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Fernanda Montenegro diz que Mercedes é papel inédito: "Sempre fazia a rica"

Estevam Avellar/Globo
Fernanda Montenegro diz que ficou encantada com Mercedes e adorou assumir fios brancos: "Absoluto conforto" Imagem: Estevam Avellar/Globo

Marcela Ribeiro

Do UOL, no Rio

19/04/2018 04h00

A novela "O Outro Lado do Paraíso" está em sua reta fina, termina em 11 de maio, mas Fernanda Montenegro ainda terá muito trabalho pela frente neste ano, no qual completa 89 de vida. Ela está envolvida em dois livros sobre sua carreira, um deles previsto para sair ainda em 2018 e o outro, uma autobiografia, que será publicada pela Cia. das Letras, ainda sem data.

A rezadeira Mercedes é um marco em sua carreira de sete décadas. "Sempre fazia as ricas das novelas das nove ou as bandidas ou as senhorinhas honestas e aí me veio essa personagem que, na verdade, não tem idade", contou a jornalistas em um intervalo de gravações da trama de Walcyr Carrasco, na terça-feira (17).

Fernanda agradece ainda a Mercedes a possibilidade de assumir seus cabelos brancos. "É um absoluto conforto, a não ser que exijam mudança para algum papel, é este cabelo que vai ficar, ainda mais na beirada da vida que já estou", disse.

Com naturalidade, Fernanda demonstra que lida muito bem com o passar do tempo e acredita que se tivesse feito plásticas ou mudado a aparência seria difícil continuar a desenvolver seu ofício.

"Nesta profissão, se você começa a se costurar muito, tem uma hora que não tem papel para você. Por mais que você faça pilates, não sei mais o que, as tuas juntas têm o seu tempo de uso. Como também você vai envelhecendo publicamente, você imagina amanhã eu chegar toda operada? Não tem mais emprego, não tenho nem dentro de mim mesma."

Leia a seguir a entrevista, na qual ela relembra seu casamento com Fernando Torres, fala do lado ruim da fama e admite não gostar de selfies.

João Miguel Júnior/Divulgação/TV Globo
Fernanda Montenegro viveu a vilã rica Bia Falcão em "Belíssima" (2005) Imagem: João Miguel Júnior/Divulgação/TV Globo


O que a dona Mercedes lhe ensinou?
A Mercedes é um personagem totalmente novo na minha vida dentro das novelas. Achei mais do que interessante, achei um desafio e adorei ter que fazer uma velhinha rezadeira porque sempre fazia as ricas das novelas das nove ou as bandidas ou as senhorinhas honestas e aí me veio essa personagem que, na verdade, não tem idade. Tem também essa mística tão brasileira. Nela tem tantas religiões juntas. Adorei fazer. Agradeço terem me chamado para fazer.

Na televisão foi um personagem absolutamente novo, daí o encanto de eu fazê-la, de uma personagem que de repente tem um material, do qual eu pude trabalhar de alguma maneira".

Você emprestou muita coisa sua para a Mercedes? Ela te ensinou muita coisa?
Ela tem uma mística que acho que eu tenho. Santo Agostinho que diz: 'Se você dúvida, é porque você já acredita'. Ela tem um mundo místico muito amplo e é tão do povo brasileiro, da nossa crença popular. Foi uma grande inspiração do Walcyr.

Já teve curiosidade espírita para saber de alguma coisa da sua vida?
Espírita não digo. Tenho uma formação muito católica, mas de um catolicismo popular. Tive bisavô que tirava mau olhado, rezava, tomava uma reza, um credo, um padre nosso, sempre dentro dessa estrutura mais católica porque eram muito religiosos dentro de uma religião que eles trouxeram da Itália.

