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Irmãos Suplicy lembram de "TV Mulher" e bullying na escola

Marília Gabriela volta a comandar o "TV Mulher" no canal Viva - memória Globo /Reprodução /Montagem UOL - memória Globo /Reprodução /Montagem UOL
Marília Gabriela volta a comandar o "TV Mulher" no canal Viva
Imagem: memória Globo /Reprodução /Montagem UOL

Felipe Pinheiro

Do UOL, em São Paulo

14/05/2016 06h30

Por isso não provoque, é cor de rosa choque... não provoque, é cor de rosa choque". Assim cantava Rita Lee, convocando para o início de mais um "TV Mulher" nas manhãs da Globo entre os anos 1980-86. Quase trinta anos depois, o programa volta em nova versão, a partir do dia 31 de maio, pelo canal Viva.

Da música-tema ao conteúdo polêmico, o programa impactou, de formas diferentes, o público da época: Atraiu espectadoras, chocou uma parcela conservadora e, como pouca gente sabe, marcou a infância e adolescência dos irmãos Supla e João Suplicy.

Ancorado por Marília Gabriela, que retoma o projeto em sua nova roupagem, e Ney Gonçalves Dias, o antigo matutino era um eclético mosaico de temas (de entrevistas com artistas a prestação de serviço) e tinha Marta Suplicy falando de sexo na TV aberta. Hoje senadora pelo PMDB-SP, a parlamentar se tornou conhecida, antes da atuação na política, pelo quadro “Comportamento Sexual”.

Em dias esporádicos da semana e em momentos que não passavam de cinco minutos, Marta dava verdadeiras aulas de educação sexual, desmistificava tabus e sanava todo tipo de dúvida de telespectadoras que enviavam suas cartas ao programa. Procurava, ainda, abordar aquele que era tema de seu grande interesse: a condição da mulher, encorajando-a a ter uma vida plena e independente.

"Na escola, o padre veio me falar bobagem. Disse que minha mãe falava besteira na televisão. Mandei ele se recatar e ir para o lugar dele"
Supla

Distante do consultório televisivo, os filhos da sexóloga de linguagem acessível e objetiva, para quem não existia assunto delicado que não pudesse ser trabalhado, cresciam em meio a enorme repercussão que só um programa de televisão pode proporcionar. Supla passou praticamente toda sua adolescência (dos 14 aos 20 anos) com a mãe no ar. A lembrança mais forte, ele conta, foi de quando estava em sala de aula.

“Certa vez, no colégio em que eu estudava, um padre veio falar bobagem para mim. Eu mandei ele se recatar e ir para o lugar dele. Ele veio falar, ‘sua mãe está falando besteira na televisão, de sexo’. Eu falei, ‘não concordo, ela está falando coisas que são importantes, como ensinar a colocar camisinha’. Um padre falar isso na sala, e na frente de todo mundo... eu levantei e falei uma boa pra ele”, diz.

Marta Suplicy apresentava o quadro "Comportamento Sexual" no TV Mulher - Memória Globo - Memória Globo
Marta Suplicy apresentava o quadro "Comportamento Sexual" no TV Mulher
Imagem: Memória Globo
Depois da afronta, o menino que viraria o punk de cabelos espetados e cantor de “Japa Girl” explicou aos pais o que tinha acontecido. Decidiu-se que ele dexaria aquela escola: “Eu também não gostava mais de lá e fui para uma muito melhor. Fui para uma escola que fazia você pensar e não decorar, o que faz uma grande diferença”. 

Ela não sabe dizer exatamente quantos anos tinha no episódio do padre, mas apesar da pouca idade já mostrava, pela resposta que deu, ter consciência do trabalho social que a mãe fazia no “TV Mulher”.  “Era algo muito sério, não tinha nada a ver com sacanagem. Sacanagem é filme pornô. Ela fazia educação sexual, [falava sobre] doença como gonorreia, sífilis ou mesmo a proteção para se usar camisinha. Parece uma cosia simples, mas não era. E [falava] de prevenção, senão fica tendo filho igual coelho”, afirma.

