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Como 'a mulher mais feia do Brasil' se tornou a inesquecível Dona Bela

Reprodução/TV Globo
Zezé Macedo como a Dona Bela, da "Escolinha do Professor Raimundo" Imagem: Reprodução/TV Globo

Guilherme Bryan

Colaboração para o UOL

2016-05-07T07:00:00

07/05/2016 07h00

"Ele só pensa naquiiiilo". Quem não se lembra do bordão de Dona Bela, a personagem pudica da "Escolinha do Professor Raimundo" imortalizada por Zezé Macedo nos anos 90 e homenageada por Betty Gofmann na nova versão do programa produzida pelo Canal Viva? Mas pensar só em Dona Bela é pouco para dar conta da carreira desta importante atriz, que teria feito cem anos nesta sexta-feira (6), estrelou uma centena de filmes e chegou a ser chamada por Oscarito de o "Carlitos (personagem de Charles Chaplin) de saia".

"Ela era a sua parceira predileta. Uma atriz maravilhosa e uma mulher vitoriosa, uma das primeiras, que tem um peso muito grande na nossa cultura", afirma Betty, que também interpretou a atriz, morta em outubro de 1999, na peça "A Vingança do Espelho: A história de Zezé Macedo", que retorna aos palcos no segundo semestre. "Ela está no imaginário popular, muito amada e querida até hoje. Você fala Zezé Macedo, as pessoas já abrem um sorriso."

O alívio cômico, reforçado pelo título de "a mulher mais feia do país" que carregou por toda a carreira, escondia uma "tristeza na alma, que só os grandes comediantes têm", segundo Flavio Marinho, autor do espetáculo e biógrafo de Zezé. "Ela tinha chanchada na veia, mas também tinha uma coisa chapliniana, meio patética, melancólica, solitária. Era muito mais do que a mulher feia da voz esganiçada, como era popularmente conhecida. Gostaria que a vissem como o gênio da comédia que ela era.”
 
Tragédia vira comédia

Nascida em Silva Jardim, no interior do Rio de Janeiro, Zezé Macedo, quando criança, chegou a subir no palco, mas não profissionalmente, e logo desistiu da ideia, pois se casou com o mecânico e eletricista Alcides Manhães, com quem se mudou para Niterói. Os dois tiveram um único filho, Hércules, morto com apenas um ano, de traumatismo craniano, depois de cair do colo da avó paterna. Ela deu um grito de pavor e tristeza, quando viu que o neném tinha morrido. Depois ficou um tempo sem conseguir falar e, quando a voz voltou, ficou esganiçada.

"O mais incrível é que ela transformou essa dor, com a qual conviveu pelo resto da vida a ponto de nunca mais querer ter filho, e usou essa voz, acentuando ainda mais o que já era fino, para fazer humor tragicômico. Ela extraía dessa dor o humor e fazia as pessoas rirem", analisa Betty Gofman.

Já separada, Zezé partiu para a capital fluminense e passou a exercer vários bicos como escriturária e funcionária pública, até se tornar secretária do novelista e diretor Dias Gomes e do ator Rodolfo Mayer na Rádio Tamoio. "Tinham as radionovelas e ela vivia pedindo para fazer um papel e um dia uma atriz não pôde se apresentar. Ele sabia que ela escrevia poesia e, então, a colocou para recitar um poema no rádio com aquela voz. As pessoas acharam muito engraçado. E, a partir daí, convidaram para trabalhar no rádio e no cinema", acrescenta Betty.

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Zezé Macedo e Oscarito em "O Homem do Sputnik", de 1959 Imagem: Divulgação


Primeira-dama da chanchada
O primeiro filme no qual Zezé Macedo atuou foi "Aviso aos Navegantes", dirigido por Watson Macedo em 1950 e estrelado por Oscarito e Grande Otelo. Numa das cenas, ela desenvolveu uma maneira de virar os olhos, que se tornou uma de suas marcas e a fez uma estrela do cinema brasileiro. Logo em seguida, vieram outras chanchadas, como "O Petróleo É Nosso” (1954), do mesmo Watson Macedo; e "De Vento em Popa" (1958) e "O Homem do Sputnik" (1959), os dois dirigidos por Carlos Manga.