Como foi contracenar com Laura Cardoso e Lima Duarte?
Essa novela trouxe quatro atores que estão indo de 90 para 100 anos, tem Nathalia [Timberg], tem a Laura, que já está nos 90, tem o Lima, tenho eu, que faço já 90. E, assim, caminhando para 90, o Juca de Oliveira. Tem também os que estão caminhando dos 70 para os 80, mas aí já é adolescência ainda. É uma novela corajosa porque pôs nas mãos de atores, teve espaço dentro da dramaturgia mesmo da novela, é muito interessante. Não é só 'vamos botar uma senhorinha para fazer uma cena de transição'. Não. O Walcyr, junto com o Mauro [Mendonça Filho], deram essa espaço para nós que estamos saindo dos 90 e nos entrosamos muito bem. É tão interessante isso. É a absolutamente novo na dramaturgia. Não tenho notícias de uma história em que cinco velhos juntos. É uma frente de quase 500 anos. Pelo que posso perceber, a gente ainda anda, ainda fala e ainda convence as pessoas que veem.

Globo/Raquel Cunha
Mercedes sobe ao altar com Josafá Imagem: Globo/Raquel Cunha


A cena do casamento da Mercedes com o Josafá emocionou parte do público. O que achou?
Houve ali um despreparo, né? Não sei se até o fim da novela vai ter um preparo para isso. Também estou esperando se o autor resolve se a gente fica só de mão dada ou se a gente vai adiante.

Na cena em que Mercedes fez um pacto com a morte para ter mais tempo com o amado parou a internet. Se você tivesse de parar a morte, trazer alguém para ficar mais tempo com você, quem seria?
Sem dúvida traria o Fernando [Torres] porque foram 60 anos de vida muito cumpliciada, não só da porta de casa para dentro, como principalmente na nossa profissão, na potência que ele tinha como homem de teatro. Enquanto ele viveu, eu fui do palco para dentro, ele foi do teatro. Da coxia até o espectador. Quando ele se foi, alguma coisa mudou. Assumi durante um tempo isso. Engraçado porque a vida me levou para o cinema, para a televisão, mas se eu tivesse que fazer uma chamada de companhia eterna, seria o Fernando, se pudesse.

Reprodução
Fernanda Montenegro com o marido Fernando Torres na década de 50 Imagem: Reprodução
Conte um pouco do seu casamento com Fernando Torres.
Foi há muitos anos, em 1953, já nos conhecíamos, já namoramos. Cheguei a noivar, fui moça que noivou, casou de vestido de noiva, protegido, né? Porque as noivas hoje casam quase com os seios de fora. Cada época tem sua maneira de ser. Nessa minha época, a gente ainda casava de manga comprida, vestido fechadinho. Foi uma vida encontrada não só na particularidade, mas também numa vocação mítica porque até a gente ter coragem de sair. Educamos nossos filhos no palco, não devemos ter sido pais tão esquisitos porque eles todos vieram para a mesma área. Tenho que agradecer a Deus esse homem ter entrado na minha vida e eu na vida dele.

No dia 16 de outubro você completa 89 anos e, para celebrar essa data será lançado seu livro de memórias. Como está sendo o processo de mexer no passado?
Já estamos trabalhando neste livro, de três para quatro anos porque são 73 anos de vida pública e ali tem o que sobrou de fotos da vida particular, comecei em rádio com 15 para 16 anos. Depois aos 19 anos, cheguei ao palco. A televisão começava em dezembro de 50. Em janeiro de 51, já fui contratada por aquela primitiva TV. Na época tinha essa ambição altamente cultural. Então partimos da retrospectiva do teatro universal, aí comecei com 'Antígona'. Até que chega no teatro, é tanta coisa, são tantos anos. O livro tem o que sobrou de fotos, o que juntei na vida de documentos importantes, aí já entram os prêmios todos. De repente me vi em Hollywood, em Berlim. Através da Globo, duas vezes fui ao Emmy.

O livro será lançado em agosto na Bienal Internacional do Livro, em São Paulo. Estou preparando também uma autobiografia, da Cia. das Letras. Aí já não é tanto essa documentação, é muito mais como se fosse uma longa entrevista da minha vida.

