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Heroína em "Liberdade", Joaquina é "inverossímil", diz historiadora

Paulo Belote/TV Globo/Divulgação
Andreia Horta como Joaquina em "Liberdade, Liberdade" Imagem: Paulo Belote/TV Globo/Divulgação

Paulo Pacheco

Do UOL, em São Paulo

04/08/2016 13h29

Protagonista de "Liberdade, Liberdade", que termina nesta quinta (4), Joaquina (Andreia Horta) chamou a atenção do público por ser uma mulher "à frente de seu tempo", como descreveu o autor da novela, Mario Teixeira, antes da estreia na Globo. Como uma "justiceira", a filha de Tiradentes defendeu minorias, direitos humanos e justiça social, além de ser alfabetizada e leitora de obras iluministas, raridade entre as mulheres no Brasil no início do século 19.

Para historiadores, entretanto, Joaquina avançou demais. Mestre em História Social pela USP (Universidade de São Paulo) e especialista em Brasil Colônia, Márcia Pinna Raspanti explica que o discurso da filha do alferes transformado em mártir é inverossímil com o período e a sociedade da época, mesma opinião de outros dois historiadores procurados pelo UOL que não quiseram dar entrevista.

"Ele [o autor de 'Liberdade, Liberdade] criou Joaquina muito influenciado pelos ideais de hoje, e não propriamente como uma personagem histórica. É uma heroína de novela. No início do século 19, já havia vozes críticas à escravidão, mas o discurso que faz alusão aos direitos humanos é um tanto inverossímil, mesmo para alguém influenciado pelos ideais iluministas", argumenta a historiadora, que escreve no blog História Hoje.

Segundo Márcia Pinna, no período retratado em "Liberdade, Liberdade" havia mulheres independentes e chefes de família, viúvas ou abandonadas pelos maridos, à frente de negócios e fazendas. O engajamento político e o embrião do feminismo no Brasil, porém, só começaria a ganhar força após a Independência.

"Muitas das ideias a que a novela faz alusão já poderiam circular no Brasil de então, em alguns grupos bastante restritos, sem dúvida, mas o que soa um tanto artificial aos meus ouvidos é o discurso dos personagens, mais próximo do nosso, no século 21, do que de nossos antepassados, no século 19", opina a especialista.

Reprodução/TV Globo
Joaquina (Andreia Horta) invade Vila Rica armada em "Liberdade, Liberdade" Imagem: Reprodução/TV Globo

Joaquina é ficcional, diz novelista

Autor de "Liberdade, Liberdade", Mario Teixeira concorda que a Joaquina da novela é, de fato, uma personagem de ficção, adaptada do livro "Joaquina, filha do Tiradentes" (1987), de Maria José de Queiroz. A figura da "heroína" foi construída para a novela pela ausência de fatos históricos sobre a filha de Tiradentes (até sua existência é contestada por historiadores).

"A personagem Joaquina na história de 'Liberdade, Liberdade' é ficcional. Há pouquíssimas referências sobre a Joaquina real, só uma menção a ela nos autos da devassa, que são os relatórios oficiais sobre a Inconfidência. Por isso a minha criação é tão livre. A ideia de falar sobre Joaquina partiu do argumento da Marcia Prates. A partir dele, desenvolvi uma história sobre a volta de uma menina cujo pai, Tiradentes, foi considerado um traidor. Joaquina traz dentro de si essa carga dramática", justifica.

O novelista ressalta que pesquisou o contexto histórico do Brasil entre a Inconfidência Mineira e a Independência para não tornar a herdeira de Tiradentes uma mulher anacrônica e "inverossímil", como criticaram os especialistas.

"Ela volta de Portugal para uma terra que é dela, mas que condenou seu pai à morte e de uma forma trágica, a forca. Tanto eu quanto a produção da novela fizemos uma extensa pesquisa para entender um pouco mais sobre aquela época, final de século 18 e início de século 19. Esta é uma obra ficcional e estamos dando nosso olhar a essa história que estou criando, que tem base em fatos históricos, mas é criada livremente", afirma.

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