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"Eu me comovi muito com o drama de Zana", diz autora de "Dois Irmãos"

Divulgação/TV Globo
Maria Camargo, autora de "Dois Irmãos" Imagem: Divulgação/TV Globo

Giselle de Almeida

Do UOL, no Rio

09/01/2017 04h00

Maria Camargo já era mãe de quatro filhos quando se deparou com a história de Omar e Yaqub, os gêmeos idênticos que nunca se pareceram aos olhos de Zana e foram criados por ela com distinção, cultivando o ressentimento, a inveja e o ódio em "Dois Irmãos". Em 2002, a roteirista leu o romance de Milton Hatoum pela primeira vez e enxergou ali potencial para uma minissérie, mas a adaptação deste épico familiar, ambientado em Manaus entre os anos 1920 e 1980, encarou sua própria saga, que durou 14 anos, para se concretizar e só agora chega à televisão, sob o comando de Luiz Fernando Carvalho e com Cauã Reymond nos papéis principais nesta segunda-feira (9), após "A Lei do Amor".

Na trama, a rivalidade entre os gêmeos causa a ruína da família, formada pelo casal Halim (Bruno Anacleto/ Antonio Calloni/ Antonio Fagundes) e Zana (Gabriella Mustafá/ Juliana Paes/ Eliane Giardini). O segundo a nascer, Omar (Lorenzo Rocha/Matheus Abreu/ Cauã Reymond), apresenta dificuldade respiratória. Acreditando se tratar de um menino frágil, a mãe passa a superprotegê-lo, provocando o rancor em Yaqub (Enrico Rocha/Matheus Abreu/ Cauã Reymond).

"A personagem tinha esse desejo tão forte de ter uma família feliz, de ter aqueles filhos em torno dela, e não conseguiu realizar aquilo. Um desequilíbrio vai levando a outro, é uma história trágica mesmo. Eu me comovi muito com o drama dela. Como eu tinha construído a minha família, é como se eu sentisse a dor da frustração dela de não conseguir chegar a esse lugar", lembra Maria, 45, que diz não ter escolhido o livro, mas ter sido "tomada" por ele.

TV Globo/Divulgação
Cauã Reymond como Omar em cena de "Dois Irmãos" Imagem: TV Globo/Divulgação

Contratada da TV Globo, onde garimpava textos para adaptação, Maria fez à emissora em 2003 uma proposta inicial, que não vingou. Enquanto não conseguia emplacar o projeto, cogitou fazer uma versão do romance para o cinema e chegou a apresentar a Hatoum um argumento. "Ele gostou do que eu escrevi e foi supergeneroso. Confiou em mim, embora eu fosse uma roteirista iniciante na época, e me vendeu os direitos. Comecei a trabalhar, ainda que eu soubesse que esse era um livro mais adequado para fazer uma minissérie, por conta da extensão da história. Se virasse um filme eu teria que fazer um recorte muito mais radical", afirma.

Traduzir o estilo literário sofisticado e a estrutura não-linear do romance para as telas foi um desafio. Mesmo conhecendo a história de trás para frente, Maria dedicou-se a fazer o fichamento do livro cena a cena e a organizá-la de forma cronológica. "Já sabia que esse não era o objetivo final, era parte do processo. Desembaralhar a história me levaria a embaralhá-la de outro jeito. Tinha varais com as fichas em tudo quanto foi parede da casa", recorda ela, que optou por manter a figura do narrador, Nael (Theo Kalper/ Rian Cesar/ Irandhir Santos).

Divulgação/TV Globo
O diretor Luiz Fernando Carvalho, a roteirista Maria Camargo e o escritor Milton Hatoum no lançamento da minissérie "Dois Irmãos" Imagem: Divulgação/TV Globo

Foi quando Luiz Fernando Carvalho demonstrou interesse que as conversas com a Globo recomeçaram, em 2007. Uma primeira versão foi escrita em 2010, mas acabou não acontecendo. A atual, em dez episódios, foi criada em 2014 e gravada no ano seguinte, até finalmente ganhar data para chegar ao público.

"Eu conhecia o trabalho do Luiz, gostava muito do 'Lavoura Arcaica', para mim era uma coisa que poderia fazer parte do imaginário dele", conta. "Sempre considerei a possibilidade de que pudesse não acontecer. Era um medo, um temor, mas não fiquei paralisada. Fiquei muito amiga do Milton, isso nunca saiu da pauta. Demorou, mas teve um final feliz", conta.

Momento produtivo

Com 18 anos de carreira, Maria, que já colaborou em "Lado a Lado" e "Por Toda a Minha Vida", entre outros trabalhos, faz parte de um time de jovens autores que têm conquistado o crédito principal em produções na emissora, como Maria Helena Nascimento, no ar com "Rock Story" e a dupla Thereza Falcão e Alessandro Marzon, que estreiam em março "Novo Mundo" às 18h. Um momento que ela classifica como especial. 

 Durante muito tempo a gente podia escrever, mas caía num buraco negro, não chegava a lugar nenhum. Acho que isso está mudando na TV Globo e fora também.

"Trabalho lá desde 98, mas durante muito tempo não tinha realmente essa abertura. A gente acabava ficando um pouco confinada a fazer colaborações, era difícil furar, sair desse lugar. Os autores principais estão ainda trabalhando, mas precisava de uma renovação. Tem muita gente boa e tem espaço para todo mundo. É bom para a televisão, para a empresa e para quem está trabalhando ter espaço para apresentar seu projeto, ser ouvido. Durante muito tempo a gente podia escrever, mas caía num buraco negro, não chegava a lugar nenhum. Acho que isso está mudando na TV Globo e fora também, não só nas novelas, mas nas séries", diz. 

Agora que a minissérie se materializou, Maria se desdobra em vários projetos, como duas séries sob direção de José Luiz Villamarim, e a adaptação do livro "A Vendedora de Fósforos", de Adriana Lunardi, para um longa-metragem. A parceria com Hatoum, aliás, também continua no cinema. Maria desenvolve dois roteiros baseados na obra do amazonense: um filme inspirado no conto "O Adeus do Comandante", com direção de Sérgio Machado, e outro baseado no romance "Relato de um Certo Oriente", com Marcelo Gomes.

Corroteirista de "Nise: O Coração da Loucura", a autora também se dedica a um documentário sobre Hector Babenco, junto com Bárbara Paz. "É um projeto incrível, muito especial, nada jornalístico. É um relato poético e apaixonado sobre ele. A Bárbara já vinha gravando muitos áudios e imagens dele, tudo vai ser conduzido pela voz. Ele aprovou, quis fazer. É um filme basicamente sobre a finitude", diz.

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