TV e Famosos

Roni Rios, que faria 80 anos, queria ser mais do que a Velha Surda

Guilherme Bryan

Colaboração para o UOL

09/09/2016 15h39

“Apolôôôônio!”. Esse era o grito que se escutava semanalmente, nos anos 1980, no programa “A Praça é Nossa”, dado por um dos personagens mais marcantes dos humorísticos da televisão brasileira. Tanto que, em abril, a equipe do programa “Tá no Ar” tratou de homenagear a Velha Surda, que provocava gargalhadas ao entender tudo errado o que as pessoas diziam, a ponto de levá-las a irritação.

Nessa ocasião, o ator Marcius Melhem teve a oportunidade de interpretar por uma vez a senhora Bizantina Scatamáfia Pinto, a famosa criação do humorista Roni Rios, cujo nome de batismo era Ronald Leite Rios e que nesta sexta-feira, 9 de setembro, completaria 80 anos, caso não tivesse falecido em São Paulo, em 16 de maio de 2001, aos 64 anos, vítima de um câncer linfático. 

"Foi uma surpresa para mim e me tocou muito as homenagens que fizeram a ele neste ano, caso do programa do Marcelo Adnet e do ‘Vídeo Show’. Então teve uma chuva de lembranças a respeito dele que me deixou extremamente contente, porque era algo que eu sentia falta, pois ele fazia um personagem que representa um programa que está há tantos anos no ar e que o Carlos Alberto (da Nóbrega) faz com tanto amor”, festeja o filho Cassiano Rios. 

A Velha Surda surgiu em 1956, no programa “Praça da Alegria”, comandado por Manoel da Nóbrega nas TVs Rio, Tupi e Record. Na década seguinte, ele foi para a TV Globo, onde participou dos humorísticos “Balança Mas Não Cai”, “Deu a Louca no Show” e “Apertura”, e permaneceu até 1981, quando foi contratado pela TVS (atual SBT), atuando no “Reabertura”, remontagem de “Apertura”. Em 1987, nova mudança, com uma rápida passagem pela “Praça Brasil”, da TV Bandeirantes, até voltar para o SBT, encontrando seu lugar no banco de “A Praça é Nossa”, apresentado pelo filho de Manoel, Carlos Alberto, onde esteve por 14 anos.

Porém, o que pouca gente sabe é que Roni Rios possuía vários outros personagens e lamentava o fato de ter ficado muito estigmatizado como a Velha Surda. “Ele comentava isso sim, mas era muito mais pela quantidade de comentários a respeito da Velha do que de não lembrarem dos outros personagens. Com o passar do tempo, as pessoas foram conhecendo os outros personagens também e não era nada que atrapalhava o dia a dia dele. Era apenas um comentário”, assegura Cassiano. Entre as criações dele, estavam Philadelpho, um velho gagá que dava em cima das mulheres, e Seu Explicadinho, cujo bordão era “nos mínimos detalhes”.

Divulgação/SBT
Carlos Alberto Nóbrega com a Velha Surda e Elke Maravilha na "A Praça É Nossa" Imagem: Divulgação/SBT

Carlos Alberto da Nóbrega tem outra versão: “Ele não gostava de fazer os personagens porque as pessoas nas ruas não o reconheciam. A gente saía para fazer show e ninguém sabia quem ele era, pois entrava de velha ou de velho, bem caricato. E ele era uma pessoa bonita e jovem. Então eu falei para ele uma vez: ‘Ainda bem que o Charles Chaplin não pensa igual a você’. O Carlitos até hoje é o Carlitos”.

“Ele era uma pessoa muito séria, profissional e que assustava, no bom sentido, as pessoas que o conheciam e que esperavam encontrar o que viam pela televisão, através dos personagens, mas era muito bem-humorado, educado e uma pessoa muito boa de se conviver”, garante Carlos Alberto. Mas o apresentador não sabe dizer qual era o segredo de Roni Rios para tornar a Velha Surda um grande sucesso. “É algo que não tem explicação, porque até hoje, quando você fala com qualquer pessoa sobre ‘Praça da Alegria’ ou ‘A Praça é Nossa’, o primeiro quadro que diz que mais gosta é o da Velha Surda. É impressionante. Depois é que vem (Ronald) Golias e Vera Verão”, complementa.

Carlos Alberto também garante que, da parte dele, nunca ninguém fará o personagem da Velha Surda: “Alguns artistas e personagens são insubstituíveis. Eu tenho o lado sentimental muito maior do que o lado profissional. Então acho que a Velha Surda era do Roni e não quero mostrar outro personagem que não fosse o original”. Ele acaba assim com a especulação que chegou a ser feita, em 2014, de que o ator Ronaldo Ciambroni interpretaria a personagem.

Médico veterinário

Roni Rios era apaixonado pelos bovinos de leite e atuava como médico veterinário, profissão que Cassiano herdou, e chegou a ser presidente do Sindicato dos Médicos Veterinários de São Paulo. “A briga dele no sindicato sempre foi em relação ao reconhecimento do médico veterinário como médico de saúde completo, que não cuida só de animais, mas da saúde humana inclusive. Toda alimentação de origem animal deve ter um veterinário. E também pela parte salarial, no sentido do quanto o veterinário tem que receber pela responsabilidade técnica”, garante Cassiano.

Segundo o filho, não havia grandes dificuldades em conciliar as duas atividades. Em geral, ele recebia o texto de “A Praça é Nossa” na sexta-feira, passava o final de semana estudando e na segunda ia para a gravação. Aí ele tinha terça, quarta e quinta para se dedicar à carreira de veterinário. Apesar de o filho garantir nunca ter ouvido algum comentário a respeito, várias publicações noticiaram que ele desejava unir as duas profissões, apresentando um programa rural em alguma emissora do interior do estado, sonho que, infelizmente, não concretizou. 

“Durante os atendimentos, ele sempre foi muito reservado com relação ao trabalho na televisão. Tinha clientes que nem sabiam que ele tinha esse lado”, conta Cassiano. A mesma reserva, Roni Rios possuía na vida particular, com o filho e a esposa, Omara Losangeles Masson Rios. “Meu pai era uma pessoa muito séria em casa, gostava pouco de sair. Era um cara bem tranquilo, mas, quando ele conhecia as pessoas que estavam em volta dele, começava a se soltar. Sempre tinha uma piadinha na ponta da língua”.

Em 2000, ele também foi diretor do Sindicato dos Artistas. “O que não falta para o meu pai, graças a Deus e eu espero que ele saiba disso, é o reconhecimento pelas duas profissões dele, tanto pela televisão como veterinário, e é isso que me deixa contente. Então o que eu mais quero é que as pessoas se lembrem dele como uma pessoa que amava o que fazia com muita dedicação e prazer”, comemora Cassiano.

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