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O rio depois de Velho Chico: novela turbina turismo e preocupação ambiental

Reprodução/TV Globo
Questões ambientais foram abordadas por personagens de "Velho Chico" Imagem: Reprodução/TV Globo

Mateus Araújo

Colaboração para o UOL

29/09/2016 13h31

Durante os meses em que esteve no ar, a novela "Velho Chico" levou o brasileiro a viajar pelas histórias, culturas e lendas que habitam o rio que nasce em Minas Gerais e corta Pernambuco, Bahia, Alagoas e Sergipe até chegar ao mar. Os encantos do rio despertaram a curiosidade de novos turistas e as questões ambientais, como a preocupação com o manejo da terra na região, também ganharam força fora das telas.

“A novela foi uma excelente surpresa para todos nós que cuidamos do São Francisco, a começar pelo nome carinhoso do rio usado no título. Ela deixa uma mensagem importante para os brasileiros: o rio precisa do cuidado de todos nós agora ou será tarde no futuro”, diz Maciel Oliveira, vice-presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco – órgão que une representantes do poder público e da sociedade civil para a fiscalização e ações de proteção do rio.

Reprodução/TV Globo
Líder dos pescadores na novela, Zé Pirangueiro é retrato da degradação do rio Imagem: Reprodução/TV Globo
Na trama, os autores levantaram debates sobre a presença das hidrelétricas na região, os dilemas relacionados à transposição do São Francisco e o uso excessivo de agrotóxicos nas plantações à margem das águas.

“Nos sentimos muito representados. Ali estão problemas comuns no nosso dia a dia. São situações que mostram como as hidrelétricas impõem suas forças e como elas têm relação com as questões políticas nas cidades”, analisa Oliveira, que acredita que a novela deixou as pessoas mais conscientes dos problemas, o que fará com que cobrem mais do poder público.

“A novela chama a atenção para o absurdo que é 90% dos municípios banhados pelo São Francisco jogarem seus esgotos no rio e para o perigo da diminuição da vazão das águas, controlada pelas hidrelétricas, que contribui para a salinização do São Francisco”, complementa.

Oliveira destaca ainda o simbolismo do personagem Zé Pirangueira (José Dumont), que vê os peixes morrerem e reflete a degradação do rio: “Ele representa muitos dos moradores dessa região, que vivem do rio para sobreviver. O desaparecimento dos peixes está tirando o sustento deles. E, assim como o personagem, muito terminam caindo no alcoolismo”.

Turismo em alta

A beleza e a cultura do rio presentes em “Velho Chico” fizeram muita gente querer conhecê-lo de perto. A ida de turistas para a região aumentou consideravelmente, segundo os moradores das cidades ribeirinhas. “Um aumento em torno de 25%”, afirma o empresário Manoel Foguete, dono de uma empresa de passeios ecológicos em Canindé de São Francisco (SE).

A empresa criada por Foguete há 20 anos é responsável por dois dos principais roteiros turísticos feitos por quem visita o local. O primeiro, cujo ponto de partida é Canindé, leva os visitantes para conhecer e se banhar nas águas verdes do chamado Cânion de Xingó. O outro é a Rota do Cangaço, que refaz parte da história do cangaceiro Lampião e visita o local onde ele e seu bando – incluindo a mulher, Maria Bonita – foram assassinados em meio à caatinga do Sertão.

“Nossa região é privilegiada e gerida pelo ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, ligado ao Ibama), bem fiscalizada. O turismo da gente tem consciência da preservação”, diz Foguete.

Fernando Angeoletto/UOL
Passeio de canoa percorre Cânion do Xingó, no São Francisco Imagem: Fernando Angeoletto/UOL

Outra sede de gravações de “Velho Chico” foi Piranhas (AL). Tombada como patrimônio paisagístico e histórico do Brasil, a vila fundada no século 19 também viu, nos últimos meses, aumentar o número de turistas nas suas ruas de arquitetura neocolonial. Dono de uma pousada na cidade, o arquiteto recifense Álvaro Moreira conta que a chegada de visitantes cresceu bastante, sobretudo de pessoas de fora do Nordeste. “Ficou visível o crescimento dessa procura. Principalmente entre pessoas do eixo Rio-São Paulo”, diz.

Moreira é pesquisador da cultura local e lembra que por aquela região passou Dom Pedro II, em 1859, durante sua expedição pelos estados nordestinos. O arquiteto atualmente se dedica a ações de revitalização da cultura popular de Piranhas. Na pousada Casa, num sobrado do século 19, ele também criou uma espécie de espaço cultural onde acontecem apresentações artísticas e são oferecidos cursos e oficinas de música.

“Recriamos um pastoril, folguedo típico do Nordeste, e conseguimos fazer uma oficina de sanfoneiros”, conta Álvaro Moreira. “Essa é uma região em há uma forte cultura indígena. São lugares onde as pessoas fazem e vendem acessórios artesanais de pesca, e também habitam lendas como a do Negro D’Água, uma figura brincalhona das águas do rio”, conta o pesquisador.

Carrancas, amuleto dos barqueiros

Embora não tenha sido set das gravações da novela, a cidade de Petrolina (PE) também virou destino de turistas encantados com as histórias do São Francisco. “Durante a fase de pesquisa, parte da equipe esteve aqui conversando com a gente, querendo saber mais sobre a nossa cultura”, conta Maria da Cruz, filha da artesã Ana das Carrancas, símbolo do artesanato da cidade.

Divulgação
Carrancas feitas em barro são uma espécie de amuleto dos barqueiros do Velho Chico Imagem: Divulgação
Ana, que morreu em 2008, aos 85 anos, é uma referência nacional na criação de carrancas, figura feita de barro, usada como amuleto de proteção dos barqueiros que navegavam no rio. “Nos anos 1940 até 1960, as carrancas eram colocadas nos barcos, porque as pessoas acreditavam que elas espantam maus espíritos. O rio, assim como tudo que é natural, tem seus mistérios. Muita gente na região ainda credita que as carrancas protegem, mas outros já passaram a ver essas peças como apenas como artesanato da nossa região e lembrança do passado”, explica Maria.

Segundo a artesã, a venda das carrancas também aumentou. “A gente está recebendo turista de vários estados e cidades. A venda cresceu uns 50%”, conta. “E acho que vai crescer ainda mais. Porque na nova novela das 21h, ‘A Lei do Amor’, vão usar também nosso artesanato como cenário. A equipe da novela já veio aqui é comprou duas carrancas grandes nossas para usar.”

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