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Bessa: o poeta que você talvez não conheça mas a sua tia do WhatsApp gosta

Reprodução/Globo
Bráulio Bessa tem um quadro fixo no programa "Encontro com Fátima Bernardes" Imagem: Reprodução/Globo

Guilherme Machado

Do UOL, em São Paulo

15/06/2018 04h00

Em suas primeiras aparições no “Encontro com Fátima Bernardes”, há quatro anos, o poeta e escritor Bráulio Bessa precisou pegar ônibus para chegar até os Estúdios Globo, na zona oeste do Rio. Hoje, a situação é bem diferente.

“Nunca sonhei ter o carro que tenho hoje, nem a casa que tenho hoje, viajar por onde eu viajo, ter esse conforto que tenho. Gosto de todas essas facilidades que o dinheiro traz, principalmente sabendo que é de um trabalho muito honesto, que comecei quando tinha 14 anos. Tenho condições de ajudar minha família, meus amigos. Mas da mesma forma digo: sou muito tranquilo, se precisar vender o carro e voltar a andar de ônibus, eu não desaprendi”, afirma.

Com a fama que a TV e as redes sociais trouxeram, ele tem recebido convites para ministrar palestras e até para fazer publicidade. "Faço palestra segunda, terça e quarta. Quinta e sexta vou para o Rio, e sábado e domingo corro para o meu interior para poder recarregar as baterias. É uma correria grande, mas como diria meu avô: o cabra tem que roer enquanto tem dente."

Neste ano, ele deve lançar seu segundo livro, “Poesia que Transforma”, com 50 poemas que declamou no programa e também terá o depoimentos de pessoas que foram transformadas pela poesia. O primeiro, “Poesia com Rapadura”, saiu no ano passado.

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Bráulio Bessa em um de seus vídeos no Youtube Imagem: Reprodução/Youtube

"Na juventude, botei na cabeça: quero ser poeta, quero ser igual esse cabra aqui [Patativa do Assaré]. Não sabia se eu tinha o tal do dom, que tanta gente fala, mas eu tinha muita vontade. Para mim o dom da arte é divino e tudo que é divino vem também de merecimento. Tive tanta vontade que Deus ia dar o dom para mais alguém, pegou uma raspinha e jogou um pouquinho para mim", disse, com a voz prejudicada pelo grande número de palestras.

A paixão de Bessa pelos textos de Patativa é tanta que ele tem uma poesia do autor tatuada no braço. Criado em Alto Santo, cidade no interior do Ceará com 16 mil habitantes, ele teve contato com poesia em sala de aula.

Ele começou a treinar sozinho, se inspirando na literatura de cordel e no estilo de Patativa. Ele tinha medo de declamar suas poesias para os outros, mas acabou encontrando um meio bem eficiente de fazer isso: na internet.

"O poeta nordestino geralmente vai para a feira da cidade e declama seus poemas o mais alto possível para chamar a atenção do povo. No meu caso, eu muito tímido, vi na internet a maior feira do mundo. Uma feira que não fecha hora nenhuma, tem todo o tipo de gente, e o que é mais incrível, não tem fronteira. O conteúdo criado por mim lá em Alto Santo pode ser apreciado em Nova York, Tóquio, Berlim, no mesmo momento e sem que precise me distanciar. Peguei um celular, gravei um poema de literatura de cordel e publiquei nas redes sociais. No dia seguinte tinha sido assistido por 2 milhões de pessoas."

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Bráulio Bessa ao lado de Fátima Bernardes Imagem: Reprodução/Globo

Fatinha, minha amiga

A iniciativa chamou atenção de pessoas que ele não esperava, algo que Bráulio chama de “acidente da arte”. Um dia, ele foi convidado pela produção do "Encontro" para discutir xenofobia e entrou, ao vivo, pelo Skype. Já na estreia, chamou a dona da atração de Fatinha.

"No interior, a gente já puxa logo para a amizade", relembra.

Depois dessa, ele se sentou no sofá de Fátima em outras oportunidades, sempre como ativista cultural.

Porém, logo ele percebeu que suas participações não correspondiam aos seus sonhos: "Estava incomodado com essas minhas aparições como estudioso, pesquisador, não sou isso. Meu papel nesse mundo sempre foi fazer poesia, falar com o povo através de poesia. Pensei: Já tive oportunidade cinco ou seis vezes de segurar um microfone, em um programa ao vivo, na maior emissora de TV desse país, e nunca disse um poema. Eu sou frouxo".

Foi aí que criou coragem para declamar um poema, levando a plateia à loucura. Aos poucos, as participações do autor cearense nas manhãs da Globo viralizaram. O primeiro foi um texto sobre o combate às drogas. Hoje, já são mais de 90 temas tratados pelos poemas.

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Bráulio Bessa entrevistado no programa de Jô Soares Imagem: Reprodução/Globo

Para se ter uma ideia da fama, os poemas de Bessa tiveram 158 milhões de visualizações na plataforma digital da Globo. Sem contar os compartilhamentos em redes sociais --o poeta é seguido por 1 milhão de fãs no Instagram.

“Hoje faço parte de todos os grupos de família do WhatsApp. Todo dia tem que ter pelo menos um poema meu em algum grupo [risos]. Esses números são inclusive um cutucão para que a própria televisão entenda que existe sim um público muito grande para consumir cultura popular brasileira nesse país”, opina.

O poeta também expressa gratidão com os colegas globais. “Considero esse povo doido de ter confiado [em mim]. Eles não me conheciam, ninguém sabia quem eu era. Um programa ao vivo, você entrega o microfone na mão desse cabra e diz: “Pode se virar”. Nunca me pediram para mudar uma vírgula do que escrevo.”