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Em nova série, Mágico de Oz é versão piorada de coronel de "Velho Chico"

Divulgação/Roger Perez Cervantes
O núcleo central da série, com a atriz Joely Richardson como Glinda, Vincent D'Onofrio como o Mágico de Oz, a porto-riquenha Adria Arjona como Dorothy e Oliver Jackson-Cohen como o Espantalho Imagem: Divulgação/Roger Perez Cervantes

James Cimino

Colaboração para o UOL, em Los Angeles

06/01/2017 04h00

Uma das críticas que Antonio Fagundes segurou com dignidade até o fim de “Velho Chico” — e que o diretor Luis Fernando Carvalho também sustentou a despeito das críticas dos telespectadores — foi o uso de uma peruca ridícula em seu personagem.

O coronel Saruê era a peruca, que por sua vez era uma metáfora para a vaidade masculina, para o poder centralizado no líder carismático demagogo com ares de semideus. No final, quando o coronel deixou de ser Saruê e virou Afrânio, o personagem perde a peruca.

O caráter cafona da peruca e sua conexão com o homem mau caráter e fraco são uma realidade também em Hollywood. Na série “Emerald City”, produzida pela NBC e que estreia no Brasil pelo canal pago Fox 1 nesta sexta-feira (6), o Mágico de Oz é, na descrição dos produtores, um demagogo.

“Ele é um homem fraco que encontra uma oportunidade de se colocar em uma posição de poder. Quando está só em seu quarto, ele vê o homem frágil que é. Fora, ele gosta de ser tratado como um semideus… Um semideus que se esconde atrás de uma peruca horrível”, diz David Schulner, um dos produtores.

Sim, é isso mesmo que você leu: nesta nova série, o Mágico de Oz é um coronel Saruê. Para o povo de Emerald City, ele dá discursos inflamados, obriga o povo a abandonar a magia e seguir apenas a ciência. Diz que tudo é melhor por causa dele.

Mas no interior de sua torre, quando está sozinho, o Mágico de Oz senta-se defronte a um espelho e tira sua peruca para enxergar o truqueiro que ele é.

O problema é que esse personagem, interpretado pelo ator Vincent D’Onofrio (o Rei do Crime da série “Demolidor”), é uma versão piorada do coronel. O Saruê era fraco por dentro, mas implacável por fora. O Mágico de Oz é fraco por dentro e por fora. Isso para um vilão é péssimo.

Mas este não é o único problema da série. Ela é igualmente uma versão muito piorada do filme de 1939, estrelado por Judy Garland. Pior até que a versão “Motown”, de 1978, que pelo menos tinha a Diana Ross e o Michael Jackson cantando e dançando.

 ALERTA DE SPOILER: SE VOCÊ NÃO QUER SABER O QUE ACONTECE NO EPISÓDIO DE ESTREIA, NÃO PROSSIGA!

Divulgação/Roger Perez Cervantes
Imagem: Divulgação/Roger Perez Cervantes
A Dorothy pega o Espantalho 
A protagonista dessa história é a Dorothy, como todo mundo sabe. Nesta versão ela é uma enfermeira que foi abandonada pela mãe na porta da casa de uma família branca. A menina é latina, interpretada pela atriz porto-riquenha Adria Arjona.  

No dia em que ela tem a oportunidade de reencontrar sua mãe biológica é tragada pelo tornado que a leva ao mundo de Oz. Lá, segundo os produtores, ela encontra um mundo que é o retrato do nosso mundo contemporâneo, com todos os nossos problemas, políticos, a opressão dos homens brancos em relação às mulheres e às minorias, a briga entre religião e ciência etc. Mas na tentativa de abraçar o mundo de Oz, os produtores exageraram. 

Está lá a Dorothy andando pela estrada que, em vez de tijolos dourados, é feita de pólen de papoula, o princípio ativo do ópio. Obviamente ela começa a viajar. Neste momento ela já nem sabe mais se é Dorothy ou Alice nos País das Maravilhas. O que acontece? Ela tem uma visão. Ou seria realidade?