Divulgação
Fernanda Montenegro e Vinícius de Oliveira em cena no filme "Central do Brasil" (1998) Imagem: Divulgação


Tem algum momento da vida que a Fernanda destaca?
São muitos anos, muitas frentes. Parece que é aquele momento, daqui a pouco já não é mais. Foi sempre na alegria de estar fazendo aquela vocação e, ao mesmo tempo, uma vocação desafiadora. Ainda mais no palco. Você entrou no palco, ou você é ou não é. Ninguém vai te salvar. Na expressão da arte eletrônica, todo mundo pode se salvar. Se você errou, volta, se não chorou, pinga uma lágrima, se não se entendeu o que falou, manda repetir. No palco, não. No palco é diariamente vida ou morte.

Qual sua opinião sobre essa questão da possibilidade de cair a exigência do DRT, registro profissional do ator?
A profissão continua, o que se debate é a formação para se chegar a ela. No nosso modo de encarar a profissão e no vale de lágrimas que é, toda maneira de amar vale a pena. Então, vale a escola e vale o sindicato.

Raquel Cunha/Globo
Fernanda Montenegro e Laura Cardoso em "O Outro Lado do Paraíso" Imagem: Raquel Cunha/Globo


Acha que esse paralelo que o Walcyr fez de dar voz a atores mais consagrados e dar voz a atores novatos é um sinal de que não se pode esquecer quem já fez muito pela arte?
O folhetim que é a base de novelas requer um leque de idades porque se fala de uma estrutura ou classe média, ou da classe ainda menos favorecida ou da classe aristocrata ou da classe burguesa. Você tem a mocinha, o mocinho, a mamãe, o papai, o pai nobre, que geralmente é o vovô, isso tudo está dentro de um leque de personagens de quando você quer escrever uma peça.

O folhetim necessita esse leque de idades e histórias em que esses personagens de diversas idades se chocam ou se acham. A TV é um meio de uso deste leque de idades. Toda novela tem desde a criança até a velhinha ou velhinho. Então tem que ter uma geração plena, uma geração que está vindo ou começando, uma geração que está no meio do caminho e, na medida do possível, uma geração dos que já estão indo.

Como é contracenar com atores novatos que tanto admiram sua carreira?
Isso representa um reconhecimento dentro de uma profissão na qual eles estão chegando. Reconhecimento sim, porque a gente sobreviveu e devemos ter alguma qualidade a ponto de ainda estarmos agindo. Quando um jovem vocacionado olha para um ator que sobreviveu, é como no meu tempo, quando tive 15 anos. Você quer que aquela profissão te leve a sobreviver, em todos os sentidos. Do ponto de vista artístico até seu prato de comida, chegar ali, sobreviver ali.

Quem eram seus ídolos aos 15 anos?
Era a Bibi Ferreira, era Dulcina de Moraes, Madame Morineau, Procópio Ferreira.

Como lida com a fama?
Você luta para fazer uma profissão, depois ela vem te trazendo prestígio. Esse prestígio, ele pulsa, tem solicitações de toda ordem. Você sobrevive a duras penas, então essa glória é estranha porque, às vezes, você sonha que quando chegar a um status da vida, tudo vai ser fácil. Não, todo dia é um recomeço. Todo dia nem é um recomeço, todo dia é um começo.

O que é o lado ruim da fama?
É a gente acreditar na fama, isso é um horror. A partir daí é um desencadear de horrores, é muitas vezes você ser massa de manobra, você tem que estar alerta. Teria que ir para casa e levantar essa lista.

Como lida com a tecnologia?
No meu celular, só sei ligar alguns telefonemas. Não sei nada de WhatsApp, nada. Daqui a pouco vou aprender. Também tenho, nessa base de comunicação, quem faça. Se fosse absolutamente sozinha e tivesse um aparelho desses, ia ter que aprender. Prefiro ainda pegar um livro e ler, virar a página. Quando tenho que decorar, pego o meu papelzinho. Não sei como vai ser, acho que não estarei mais por aqui, quando os capítulos não forem mais copiados em papel. Enviam pela internet, e talvez você não tenha nem papel para copiar o que está na eletrônica. Por outro lado, é a era da ciência e tecnologia, não vai ter volta.

