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Série traz Jude Law como papa contraditório e politicamente incorreto

Bruno Ghetti

Colaboração para o UOL, de Veneza (Itália)

03/09/2016 13h40

Imagine que o novo papa fosse norte-americano, jovem e bonitão. Que em sua primeira aparição pública, gesticulasse como Mussolini, mas defendesse o aborto, a masturbação, o casamento gay e o sexo por prazer. Pois é algo assim que aparece logo em uma das primeiras cenas da série televisiva “The Young Pope” [o jovem papa], cujos dois primeiros episódios tiveram première mundial na manhã deste sábado (3), no Festival de Veneza (assista ao trailer abaixo).

Agora imagine a primeira homilia de um papa soturno, que dá bronca nos fiéis, recusa-se a ter o rosto fotografado e que prega servidão total a Deus. Pois a cena também está na série. O primeiro discurso, logo descobrimos, era apenas um sonho - mas poderia facilmente ter acontecido na realidade. é que o papa liberal e expansivo da primeira cena coexiste com o severo e radical da segunda; são aspectos da mesma personalidade contraditória, oscilante, atormentada de Lenny Belardo – ou Pio 13, pontífice fictício vivido por Jude Law na série da HBO.

O personagem foi criado pela mente sempre inventiva e controversa do cineasta italiano Paolo Sorrentino (vencedor do Oscar de filme em língua estrangeira por “A Grande Beleza”), que também dirige a atração. Lenny chega ao pontificado como parte da estratégia de grupos clericais que pretendiam utilizar um papa jovem e desconhecido como fantoche para suas decisões nos bastidores. Mas o jovem escolhido é tudo, menos manipulável. Ao contrário: é de uma esperteza assombrosa.

E tem o comportamento que menos se esperaria de um líder religioso. Fuma muito, desrespeita regras seculares do Vaticano e, em certo momento, não se mostra convicto da própria crença em Deus. Mas ele acredita – ou melhor: sabe – que informação é poder, e por isso procura conhecer tudo sobre seus oponentes para poder jogar de igual para igual na alta esfera vaticana.

Muito aplaudido pela imprensa (majoritariamente italiana), Sorrentino falou aos jornalistas sobre a produção. Foi logo indagado se acha que a Igreja Católica vai receber mal a série. “Isso é um problema do Vaticano”, respondeu o diretor. “Na verdade, não é um ‘problema’: se eles assistirem até o fim verão que não há vontade nenhuma de mostrar intolerância [à Igreja], mas apenas de investigar as contradições e dificuldades por que passam padres, freiras... E o próprio Papa”.

Nos primeiros capítulos, o Pio 13 de Law avança e recua em vários comportamentos; não dá para saber se, com a progressão da série, fará um papado reacionário ou progressista. Sorrentino não quis antecipar qual vertente o personagem deve seguir.

Disse que a ideia de seu papa não largar o cigarro veio quando soube que o antigo, Bento 16, fumava muito. Mas evita comparações com pontífices verdadeiros. “Nosso papa é diferente do atual [Francisco]. Mas é um papa realista – é bem possível que, um dia, algum homem como ele chegue ao topo da Igreja Católica”, disse.

Gianni Fiorito/Divulgação
Jude Law interpreta Lenny Belardo, o papa Pio 13, na série "The Young Pope" Imagem: Gianni Fiorito/Divulgação

Jude Law, também em Veneza, afirmou que teve dificuldades para encontrar o tom do personagem. “Não sabia que tipo de trabalho fazer para dar verossimilhança a um papel como este. Eu procurei vê-lo sobretudo como um homem, que também é papa. Depois que o vi como uma pessoa, suas relações com os outros, o personagem foi surgindo. Só ali que o papa apareceu”, disse Law.

O Pio 13 do mundo de Sorrentino é sobretudo um homem sábio. A uma cozinheira que, logo que é apresentada a ele lhe chama de “queridinho”, ele faz uma dura reprimenda, explicando em seguida: “As relações amigáveis são sempre perigosas. Já as formais são claras como água”. O papa da série também é um mestre do marketing pessoal. Opta (ao menos nos dois primeiros episódios) por tornar sua personalidade o menos conhecida possível, tanto dos fieis como dos próprios colegas de Vaticano.

“Acho que todos que têm um papel público vivem esse dilema entre quem são de fato e quem têm de ser em público”, disse Law. “Eu estava curioso para saber das estratégias que Lenny elaborou ao longo dos anos para selecionar quem pôde ou não se aproximar dele. É um homem honesto, goste-se ou não do que ele faz. Mesmo que ele diga alguma coisa e depois faça outra”.

Os espectadores que gostam do estilo de Paolo Sorrentino  não vão se decepcionar. A série é Sorrentino fazendo “sorrentinices” a cada cena – ou seja: é abarrotada de ideias visuais ousadas, barrocas, naquela mesma linha de estilização de “A Grande Beleza”. Já os que não apreciam o italiano – e não são poucos que acham que suas obras são uma cópia, talvez deturpação, do cinema alegórico do conterrâneo Federico Fellini – possivelmente vão desprezar a série também.

De qualquer modo, é inegavelmente um produto inventivo, promissor. É cerebral demais para quem busca apenas entretenimento, mas os que gostam de observações inteligentes sobre jogos de poder vão encontrar bastante com o que se deleitar. Claro, há também muito simbolismo inconsequente (vazio?), mas, a esta altura, o espectador acostumado com a obra de Sorrentino já sabe que isso deve aparecer em alguns instantes. O próprio cineasta, aliás, interrompeu uma jornalista que tentava ver mais “significados” do que deveria em uma determinada cena. “Você não deveria leva-la tão a sério”, disse.

Em Veneza, os dois primeiros episódios foram condensados em um único produto, como se fosse um longa-metragem. Além da excelente atuação de Law, trazem ótimos momentos de James Cromwell, Silvio Orlando e Cécile de France, além da veterana Diane Keaton, que interpreta a freira responsável pela formação religiosa de Pio 13. A série terá dez episódios e, por ora, tem estreia garantida em cinco países (Reino Unido, Alemanha, Irlanda, Áustria e França), em outubro. No Brasil, por enquanto, ainda não está confirmada.

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