Em uma cruz está dependurado o espantalho. Em uma cruz, meio Jesus Cristo, olhos claros, saradíssimo, um cortezinho aqui, outro ali (embora Dorothy seja muito enfática em dizer que ele tem uma ferida muito profunda que mal se consegue ver na tela), todo coberto de palha para atrair os corvos. Ela o desce a cruz, com suas próprias mãos de enfermeira, e o retira de seu calvário.

Rola um clima. Ele diz que não se lembra de nada, mas que vai segui-la até onde ela quiser. Rola um beijo… Sim, a Dorothy, que todo mundo jurava que era só uma menina virgem do Kansas, vai pegar o Espantalho, que todo mundo jurava ser todo feito de palha. Seria efeito do pólen de papoula? Talvez saibamos nos próximos episódios.

Marketing da diversidade
É muito bom que os estúdios estejam entendendo que os espectadores de todas as etnias, origens, orientações sexuais querem e devem ser representados em suas produções. O problema é quando fica só no discurso.

Questionados pela reportagem do UOL sobre qual seria o apelo desta história para as novas gerações, o co-produtor Shaun Cassidy respondeu que, embora tenha escolhido uma porto-riquenha por seu talento, ficou feliz de ter um elenco que parece “as Nações Unidas” e que “se todos em frente às câmeras fossem brancos e homens”, eles teriam falhado. Disse ainda esperar que a série seja importante para debater a diversidade em tempos de Donald Trump — outro semideus de peruca.

Ainda de acordo com ele, no livro original de Frank Baum “tem esse personagem que é um garoto que se transforma em garota e lidera um exército de mulheres que marcha em direção a Emerald City. Elas não querem mais ser comandadas por homens. Temos um mundo em que há um conflito entre ciência e magia — ou religião, como preferir. Temos um demagogo no poder que quer impor sua vontade ao povo. Um mentiroso. Enfim, se você acha que isso não é o suficiente, não sei mais o que posso falar”.

Até aí, tudo lindo. A Bruxa do Leste é interpretada por Florence Kasumba, uma atriz de origem germano-ugandense. Essa bruxa, no entanto, é aquela que é atropelada pela Dorothy na saída do tornado.

Mas há esperança. Eles não iriam matar no primeiro episódio da bruxa que chama mais atenção que a Dorothy nas fotos de divulgação. Aquela negra careca, com um vestido vermelho todo esvoaçante, um misto de Piná com Grace Jones, não pode ser desperdiçado assim.

Dada como morta por uma tribo cheia de personagens que você já quer que desapareçam da história igual a núcleo cômico de novela das nove, o corpo da Bruxa do Leste desaparece. Ela acorda obviamente nervosa e vai atrás da Dorothy, que a esta hora já iniciou o Espantalho no mundo das drogas. Presa fácil.

Na cena se vê de longe o vestido esvoaçante. A bruxa diz: “Acordei com um gosto estranho na boca.” Perdeu, Dorothy. Mas não. A bruxa resolve fuçar na bolsa da enfermeira e encontra uma arma, que, aliás, a protagonista pegou de um policial em circunstâncias a serem devidamente mostradas na história.

Enganada pela menina do Kansas, a Bruxa do Leste, que quase ao fim do episódio é a melhor personagem da série, dá um tiro na própria cara. Sim. Os produtores que pregam a diversidade dão a uma atriz negra talentosa o papel de uma personagem que morre nos primeiros minutos da história. E, pior, deixam o papel da Bruxa do Oeste, a irmã vingativa, a uma atriz sofrível — a romena Ana Ularu.

Tem gente que vai dizer que é racismo. Mas tem uma dose bem grande de estupidez somada a um excesso de discurso que deveria ter sido gasto em roteiro, cenários e efeitos especiais.

 

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