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Detento em série, ator diz que sistema penitenciário reorganiza escravidão

Divulgação/Beto Besant
Jonathan Haagensen vive o boxeador Baiano em "Carcereiros" Imagem: Divulgação/Beto Besant

Guilherme Machado

Do UOL, em São Paulo

18/05/2018 04h00

Baiano é um homem com talento para o boxe que acaba preso por roubo a banco. Ele chama atenção do carcereiro Adriano (Rodrigo Lombardi), que acredita na recuperação de presos, e decide ajudá-lo a concorrer, de dentro do presídio, a uma vaga na equipe pan-americana de boxe. A história do personagem vivido por Jonathan Haagensen na série “Carcereiros” tinha uma mensagem clara: a da reabilitação, uma possibilidade quase impossível, na visão do ator, no sistema carcerário brasileiro.

“O meu episódio fala de reabilitação enquanto o sistema, na verdade, não deixa [o preso] se reabilitar. Você tem uma sociedade que quer mais encarcerar do que dar chance", conta o ator ao UOL sobre o episódio exibido nesta quinta (17). 

"Sem tirar responsabilidade dos atos do Baiano, ele é uma vítima da sociedade. Por que não conseguiu desenvolver esse talento fora do sistema? Porque a maioria já foi vítima antes de estar ali dentro. É um processo da reorganização da escravidão, reflexo das penitenciárias”.

O convite para participar da série partiu do cineasta Fernando Grostein, idealizador do projeto. Morador do morro do Vidigal, revelado em filmes como “Cidade de Deus” e “Cidade dos Homens”, Haagensen  diz ter sentido nas próprias costas o peso do descaso do Estado.

“Posso dizer que o Estado, a sociedade, não te dá o acesso, ela transforma o pobre em mais pobre. Ninguém tem acesso a educação. Eu venho de um projeto, o Nós do Morro,  que fez tudo que o governo fez, e olha onde as pessoas que participaram do projeto estão. É uma questão de oportunidade mesmo”, afirma ele sobre o grupo que revelou, entre outros, os atores Thiago Martins, Roberta Rodrigues e Marcelo Mello.

Haagensen conta ter se preparado para a série em uma escola de boxe no próprio Vidigal. “Comecei a treinar para o Baiano em uma escola de boxe que revela garotos aqui no Vidigal. Nas últimas Olimpíadas, tivemos dois alunos aqui do morro, formados por essa escola. E o que o Estado fez? Nada”.

Representatividade em novela: "Não foi displicente"

Divulgação/Beto Besant
Jonathan Haagensen e Tony Tornado em cena de "Carcereiros" Imagem: Divulgação/Beto Besant

Escalado para vários trabalhos na Globo, o ator não se furta de comentar a polêmica envolvendo a escalação de elenco de "Segundo Sol", nova novela das 21h da emissora, que foi criticada por se passar na Bahia, estado com a maior população negra do Brasil, e ter um elenco majoritariamente branco.

Para Jonathan Haagensen, não se tratou de um descuido. "Temos que ter um olhar equilibrado sobre uma sociedade com 72% da população descendente de africanos e a Bahia tem 80% da população. É uma conta fácil. Quem comanda essa ordem é bem inteligente, não foi nada displicente, são coisas pensadas". 

Na avaliação do ator, a luta contra o racismo ainda tem um longo caminho a ser percorrido. “Lutar pelos seus diretos é muita frustração. A luta ela já existe há muitos anos. Imagina quanto tempo demorou para fazerem um filme em que a maioria do elenco fosse negro. Tem uma perversidade da supremacia, do patriarcado. A gente vive em um país assassino que mata, por racismo, machismo, preconceito. Aí sobra só para quem não tem condições de pagar um bom advogado”.

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