Bullying na infância: “Teve até atrito físico”

Supla e João Suplicy tiveram a adolescência e infância marcadas pelo programa - Mastrangelo Reino/Folhapress - Mastrangelo Reino/Folhapress
Supla e João Suplicy tiveram a adolescência e infância marcadas pelo programa
Imagem: Mastrangelo Reino/Folhapress
Supla não se recorda de gozações dos colegas da turma. Segundo ele, “todo mundo era muito respeitoso” e nas ruas os comentários eram dos mais gentis. Mas, para seu irmão João, que estava na faixa dos 6 aos 12 anos anos, as brincadeiras dos coleguinhas eram de muito mal gosto.  “Coisa de criança”, ele afirma, mas que naquela fase não eram fáceis de aceitar.

“Às vezes me perturbavam um pouco na escola sepre tinha um pouco essa brincadeirinha. Aquela zozação de escola. Eu não achava legal aquilo e depois que passei a admirar bastante o trabalho que ela [Marta Suplicy] tinha feito. Uma vez até tive um atrito com um menino que ficou tirando sarro. Ele veio cantar aquela música da Rita Lee, que abria o programa, só para me provocar. Lembro que fiquei bravo e teve até um atrito físico”, declara.

Conversando sobre sexo... em casa?

“Na adolescência dei uma fuçada nos livros que ela tinha escrito, que citavam cartas e outras referências ao programa"
João Suplicy

Marta procurava tratar o assunto sexo em casa com a naturalidade parecida que tinha no programa, oferecendo abertura aos filhos (Supla, João e André), na puberdade, para que a procurassem se quisessem. O senador Suplicy, com quem ela foi casada de 1964 a 2001, agia de igual modo. Supla e João é que fugiam desse tipo de conversa. 

“Tem coisas que não fala muito com sua mãe e mais com seus amigos, mas sempre tinha esse canal aberto”, diz João. “Nunca gostei de falar e nem conversava muito com meu pai sobre isso. Ele dava essa abertura, lembro que uma vez disse: ‘qualquer coisa que quiser falar sobre sexo pode vir falar comigo’ [imitando a entonação do pai].  Nunca fui conversar. Você nunca quer conversar sobre sexo com seus pais”, garante Supla.

A senadora tinha uma produção literária na área, o que acabava gerando curiosidade nos filhos. Em
“Conversando Sobre Sexo”, um dos mais famosos, por exemplo, ela falava sobre virgindade, masturbação e anatomia sexual. Foi por um livro da mãe que João passou a entender melhor a importância do “TV Mulher”: “Quando cheguei na adolescência dei uma fuçada nos livros que ela tinha escrito, que citavam cartas e outras referências ao programa. Ela contava experiências [nos livros], também, do programa”.

“Lembro de um livro em casa que mostrava um cara que teve sífilis, e eu falava, ‘caraca!’. Lembro que foi um livro que me impressionou muito”, compartilha Supla.

"Ela dava opiniões para que a mulher passasse a se respeitar. Era muito além do que falar de sexo, minha mãe tinha uma postura feminista muito importante"
Supla

Novo “TV Mulher”: os mesmos e novos tabus
A notícia do novo “TV Mulher”, que terá a mesma apresentadora da década de 80, é recebida com entusiasmo pelos irmãos músicos. No lugar de Marta Suplicy, entra a psicanalista e escritora Regina Navarro, que tem um blog sobre relacionamentos afetivos no UOL.

“Não tenho os números para dizer se a população está bem ou mal informada sobre sexo, mas pelo [apresentador] Serginho Groisman você pode ver que tem muita coisa que não está bem informada (risos)”, avalia Supla referindo-se o quadro do “Altas Horas”, com a sexóloga Laura Muller, em que adolescentes tiram suas dúvidas.

Ele considera que falar de sexo na TV pode ainda ser relevante e sugere pautas relativas a problematizações atuais, como o preconceito enfrentado por transexuais ao redor do mundo. “Li rapidamente que na Carolina do Norte não querem fazer um banheiro só para trans. Acho que é importante conversar sobre tudo e quebrar os tabus”, observa.

E inspirado no “TV Mulher” original, dá um dica a ser seguida: “No quadro [da Marta Suplicy] ela dava opiniões para que a mulher passasse a se respeitar – dizendo, por exemplo, que não dependia dela dar prazer ao homem. Era muito além do que isso [falar de sexo], minha mãe tinha uma postura feminista muito importante”.
 

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