitas pela população LGBT (A quantas novelas com protagonistas homossexuais vocês assistiram desde que a telenovela existe? Em qual novela o número de personagens homossexuais superava o de personagens heterossexuais?). Apesar do respeito por sua obra, não posso deixar de dizer o quão irresponsável é essa fala de Benedito Ruy Barbosa neste momento em que o fascismo avança e as reações às conquistas cidadãs se tornam violentas; na medida em que essa fala interpela e reforça os preconceitos anti-homossexuais e engrossa a cantilena diabólica dos que acusam a visibilidade, as representações positivas recém-conquistadas e a organização política de LGBTs de implantarem uma "ditadura gay".

Além de reacionária, a fala de Benedito é contraditória: embora expresse homofobia social explicitamente, ele se defende previamente do rótulo de homofóbico e preconceituoso, como se fossemos idiotas o suficiente para aceitarmos essa defesa; mascara seus preconceitos numa aparente preocupação com a formação das crianças (como se a homossexualidade representasse uma ameaça a elas), mas nada diz sobre os reais males cujas representações abundantes em suas novelas poderiam comprometer o futuro caráter de uma criança: assassinatos, traições, ciclos de vingança e etc.

Eu sou totalmente a favor da liberdade de expressão e acho que os ficcionistas têm o direito de - e devem - representar todos os aspectos da existência humana a seu modo. Porém, tenho igualmente o direito e o dever de criticar os ficcionistas quando estes não dialogam com o tempo em que vivem nem com as transformações culturais e usam o privilégio de terem uma tribuna para se colocarem contra os avanços civilizatórios e a construção de um mundo mais plural.

Não se trata de abrir mão da tradição, mas de colocar a tradição em diálogo com o novo. Benedito tem direito de defender o velho e de tratar o novo como uma ameaça; e eu, o dever de defender a renovação da vida e de mostrar o quão nocivo é seu pensamento, inclusive para seus netos e bisnetos. Pois o novo sempre vem!

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