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Para protagonista, comparação com séries maiores prejudicou "3%" no Brasil

Pedro Saad/Netflix/Divulgação
Imagem: Pedro Saad/Netflix/Divulgação

Beatriz Amendola

Do UOL, em Miami*

22/03/2017 04h00

Primeira incursão da Netflix no Brasil, “3%” teve uma trajetória peculiar: descrita até como "constrangedora" e "precária", a série recebeu uma avalanche de críticas na imprensa nacional e dividiu opiniões nas redes sociais antes de ter sua renovação anunciada na Comic Con Experience, em São Paulo, no fim do ano passado. Enquanto isso, fora do país, ela conquistou elogios de veículos especializados em séries e cultura geek e, se tornou, segundo a própria Netflix, a série em língua não inglesa mais vista pelos americanos na plataforma – apesar do "título", a empresa não divulga números de audiência.

Como explicar essa discrepância? Bianca Comparato, que interpreta a dúbia protagonista Michele, diz não entender bem o fenômeno, mas acredita que as expectativas construídas em torno da série e a própria cultura brasileira tiveram seu papel na recepção controversa que “3%” teve em sua terra natal.

“A série foi comparada a ‘House of Cards’, mas não estamos fazendo ‘House of Cards’”, afirma a atriz a um grupo de jornalistas latino-americanos em um hotel em Miami. “Estamos fazendo ficção científica para adolescentes, é uma produção pequena, não tínhamos o mesmo orçamento. Como você pode julgar assim? Tom Jobim disse que você tem que se desculpar por fazer sucesso no Brasil. Quando algo tenta quebrar nossas barreiras, as pessoas ficam incomodadas. Não sei explicar. É uma coisa da nossa cultura, não sei o que é. O Brasil também se isola da América Latina. Falamos de Brasil e da América Latina, mas eu sou latina também”.

Pedro Saad/Netflix/Divulgação
Candidatos são submetidos a um árduo processo seletivo em "3%" Imagem: Pedro Saad/Netflix/Divulgação
Apesar disso, algumas das críticas levantaram pontos que podem ser melhorados na segunda temporada, avalia Bianca. “Li algumas coisas e pensei ‘Eles estão certos, devemos melhorar na próxima temporada’. Mas acho que isso é bom, no fim das contas. Se a série está fazendo as pessoas amarem, odiarem, falarem sobre ela, isso é incrível. Sei ouvir críticas ruins também, não tenho que levar para o pessoal”.

A repercussão internacional foi uma surpresa para a atriz, que recebeu mensagens de outros países logo após a estreia da série e chegou a ser reconhecida no festival South by Southwest, em Austin. “Para mim, foi incrível porque significa que as pessoas estão vendo a série aqui. Não sei qual era a expectativa da Netflix, mas para mim foi uma grande surpresa, porque eu fiz a série pelo Brasil, pensando que seria uma série para brasileiros e, no fim das contas, foi o contrário. Mas no Brasil temos uma base de fãs enorme, de adolescentes, principalmente”.

Bianca credita a boa recepção à temática da série, que se passa em um futuro distópico onde apenas 3% dos jovens, aprovados no Processo, recebem a chance de deixar uma vida de miséria e ir para o Maralto, onde há boas condições.

“É possível relacionar com o que está acontecendo hoje, Brexit, Trump... Na América Latina isso [a desigualdade] acontece desde sempre, não há classe média. E todo mundo que ser dar bem. Qual o segredo do sucesso? Temos livros, as pessoas te dizem o que fazer, como agir. De certa forma, o processo é isso. Ezequiel [João Miguel] é um mini Deus te dizendo se  você é bom o suficiente ou não, julgando o seu mérito.  É muito fácil de se identificar. Todo dia nós somos julgados, é muito humano”.

A nova temporada não tem data para estrear. Ela ainda está em seus estágios iniciais, nos trabalhos de roteiro – o que não quer dizer que Bianca não esteja por dentro do universo da série: “Tenho lido muito sobre o futuro, o que está acontecendo na biologia, edição de genes, carros automáticos, energia renovável, dados, algoritmos. Eu leio essas coisas e mando para os roteiristas para inspirá-los”.  

Feminismo e desafios

Aos 31 anos de idade e 14 de carreira, que incluíram produções como a novela “Avenida Brasil” e a série “Sessão de Terapia”, Bianca teve de lidar com a missão de interpretar sua primeira protagonista em uma grande produção, Mas seus maiores desafios em “3%” aconteceram atrás das câmeras, já que ela acabou se tornando a ponte entre parte do elenco e a produção.

“Tínhamos atores muito novos, igualmente talentosos, mas não tão experientes, então houve muito trabalho nos ensaios. E tivemos novos diretores, era a primeira série da Netflix no Brasil. Eram tantas primeiras vezes. Foi algo que realmente tivemos que encarar, mas foi incrível. Me senti mais forte no final”.

Para viver Michele, a atriz buscou inspiração em mulheres fortes da história e das artes que militaram em favor de direitos humanos, como a imortal da Academia Brasileira de Letras Rosiska Darcy de Oliveira, que denunciou crimes cometidos pelo regime militar brasileiro, e as atrizes Jennifer Lawrence e Emma Watson, que recentemente se tornaram símbolos da luta pela igualdade de gênero.

E a classe artística, na opinião de Bianca, tem uma responsabilidade importante em falar sobre o feminismo. “Quando você escuta o que as mulheres estão dizendo, elas querem ser ouvidas, incluídas. Outros movimentos também: latinos, gays, todos querem ser ouvidos, ser incluídos.  E é fácil nos calar se você transforma isso em uma coisa ruim. Acho que as mulheres falarem sobre isso é o melhor a ser feito, temos ótimas artistas falando, acho que isso ajuda a desmistificar o assunto, fazer com que ele perca a má reputação”.

Isso inclui também colocar mulheres em posições importantes nos bastidores, onde elas ainda são minorias. “Acho que o que falta na indústria são mulheres atrás das câmeras, para expressar nossas vozes. Se você olha os números, quando você coloca minorias nos filmes, eles são bem-sucedidos. As pessoas querem ser vistas, elas querem se identificar”, defende a atriz, que tem planos de estrear na direção: “Estou trabalhando em um projeto, mas ainda é cedo para falar nele” .

*A jornalista viajou a convite da Netflix

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