Já se acostumou com as selfies?
As pessoas falam comigo, aonde eu vou tem gente que sabe quem eu sou. Tive uma vez uma aproximação invasora. Estava num hotel almoçando e um homem veio com uma câmera de filmagem. Eu disse: "Senhor, para de fazer isso porque estou almoçando. Quem deu ordens do senhor fazer um negócio desses?" Mas geralmente a aproximação das pessoas é muito humanizada. Por que vou ficar incomodada? Vivo me exibindo há 73 anos em teatro, televisão. Como é que vou ficar estranhando a pessoa? Não, recebo com muito carinho. Ninguém me chateia, não. Ninguém se estende mais que um cumprimento. Tem o negócio da selfie. Às vezes, dizem: "Minha filhinha quer tirar". A filhinha tem 3 anos de idade, não sabe nem quem eu sou. O negócio da selfie é uma coisa que me incomoda. Quando eu posso, tiro, na maioria das vezes, não.

AgNews
A atriz diz que é um "absoluto conforto" poder deixar os cabelos brancos Imagem: AgNews


Como faz para manter o cabelo branco sem manchar?
Não sei se ele vai continuar assim. Deixando os cabelos assim para a novela, aí que eu vi que realmente estava tudo branco. Você está sempre fazendo um personagem, está sempre pintando o cabelo. A Mercedes me deu isso também de felicidade. Deixei o cabelo vir e ele hoje está todo branco. É um absoluto conforto, a não ser que exijam para algum papel, mas é esse cabelo que vai ficar, ainda mais na beirada da vida que já estou. Tem um shampoo de cabelo branco, que é violeta. De cabelo escuro não vale para cabelo branco.

Como foi o seu lidar com o passar dos anos?
Nesta profissão de atriz teatral, se você começa a se costurar muito, tem uma hora que não tem papel para você. Por mais que você faça pilates, não sei mais o que, as tuas juntas têm o seu tempo de uso. Como também você vai envelhecendo publicamente, você imagina amanhã eu chegar toda operada? Não tem mais emprego, não tenho nem dentro de mim mesma. No dia a dia da vida, você não percebe, mas alguma coisa se foi. Um dia lá, você vê, tem uma bolsa aqui embaixo dos olhos. Sim, essa bolsa veio vindo há 20 anos. Novela está uma coisa dolorosa, né? Você começa com 20 anos, no fim da novela você é mãe de um adolescente ou já de uma menina que casou muito novinha, já está esperando neném e já vai ser vovó. Então é melhor a gente ter a cara que Deus nos deu com o tempo.

Como vê a evolução da mulher e tudo o que passou ao longo de sua carreira e hoje ter um pouco mais de voz?
A batalha do feminino é importante, é um ser humano. Somos todos criaturas, independentes de sexo, somos criaturas. Tenho muito isso dentro de mim. Vim para uma opção extraordinária, inclusive durante séculos as mulheres não estavam em cena, não havia essa possibilidade. A partir do momento que a mulher foi para a cena, foi um dos maiores ganhos do feminismo. Numa hora em que a cena era por princípio a maior expressão de uma arte. Desde que a mulher esteja em cena com aquele respectivo companheiro homem, ela pode ser melhor que ele, ele pode ser melhor que ela. O teatro necessita desse choque, da crise, também da sexualidade. Mas, em princípio, o espaço da existência teatral não tem sexo, pelo menos dentro dessa coisa dinâmica de mais forte, melhor, mais poderoso. No dia a dia, a gente ganha. Sei de histórias de mulheres extraordinárias, imagina isso nos velhos tempos em que você nem votava? Uma viúva não podia chegar à janela sozinha, uma jovem tinha que ser virgem, isso tudo já foi vencido. É preciso que haja fundamentalmente e sem rancor, a igualdade de criaturas, mas todos somos.

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