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Zezé Macedo em "Os Monstros de Babaloo" (1971), de Elyseu Visconti Imagem: Divulgação
A chanchada marcou uma etapa importante da história do cinema brasileiro e Zezé Macedo foi um elemento importantíssimo para a consagração dela. "No momento em que o Brasil, país pré-capitalista, dá um salto desenvolvimentista, no pós-guerra, e que está aprendendo a fazer cinema, lidando com suas dificuldades e seus erros, há um ápice qualitativo, que é o que a chanchada representa", assegura Valdemar Valente Junior, especialista nesse movimento cinematográfico e doutor em Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). 

“Ela sempre foi uma coadjuvante prestigiada, mas em ‘O Homem do Sputnik’ ela fazia a mulher do Oscarito. Ou seja, ela era o principal papel feminino. E foi um grande êxito de público, visto por mais de 15 milhões de pessoas, o que era um espanto no Brasil de mais de cinquenta anos atrás", avalia Flavio Marinho. No filme, um satélite russo cai no galinheiro da casa da dupla que passa a ser perseguida pelos tipos mais estranhos e excêntricos.

"A Zezé Macedo é a cara do Brasil, assim como Oscarito, Grande Otelo, Zé Trindade, Ankito, Wilza Carla e Jorge Loredo, entre outros. Ela é fundamental para a história do cinema brasileiro. Uma pena é que nos esqueçamos um pouco desses grandes atores"
Valdemar Valente Junior (UFRJ)

Zezé seguiu fazendo filmes depois da fase da chanchada, aparecendo em clássicos como "Macunaíma" (1969), de Joaquim Pedro de Andrade; "Robin Hood, o Trapalhão da Floresta" (1974) e "O Casamento dos Trapalhões" (1988), ambos do quarteto Didi, Dedé, Mussum e Zacarias; e o "terrir" (mistura de terror com comédia) do cineasta Ivan Cardoso "As Sete Vampiras", que lhe rendeu o prêmio especial do júri no Festival de Gramado. Foi, inclusive, do mesmo diretor o último filme do qual participou, "O Escorpião Escarlate", de 1990, mais uma vez no papel de uma empregada doméstica.


Biscoito e Dona Bela
A televisão passou a fazer parte intensamente da vida de Zezé Macedo na década de 1970, quando ela iniciou uma parceria com Chico Anysio, que lhe rendeu seus dois personagens mais emblemáticos: Biscoito, a esposa feia e rica do bêbado Tavares, que aparecia no programa "Chico Anysio Show", de 1983 a 1985; e Dona Bela, uma aluna do Professor Raimundo que acreditava ser pornografia tudo que o mestre lhe perguntava, se jogava no chão e abria as pernas. A exposição diária era intensa e a consagrou como uma grande estrela.

"Fazer a Dona Bela, ao mesmo tempo em que era a vitória de quem conseguiu ser uma atriz conhecida e respeitada, também trazia várias dores, como a de sempre ser a feia, de dizerem que era a mulher mais feia do Brasil. Eu acho um pouco injusto. Ela perdeu um pouco o controle com a quantidade de plásticas, mas não era tão feia assim e era muito doce, sedutora, coquete. E, além disso, a dor de nunca ter feito um papel dramático, por causa da fisionomia e da voz. Mas acho que ela faria maravilhosamente bem, porque uma comediante desse quilate necessariamente é uma grande atriz dramática. Foi uma falha ninguém ter tido esse olhar para ela", reflete Betty.

Zezé Macedo passou seus últimos anos na companhia do marido, ator e cantor Victor Zambito, com quem se casou em 1961, e de vários gatos, que a rodeavam o tempo todo. Dizendo saber que não era nenhuma Yoná Magalhães (atriz que era considerada uma das mais bonitas da época), ela sofreu um derrame cerebral em 26 de agosto de 1999 e foi internada numa clínica no bairro de Botafogo, onde ficou 46 dias até vir a falecer em 9 de outubro, aos 83 anos.

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